terça-feira, 3 de setembro de 2013

O Sacríficio da Missa.

Por Edward Saint-Omer

Baseado na doutrina de Santo Afonso Maria de Ligório, doutor da Igreja, o autor, também ele já clássico, nos oferece uma exposição bastante clara e objetiva do que é a Santa Missa e das suas quatro finalidades: na Missa, os fiéis louvam a Deus, agradecem-lhe, pedem-lhe perdão pelos seu pecados e também as graças de que necessitam.

A GRANDEZA DO SANTO SACRIFÍCIO DA MISSA

I. É Jesus Cristo a vítima oferecida na Santa Missa

O Concílio de Trento (Sess. 22) diz da Santa Missa: “Devemos reconhecer que nenhum outro ato pode ser praticado pelos fiéis que seja tão santo como a celebração deste imenso mistério”. O próprio Deus todo-poderoso não pode fazer que exista uma ação mais sublime e santa do que o santo sacrifício da Missa. Este sacrifício de nossos altares sobrepassa imensamente todos os sacrifícios do Antigo Testamento, pois não são mais bois e cordeiros que são sacrificados, mas é o próprio Filho de Deus que se oferece em sacrifício. “O judeu tinha o animal para o sacrifício, o cristão tem Cristo”, escreve o venerável Pedro de Clugny; “seu sacrifício é, pois, tanto mais precioso, quanto mais acima de todos os sacrifícios dos judeus está Jesus Cristo”. E acrescenta que, “para os servos (isto é, para os judeus, no Antigo Testamento), não convinham outros animais senão aqueles que eram destinados ao serviço do homem; para os amigos e filhos foi Jesus Cristo reservado como cordeiro que nos livra do pecado e da morte eterna” (Ep. cont. Petrobr.). Tem, portanto, razão São Lourenço Justiniano, dizendo que não há sacrifício maior, mais portentoso e mais agradável a Deus do que o santo sacrifício da Missa (cfr. Sermo de Euch.).

S. João Crisóstomo diz que durante a Santa Missa o altar está circundado de anjos que aí se reúnem para adorar a Jesus Cristo que, nesse sacrifício sublime, é oferecido ao Pai celeste (De sac., 1, 6). Que cristão poderá duvidar, escreve S. Gregório (Dial. 4, c. 58), que os céus se abram à voz do sacerdote, durante esse Santo Sacrifício, e que coros de anjos assistam a esse sublime mistério de Jesus Cristo. S. Agostinho chega até a dizer que os anjos se colocam ao lado do sacerdote para servi-lo como ajudantes.

II. Na Santa Missa é Jesus Cristo o oferente principal

O Concílio de Trento (Sess. 22, c. 2) ensina-nos também que neste sacrifício do Corpo e Sangue de Jesus Cristo é o próprio Salvador que oferece em primeiro lugar esse sacrifício, mas que o faz pelas mãos do sacerdote que escolheu para seu ministro e representante. Já antes dissera São Cipriano: “O sacerdote exerce realmente o ofício de Jesus Cristo” (Ep. 62). Por isso o sacerdote diz, na elevação: Isto é o meu corpo; este é o cálice de meu sangue.

Belarmino (De Euch., 1. 6, c. 4) escreve que o santo sacrifício da missa é oferecido por Jesus Cristo, pela Igreja e pelo sacerdote; não, porém, do mesmo modo por todos: Jesus Cristo oferece como o sacerdote principal, ou como o oferente próprio, contudo, por intermédio de um homem, que é, no mesmo tempo sacerdote e ministro de Cristo; a Igreja não oferece como sacerdotisa, por meio de seu ministro, mas como povo, por intermédio do sacerdote; o sacerdote, finalmente, oferece como ministro de Jesus Cristo e como medianeiro ele todo o povo.

Jesus Cristo, contudo, é sempre o sacerdote principal na Santa Missa, onde ele se oferece continuamente e sob as espécies de pão e de vinho por intermédio dos sacerdotes, seus ministros, que representam a sua Pessoa quando celebram os santos mistérios. Por isso diz o quarto Concílio de Latrão (Cap. Firmatur, de sum. Trinit.) que Jesus Cristo é ao mesmo tempo o sacerdote e o sacrifício. De fato, convém à dignidade deste sacrifício que ele não seja oferecido, em primeiro lugar, por homens pecadores, mas por um sumo sacerdote que não esteja sujeito ao pecado, mas que seja santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e mais elevado que os céus (Heb 7, 26).

III. A Santa Missa é uma representação e renovação do sacrifício da cruz

Segundo São Tomás (Off. Ss. Sac., I. 4), o Salvador nos deixou o Santíssimo Sacramento para conservar viva entre nós a lembrança dos bens que nos adquiriu e do amor que nos testemunhou com sua morte. Por isso o mesmo Doutor chama a Sagrada Eucaristia “um manancial perene da paixão”.

Ao assistires, pois, à Santa Missa, alma cristã, pondera que a hóstia que o sacerdote oferece é o próprio Salvador que por ti sacrificou o seu sangue e a sua vida. Entretanto, a Santa Missa não é somente uma representação do sacrifício da cruz, mas também uma renovação do mesmo, porque em ambos é o mesmo sacerdote e a mesma vítima, a saber, o Filho de Deus Humanado. Só no modo de oferecer há uma diferença: o sacrifício da cruz foi oferecido com derramamento de sangue; o sacrifício da missa é incruento; na cruz, Jesus morreu realmente; aqui, morre só misticamente (Conc. Trid., Sess. 22, c. 2).

Imagina, durante a Santa Missa, que estás no monte Calvário, para ofereceres a Deus o sangue e a vida de seu adorável Filho, e, ao receberes a Santa Comunhão, imagina beberes seu precioso sangue das chagas do Salvador. Pondera também que em cada Missa se renova a obra da Redenção, de maneira que, se Jesus Cristo não tivesse morrido na cruz, o mundo receberia, com a celebração de uma só Missa, os mesmos benefícios que a morte do Salvador lhe trouxe. Cada Missa celebrada encerra em si todos os grandes bens que a morte na cruz nos trouxe, diz São Tomás (In Jo 6, lect. 6). Pelo sacrifício do altar nos é aplicado o sacrifício da cruz. A paixão de Jesus Cristo nos habilitou à Redenção; a Santa Missa nos faz entrar na posse dela e comunica-nos os merecimentos de Jesus Cristo.

IV. A Santa Missa é o maior presente de Deus

Na Santa Missa, o próprio Jesus Cristo dá-se a nós. É uma verdade de fé que o Verbo Encarnado se obrigou a obedecer ao sacerdote, quando este pronuncia as palavras da consagração e a vir às suas mãos sob as espécies do pão e do vinho. Fica-se estupefato por Deus ter obedecido outrora a Josué e mandado ao sol que parasse, quando ele disse: Sol, não te movas de Gabaon, e tu, ó lira, do vale de Ajalon (Jos 10, 12). Entretanto, muito mais admirável é que Deus mesmo desce ao altar ou a qualquer outro lugar a que o Padre o chama com umas poucas palavras, e isso tantas vezes quantas é chamado pelo sacerdote, mesmo que este seja seu inimigo. E, tendo vindo, se põe o Senhor à inteira disposição do sacerdote; este o leva, à vontade, de um lugar para o outro, coloca-o sobre o altar, fecha-o no tabernáculo, tira-o da igreja, toma-o na Santa Comunhão, e o dá em alimento a outros. São Boaventura diz que o Senhor, em cada Missa, faz ao mundo um benefício igual àquele que lhe fez outrora pela encarnação (cfr. De inst. Novit., p. 1, c. 11). Se Jesus Cristo não tivesse vindo ao mundo, o sacerdote, pronunciando as palavras da consagração, o introduziria nele. “Ó dignidade sublime a do sacerdote”, exclama por isso Santo Agostinho (Mol. lnstr. Sach., t. 1, c. 5), “em cujas mãos o Filho de Deus se reveste de carne, como no seio da Virgem Mãe”.

Numa palavra, a Santa Missa, conforme a predição do profeta (Zac 9, 17), é a coisa mais preciosa e bela que possui a Igreja. São Boaventura (De inst. Nov., 1. c.) diz que a Santa Missa nos põe diante dos olhos todo o amor que Deus nos dedicou e que é, de certo modo, um compêndio de todos os benefícios que ele nos fez.

OS QUATRO FINS DO SANTO SACRIFÍCIO DA MISSA

I. A Santa Missa é um sacrifício latrêutico

No Antigo Testamento os homens procuravam honrar a Deus por toda a espécie de sacrifícios, no Novo Testamento, porém, presta-se maior honra a Deus com um só sacrifício da Missa do que com todos os sacrifícios do Antigo Testamento, que eram só figuras e sombras da Sagrada Eucaristia. Pela Santa Missa se presta a Deus a honra que lhe é devida, porque, por meio dela, Ele recebe a mesma honra infinita que Jesus Cristo lhe prestara sacrificando-se na cruz. Uma só Missa presta a Deus maior honra que todas as orações e penitências dos santos, todos os trabalhos dos apóstolos, todos os sofrimentos dos mártires, todo o amor dos serafins e mesmo da Mãe de Deus, porque todas as honras dos homens são de natureza finita, enquanto a honra que Deus recebe pela Missa é infinita, pois lhe é prestada por uma pessoa divina, o seu Filho.

Devemos por isso reconhecer, com o santo Concílio de Trento, que a Santa Missa é a mais santa e divina de todas as obras (Sess. 22). Nosso Senhor morreu especialmente para esse fim, para poder criar sacerdotes do Novo Testamento. Não era necessário que o Salvador morresse para remir o mundo; uma só gota do seu sangue, uma lágrima, uma só oração teria bastado para operar a salvação de todos, porque, sendo essa oração de valor infinito, seria suficiente para remir não só um mundo, mas também mil mundos. Para criar, porém, um sacerdote devia Jesus Cristo morrer, pois, do contrário, donde se tiraria esse sacrifício que agora oferecem a Deus os sacerdotes do Novo Testamento, esse santo e imaculado sacrifício que, por si só, basta para dar a Deus a honra que lhe é devida? Ainda que se sacrificasse a vida de todos os anjos e santos, mesmo assim, esse sacrifício não prestaria a Deus essa honra infinita, que lhe dá uma única Santa Missa.

II. A Santa Missa é um sacrifício propiciatório

Pode-se deduzir já da instituição da Sagrada Eucaristia que a Santa Missa é verdadeiramente um sacrifício propiciatório, ou seja, que inclina Deus a nos perdoar a pena e a culpa dos pecados, que foi feita especialmente para a remissão dos pecados: Este é o meu, sangue, que será derramado por muitos, para remissão dos pecados, disse Jesus Cristo (Mt 26, 28). A Santa Missa perdoa até os maiores pecados, não imediatamente, mas só mediatamente, como afirmam os teólogos, isto é, Deus, em consideração ao sacrifício do altar, concede a graça que leva o homem a detestar seus pecados e a purificar-se deles no sacramento da Penitência. Quanto às penas temporais, que devem ser expiadas depois da destruição da culpa, são elas perdoadas por virtude da Santa Missa, ao menos parcialmente, quando não de todo. Numa palavra, a Santa Missa abre os tesouros da divina misericórdia em favor dos pecadores.

Desgraçados de nós se não houvesse esse grande sacrifício, que impede à justiça divina de nos enviar os castigos que merecemos por nossos pecados. É certo que todos os sacrifícios do Antigo Testamento não podiam aplacar a ira de Deus contra os pecadores. Se se sacrificasse a vida de todos os homens e anjos, a justiça divina não seria satisfeita devidamente nem sequer por uma única falta que a criatura tivesse cometido contra seu Criador. Só Jesus Cristo podia satisfazer por nossos pecados: Ele é a propiciação pelos nossos pecados (1 Jo 2, 2). Por isso o Padre Eterno enviou o seu Filho ao mundo, para que se fizesse homem mortal e, pelo sacrifício de sua vida, o reconciliasse com os pecadores. Esse sacrifício é renovado em cada Missa. Não há dúvida: o sangue inocente do Redentor clama muito mais fortemente por misericórdia em nosso favor, que o sangue de Abel por vingança contra Caim.

Este sacrifício pode ser oferecido também pelos defuntos. Por isso o sacerdote, na Santa Missa, pede ao Senhor que se recorde de seus servos que partiram para a outra vida e que lhes conceda, pelos merecimentos de Jesus Cristo, o lugar de repouso, da luz e da paz. Se o amor de Deus que possuem as almas ao saírem desta vida não basta para purificá-las, essa falta será reparada pelo fogo do Purgatório; muito melhor, porém, a repara o amor de Jesus Cristo por meio do sacrifício eucarístico, que traz às almas grande alívio e, muitas vezes, até a libertação completa dos seus sofrimentos. O Concílio de Trento declara que as almas que sofrem no Purgatório podem ser muito auxiliadas pela intercessão dos fiéis, mas em especial pelo santo sacrifício da Missa. E acrescenta (Sess. 22, c. 2) que isso é uma tradição apostólica. Santo Agostinho exorta-nos a oferecer o sacrifício cia Santa Missa por todos os defuntos, caso que não possa aproveitar às almas pelas quais pedimos.

III. A Santa Missa é um sacrifício eucarístico

É justo e razoável que agradeçamos a Deus pelos benefícios que nos fez em sua infinita bondade. Mas que digno agradecimento podemos dar-lhe nós, miseráveis? Se Deus nos tivesse dado uma única vez um sinal de sua afeição, estaríamos obrigados a um agradecimento infinito, porque esse sinal de amor seria o favor e dom de um Deus infinito. Mas eis que o Senhor nos deu esse meio de cumprir com nossa obrigação e de agradecer-lhe dignamente. E como? Tornando-nos possível oferecer-lhe na Santa Missa a Jesus Cristo. Dessa maneira dá-se a Deus o mais perfeito agradecimento e satisfação; pois, quando o sacerdote celebra a Santa Missa, dá-lhe um digno agradecimento por todas as graças, mesmo por aquelas que foram concedidas aos santos no céu; uma tal ação de graças, porém, não podem prestar a Deus todos os santos juntos, de maneira que também nesse respeito a dignidade sacerdotal sobrepuja todas as dignidades, não excetuadas as do céu.

Na Santa Missa, a vítima que é oferecida ao Eterno Pai é seu próprio Filho, em quem pôs toda a sua complacência. Por isso dirigia Davi suas vistas a este sacrifício, quando pensava num meio de agradecer a Nosso Senhor pelas graças recebidas: Que darei ao Senhor por tudo que ele me tem feito? pergunta ele, e responde: Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor (S1 115, 12). O próprio Jesus Cristo agradeceu a seu Pai celeste todos os benefícios que tinha feito aos homens, por meio deste sacrifício: E, tomando o cálice, deu graças e disse: Tomai-o e distribuí-o entre vós (Lc 22, 17).

IV. A Santa Missa é um sacrifício impetratório

Se já temos a segura promessa de alcançar tudo que pedimos a Deus em nome de Jesus Cristo (cfr. Jo 16, 23), muito maior deve ser a nossa confiança se oferecemos a Deus seu próprio Filho. Este Salvador que nos ama roga por nós sem cessar lá no céu (cfr. Rom 8, 31), mas, de modo todo especial, durante a Santa Missa, em que se sacrifica a seu Eterno Pai, pelas mãos do sacerdote, para nos alcançar suas graças. Se soubéssemos que todos os santos e a Santíssima Virgem estão rezando por nós, com que confiança não esperaríamos de Deus os maiores favores e graças. Está, porém, fora de dúvida que um só rogo de Jesus Cristo pode infinitamente mais que todas as suplicas dos santos.

No Antigo Testamento era permitido unicamente ao sumo sacerdote, e isso uma só vez no ano, entrar no santo dos santos; hoje, porém, todos os sacerdotes podem sacrificar todos os dias ao Eterno Pai o cordeiro divino, para alcançar de Deus graças para si e para todo o povo.

O sacerdote sobe ao altar para ser o intercessor de todos os pecadores. “Ele exerce o ofício de um medianeiro”, diz São Lourenço Justiniano (Sermo de Euchar.), “e por isso deve ser um intercessor para todos que pecam”. Dessa maneira“, diz São João Crisóstomo, “está o Padre no altar, no meio, entre Deus e o homem; oferece a Deus as súplicas dos homens e alcança-lhes as graças de que precisam” (Hom. 5 in Jo.). Deus distribui as suas graças sempre que é rogado em nome de Jesus Cristo, mas as distribui com mais largueza durante a Santa Missa, atendendo às suplicas do sacerdote, diz São João Crisóstomo; pois essas súplicas são então acompanhadas e secundadas pela oração de Jesus Cristo, que é o sacerdote principal, visto que é ele mesmo que se oferece neste sacrifício para nos alcançar graças de seu Eterno Pai.

Segundo o Concílio de Trento (Sess. 22, c. 2), é especialmente durante a Santa Missa que o Senhor está sentado naquele trono de graças ao qual devemos nos chegar, diz o Apóstolo, para alcançarmos misericórdia e encontrarmos graças no momento oportuno (Heb 4, 16). Até os anjos esperam o tempo da Santa Missa, diz São João Crisóstomo (Hom 13. De incomp. Dei nat.), para pedirem com mais resultado por nós, acrescentando que dificilmente se alcançará aquilo que não se consegue durante a Santa Missa.

A Santíssima Virgem, depondo uma vez o Menino Jesus nos braços de Santa Francisca Farnese, disse-lhe: “Eis aqui o meu Filho; aprende a torná-lo favorável a ti, oferecendo-o muitas vezes a Deus. Dize, por isso, a Deus, quando vires presente no altar o divino Cordeiro: Ó Pai Eterno, ofereço-vos hoje todas as virtudes, todos os atos e todos os afetos de vosso mui amado Filho. Recebei-os por mim, e por seus merecimentos, que ele mos deu e, por isso, são meus, dai-me as graças que Jesus Cristo pedir por ruim. Ofereço-vos esses merecimentos para vos agradecer por todas as misericórdias que tendes usado comigo e para satisfazer por meus pecados. Pelos merecimentos de Jesus Cristo espero alcançar de vós todas as graças, o perdão, a perseverança, o céu, mas especialmente o mais precioso de todos os dons, o vosso puro e santo amor”.

Fonte: LIGÓRIO, Santo Afonso Maria. Escola da Perfeição Cristã. Org: Pe. Saint-Omer.

Tradução: Quadrante

O que torna uma ação boa ou má?

Por Kenneth Baker

O homem alcança o seu destino imortal e a salvação eterna fazendo o bem e evitando o mal.

Jesus disse: Se me amais, guardareis os meus mandamentos (Jo 14, 15). É fácil estabelecer o princípio geral de que é preciso fazer o bem e evitar o mal; mas não é fácil saber – em cada circunstância, aqui, agora – o que é bom e o que é mau.

Há princípios básicos de moral cristã com os quais todos os católicos devem estar familiarizados. Dentre eles, um dos primeiríssimos é este: para que qualquer ação possa ser qualificada moralmente, tem de ser consciente, humana. Um ato humano procede do conhecimento e do livre arbítrio; se faltarem a liberdade ou o conhecimento devidos, o ato não é completamente humano e, portanto, não é completamente moral. Assim, a digestão, o crescimento, o movimento do sangue nas veias, etc., uma vez que não estão sob o controle da nossa vontade, não podem de forma alguma ser chamados de atos morais. São atos da pessoa humana, mas não podem ser considerados “atos humanos”.

Um ato inteiramente humano, ou seja, um ato que procede do conhecimento e do livre arbítrio, pode ser moralmente bom ou moralmente mau. Como podemos fazer a distinção? Baseados em uma experiência de séculos, os teólogos chegaram à conclusão de que há três determinantes para a qualidade moral das nossas ações: o objeto, o fim ou a intenção, e as circunstâncias.

O objeto é aquilo em a ação consiste essencialmente, por exemplo: mentir, rezar o terço, roubar, ajudar um cego a atravessar a rua. Para que um ato seja moralmente bom, o seu objeto – aquilo que ele é –, deve estar conforme com a lei de Deus.

O segundo determinante da qualidade moral de qualquer ato humano é a intenção, fim ou propósito. Todo o ato humano, não importando quão trivial seja, é feito com algum propósito. O motorista domingueiro que atrapalha o trânsito e parece estar dirigindo sem qualquer destino tem um propósito: ele pode não querer chegar a lugar nenhum, mas busca a alegria de contemplar a paisagem do volante do seu carro. Para que um ato humano seja bom, o agente, aquele que o pratica, tem de ter boa intenção – tem de querer fazer algo que seja bom. Algumas ações, como blasfemar e roubar, são sempre erradas e nenhuma finalidade ulterior, não importando quão nobre seja, pode torná-las boas. Outras ações podem ser boas ou más dependendo de para que as praticamos. Beber não é pecado; já beber para ficar bêbado é. A moralidade de muitas coisas que fazemos é determinada pela intenção: andar, conversar, ler, etc. Muitas atividades consideradas moralmente indiferentes em si recebem a sua qualidade moral da intenção que está por trás delas.

Para que as nossas ações sejam boas, as nossas intenções devem ser boas. É bom ajudar os pobres, mas se eu os ajudo por vaidade ou despeito, então não pratico uma boa ação, mesmo que, em última análise, os pobres sejam beneficiados. Por outro lado, não podemos cair no erro contemporâneo segundo o qual toda a moralidade de uma ação é determinada pela intenção. A mais nobre das intenções não pode tornar bom um ato intrinsecamente mau. Assim, as explosões e as mortes causadas por terroristas com o objetivo de mudar alguma forma de governo são assassinatos, independentemente da intenção com que se praticam. Roubar dos ricos para ajudar os pobres, como um Robin Hood, continua a ser roubo. A ideia de que “os fins justificam os meios” é muito comum hoje em dia. Pessoas mal informadas que se preocupam com a superpopulação do planeta ou com a educação apropriada das crianças consideram bom o recurso ao aborto para diminuir o número de nascimentos e evitar crianças não desejadas; mas uma boa intenção, não importa qual, não transforma algo essencialmente mau como o aborto em algo moralmente bom.

As circunstâncias do ato, por fim, são o terceiro determinante da moralidade de qualquer ação. Circunstâncias são, por exemplo, as pessoas envolvidas, a hora, o local, a ocasião. Embora distintas do objeto, as circunstâncias podem modificar e mesmo alterar completamente a moralidade de um ato. As circunstâncias podem, por exemplo:

– tornar má uma ação que, de outra forma, seria boa, como no caso de um soldado que deliberadamente durma durante o serviço;

– aumentar ou diminuir a culpa de quem pratica a ação. Como quando uma menininha mente para a sua mãe (culpa aumenta), ou alguém conta uma mentira inventada na hora para se livrar de uma situação embaraçosa (culpa diminui).

Uma vez que todas as ações ocorrem em um momento e um lugar determinados, as circunstâncias devem ser sempre levadas em conta na hora avaliar a qualidade moral de qualquer ato humano.

Não devemos ficar alarmados com o crescente uso do princípio de que “os fins justificam os meios”. Um católico bem formado sabe que a moralidade de cada ato humano é determinada pelos três elementos vistos acima – o objeto, a intenção e as circunstâncias. Basta que apenas um deles seja mau para que possamos considerar uma ação má e saibamos que devemos evitá-la.


Tradução: Quadrante

O que é o bem?

Por Antonio Orozco Delclos

É difícil que haja uma pergunta mais importante do que essa: “O que é o Bem?; Que coisas são boas?” No mais profundo de si mesmo, o Homem abriga o desejo de ser bom, de fazer coisas boas: quando escolhe o mal é porque ficou ofuscado pela pequena parte de bem com que o mal se reveste. Deus – Bem infinito, que faz o bem e o põe em toda criatura – é Quem dá a todas as suas obras essa capacidade de atuar na direção do bem e, assim, incrementá-lo.

Todos temos uma espécie de instinto para descobrir o bem. Sabemos que “o bem é bom” e que “o mal é mau”. Na prática, porém, muitas vezes aparece o problema: “isto é bom?”, “é bom fazer isto?”. A resposta nem sempre é imediata ou certa: às vezes pode exigir um longo e árduo estudo. Mas sendo tão importante acertar quando está em jogo a nossa própria bondade, o nosso bem, compreendemos que esse estudo deve ser rigoroso, científico, de modo que a conclusão apóie-se em argumentos sólidos e irrefutáveis.

Assim nasce a ciência que chamamos de Ética (vem se ethos, que em grego quer dizer costume, modo habitual de agir). A Ética investiga aquilo que é bom fazer, para que – fazendo-o – alcancemos a maior perfeição humana possível e, portanto, satisfaçamos os nossos mais profundos desejos, ou seja: alcancemos a felicidade.

Quando se diz que algo “é ético” ou “não é ético”, o que se está dizendo é que é ou não bom. Contudo, embora todos concordemos em afirmar que a nossa conduta deve ser “ética”, nem sempre concordamos sobre se essa ou aquela coisa em concreto é ou não é “ética”. O que para alguns parece ser “ético”, para outros é uma monstruosidade. Assim, por exemplo, alguns afirmam que é “ético” provocar o aborto quando a gravidez resultou de um estupro, enquanto outros dizemos que fazer isso é cometer um dos piores crimes – mais grave até do que o terrorismo –, negando ao não-nascido inocente o direito mais elementar de qualquer pessoa: o direito à vida.

Esse exemplo nos permite entender a enorme importância que tem estarmos esclarecidos sobre o que é e sobre o que não é “ético”: sobre quais coisas são as realmente “boas”. Não é uma questão trivial que possamos deixar para que outros resolvam. Trata-se de uma questão de vida ou morte, e que deve ser encarada com toda a seriedade e rigor.

É possível chegar a um conhecimento certo sobre “o que é bom” – pelo menos em seus aspectos fundamentais – ou estamos condenados a uma eterna dúvida, a meras opiniões sem fundamento racional? Existe um critério objetivo de bondade que nos permita discernir, sem medo de errar, entre o bem e o mal? O bom senso sempre afirmou que sim, mas é conveniente que compreendamos porque, e também porque alguns enxergam as coisas de modo diferente.

É claro que o bem – o que é bom – é assim porque contém alguma perfeição que o torna apetecível, desejável. Aristóteles dizia que “o bem é algo que todos desejam”. Mas por que todos desejamos o bem? Porque vemos nele algo que nos beneficia, algo que “nos faz bem”, que nos aperfeiçoa, que nos melhora, que satisfaz as nossas necessidades, que nos faz mais felizes. Cabe dizer que o bem é uma perfeição que me aperfeiçoa: uma perfeição aperfeiçoadora (essas considerações – tão óbvias que parecem um simples lugar-comum – não são vãs).

O BEM É RELATIVO

Deve-se notar que nem tudo aquilo que aperfeiçoa um determinado sujeito aperfeiçoa igualmente todos os outros. O adubo animal serve como nutriente para as plantas, mas não para os homens. A alfafa é boa, saborosa e sadia: mas para as vacas, não para nós. Portanto é claro que o bem é relativo: é relativo a um sujeito ou a um determinado grupo de sujeitos, mais ou menos numeroso.

Essa “relatividade” do bem levou muitos a pensar que o bem não é algo “objetivo”, isto é: que o bem não está aí fixo, independente do meu pensamento. Cada um poderia considerar como sendo bom “aquilo que lhe pareça”: cada qual seria livre para considerar boa uma coisa ou a coisa oposta, decidindo por conta própria sobre o bem e o mal. Cada um seria – afirma-se – um “criador de valores”, já que a bondade das coisas não estaria nelas mesmas, mas na minha subjetividade, no meu pensamento, nos meus desejos ou opiniões. Esse é um grave erro no qual muitos incorrem, mas esse erro não é novo: é tão velho quanto a Humanidade. Adão e Eva não quiseram reconhecer que o bem estava onde Deus o tinha posto, pretendendo encontrá-lo onde eles, com sua má vontade, queriam que estivesse.

O BEM É OBJETIVO

Embora o bem seja “relativo” (algo é bom sempre “para alguém”), em termos estritos é a coisa menos subjetiva e opinável que existe. A bondade do ar que respiramos, da água que bebemos, do calor e da luz do sol que nos dá a vida, etc., etc... não é coisa que tenhamos inventado ou criado, não é uma bondade “opinável”: é algo que já está aí, independentemente das nossas avaliações.

De modo similar conhecemos os valores da justiça, da liberdade, da paz, da fraternidade: valores objetivos que não teria sentido negar. Mesmo se os negasse porque não me apetecem, ainda assim continuariam sendo valiosos para os outros. Essa minha inapetência seria um sintoma claro de alguma doença que tenho no corpo ou na alma.

É também importante notar – ao contrário do que foi muito difundido por certos filósofos – que se uma maçã me apetece, não é porque eu tenha conferido a ela o bom sabor. A maçã não se torna saborosa simplesmente por que sou eu quem a saboreio. Ainda que para outro ela seja insossa – talvez porque ele esteja doente –, a bondade da maçã não é produto da minha subjetividade: é a própria maçã que tem por si mesma a aptidão para causar um bom sabor e uma boa nutrição. Se assim não fosse, alguém poderia encontrar o mesmo sabor no fel ou até no lixo.

Está claro que existem bens e valores objetivos. Mas caberia perguntar se todos os bens são objetivos. A resposta é que de fato todos o são. Isso porque na prática as coisas e as ações humanas, queiramos ou não, sempre aperfeiçoam ou prejudicam: inclusive aquelas que – em teoria – poderiam razoavelmente ser consideradas indiferentes, como por exemplo passear.

Portanto, a “relatividade” do bem não significa que o bem é bom porque a minha vontade assim o deseja, mas que a minha vontade deseja o bem porque ele é bom. A bondade primeiramente está na coisa e só depois pode (ou não) estar no meu capricho, nas minhas opiniões ou nas minhas preferências. O que é bom para mim pode ser mau para outro; por exemplo, um remédio ou um trabalho determinado. Isso não depende do meu parecer. Do que depende então? Depende precisamente daquilo que eu sou, depende do meu ser, e isso já não é um produto da minha vontade, nem uma questão opinável. Embora os defeitos e qualidades que eu possuo agora tenham sido fruto dos meus atos voluntários anteriores, o que eu cheguei a ser, o que eu sou agora, é neste momento independente da minha vontade, e de modo igualmente independente da minha vontade haverá coisas que serão boas ou más para mim.

O bem depende, pois, do ser (do ser real, objetivo, que está aí) e do modo de ser. E se há algo que o Homem nunca poderá deixar de ser é precisamente isso: ser Homem. As características pessoais ou individualizantes próprias de cada um nunca esfumam ou anulam a natureza humana; são, pelo contrário, perfeições (ou defeitos) dessa natureza peculiar que todos compartilhamos: uma natureza que nos permite falar de “gênero humano” ou de “espécie humana”, e também de um bem objetivo comum a toda a Humanidade.

Como vimos, existem bens relativos a pessoas singulares. Mas é igualmente certo que existem bens relativos à natureza humana comum, e portanto relativos a todos e a cada um dos indivíduos da nossa espécie. É por isso que há leis ou normas morais objetivas, universais e permanentes, que afetam todos os homens, em qualquer tempo e lugar. O que prejudica a natureza forçosamente prejudicará a pessoa, porque a pessoa não é alheia à natureza: é o sujeito dessa natureza determinada.

A naturezas diversas correspondem bens diversos. O que é bom para o animal ou para o anjo pode não ser bom para o Homem. Por isso, para sabermos o que é bom para o Homem – para todos e cada um –, é indispensável conhecermos antes a resposta à grande pergunta: O que é o Homem? “Que sou eu, meu Deus? – exclamava Santo Agostinho – A minha essência, qual é?” (1)

A Ética (ciência sobre os bens do Homem) supõe a Antropologia Filosófica (que estuda o que é o Homem). Na História do Pensamento encontram-se éticas diferentes porque há diferentes conceitos sobre o Homem, e portanto diferentes conceitos sobre os bens.

O QUE É O HOMEM?

Para alguns, o Homem nada mais é do que um conjunto de corpúsculos, embora complexo e maravilhoso (Carl Sagan, o famoso cosmólogo norte-americano, por exemplo, dizia isso); muitos o consideram como pura química, ou como mero conjunto de instintos fatalmente determinados, ou como um simples número dentro da espécie zoológica. Todas essas são diferentes manifestações da visão materialista do Homem.

Pelo fato de negar – de modo dogmático, certamente – a realidade da alma espiritual e imortal, todo materialismo torna-se incapaz de conhecer o que o Homem na verdade é, e por esse mesmo motivo também não pode saber o que realmente é bom ou “ético”. Quando um materialista pensa no Homem como um simples animal evoluído – em quem não há nada que não seja redutível a elementos materiais –, não consegue pensar no bem sem reduzi-lo ao que é material e sensitivo; e além disso tenderá a conceder um valor absoluto aos assuntos econômicos. Escapa-lhe o que é mais valioso: o espírito, em que está a imprescindível raiz do entendimento e da vontade livres.

Por isso os termos “liberdade”, “justiça”, “paz”, “amor”, etc. no materialismo carecem de conteúdo humano, confundem-se com as sombras de tais coisas que parecem existir nos animais. O próprio conceito de “pessoa” é esvaziado, ficando o Homem reduzido a um “número” cuja função é servir a “espécie” (chamada de “sociedade”). Se a “espécie” assim o exigir, não haverá nenhum inconveniente em sacrificar o “indivíduo”: poder-se-á com toda paz saqueá-lo, ou trancafiá-lo num hospital psiquiátrico ou eliminá-lo. O que conta é somente o bem da “espécie”, como na Zoologia. Tal é a tremenda conclusão do coletivismo, especialmente o marxista.

Se realmente queremos o que é bom para nós mesmos e para a Sociedade – que está composta não por meros indivíduos, mas por pessoas de valor único e irrepetível –, então temos de ter a honradez de contemplar o Homem em toda sua integridade. Não basta ver somente um corpo dotado de sentidos e instintos. Isso equivale a não ver o Homem, da mesma forma que aquele que vê somente uma das seções – a vertical ou a horizontal – de um cilindro não vê o cilindro: confunde-o com um círculo ou com um quadrado, e pode até chegar à conclusão de que o cilindro é um círculo quadrado, um absurdo, portanto, que só pode existir como uma vã ilusão mental. Pode-se chegar inclusive a negar a possibilidade de existirem cilindros, da mesma forma como foi negado que exista a alma humana imortal. Esquartejou-se o Homem, cortando-o pela metade, até o momento em que o “sábio”, diante da platéia e da mesa de dissecação, sentencia: “como não vejo a alma em parte alguma, ela não existe” (aplausos). O mesmo fez aquele astronauta soviético, que declarou triunfante que Deus não existe porque não viu ninguém lá em cima, no seu passeio pelo espaço.

O Homem é um “cilindro” muito peculiar: é infinito em altura, não tem topo, não tem limite superior, e por isso só uma “seção” totalmente “vertical” é capaz de revelar sua dimensão transcendente à matéria. Mas não é difícil descobrir essa dimensão usando um pouco de bom senso. Mais adiante voltaremos ao assunto. Não deixa de ser certeira aquela frase gráfica de Unamuno, mesmo sendo ele um homem confuso quanto à religião: “o que chamam de espírito parece-me muito mais material (quer dizer “perceptível”, “claramente cognoscível”) do que aquilo que chamamos de matéria; sinto minha alma mais importante e mais sensível que meu corpo”.

Foi dito – e com toda a razão – que o materialismo é o mais curioso esforço jamais feito pelo espírito humano na tentativa de provar a não-existência do espírito humano. Isso porque “só um ser pensante – ou seja: espiritual – pode pôr-se a «demonstrar», mediante argumentos, o materialismo” (2). O materialismo, deslumbrado pela semelhança morfológica entre o Homem e o macaco, confunde os dois. Ocorre aquilo que observa Johannes Torelló: “objetos de estudo essencialmente diferentes, ao serem projetados pelo cientista contra um plano inferior, aparecem-lhe como sendo iguais. Assim, a projeção de uma esfera, a de um cilindro e a de um cone são a mesma: um círculo ambíguo e tentador aos olhos de espíritos simplistas, capazes de concluir que no fundo um cilindro, uma esfera e um cone são realmente a mesma coisa”.

É certo que temos um corpo e uns sentidos que reclamam satisfações para as suas necessidades vitais. Mas antes de qualquer coisa possuímos algo que excede tudo o que procede da matéria: o entendimento, ávido e insaciável de verdade. Já desde criança o homem sadio começa a “exasperar” os adultos com as suas intermináveis perguntas: “Mamãe, o que é isso?”, “para que serve aquilo?”, e sobretudo “por que?”, “por que?”, “por que?”... É que o menino ou a menina está buscando desde já uma resposta última e definitiva, que não remeta a outro “por que”, que seja algo assim como o grande “Porquê” que tudo explique, que seja a Verdade Primeira e a Origem de todas as outras verdades. A criança pergunta por Deus, procura Deus, precisa de Deus desde que sua inteligência desperta para o “uso da razão”. É o que diz a célebre oração de Santo Agostinho: “Criaste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em Ti.” (3)

A única coisa capaz de saciar e aquietar o entendimento é o conhecimento de Deus: não um conhecimento qualquer, mas todo o conhecimento de que seja capaz. Somente assim alcança a sua perfeição suprema, a sua plena felicidade.

A vontade, por outro lado, é uma ilimitada capacidade de amar o bem (não “infinita” mas “ilimitada”, porque por muito que ame sempre quer amar mais), que não se conforma com qualquer bem: deseja o ótimo, o máximo bem. Quando a vontade põe o seu amor numa criatura e a possui de algum modo, logo fica satisfeita; mas em seguida percebe que aquilo não é o máximo: que resta um vazio ainda sem preencher, que ainda está longe de alcançar a plenitude de bem e de amor que buscava. Isso porque todos nós – sabendo-o ou não – queremos a Deus, buscamos a Deus, temos fome de Deus como Verdade primeira e Bem infinito, como Sabedoria e Amor plenos: somente nEle – no amoroso conhecimento de Deus – encontra-se a perfeição, a plenitude humana, a felicidade sem sombras. Esse é o nosso fim, o nosso máximo bem comum objetivo.

A FELICIDADE PERFEITA E O BEM SUPREMO

Agora que sabemos – não detalhadamente mas com profundidade – o que é o Homem, sabemos também qual é o seu bem fundamental e indispensável. Independentemente do que eu queira ou pense, do que me apeteça ou do que eu escolha, o meu Bem é Deus. Assim encontramos um critério objetivo de bondade: no mundo, será bom para mim – bom moralmente, bom em sentido “ético” – aquilo que me aproxime de Deus (ou pelo menos não me afaste dEle), e será mau para mim aquilo que me afaste de Deus, ainda que me apeteça. Aquilo que me aproxima de Deus será também uma perfeição do meu ser pessoal; o contrário, aquilo que me afasta dEle, sempre e sem dúvida será prejudicial ao que há de mais íntimo em mim.

Essa é já uma conclusão de suma importância. Mas por outro lado é claro que surge uma nova pergunta: na prática, o que me aproxima de Deus e o que me afasta dEle? A luz natural da razão é um dom que todos recebemos e que nos permite descobrir quais são as exigências fundamentais do ser humano, cujo conjunto é a lei natural, formulada sinteticamente no Decálogo pelo próprio Deus. Assim se entendem bem aquelas palavras de João Paulo II: “A lei moral é a lei do Homem, porque é a lei de Deus”. Com efeito, “a verdade expressa pela lei moral é a verdade do ser, tal como é pensado e querido por Deus que nos criou”. É por isso que “há uma profunda consonância entre a parte mais verdadeira de nós próprios e aquilo que Deus nos manda, apesar de que – usando as palavras do Apóstolo – sinto nos meus membros outra lei que repugna a lei do meu espírito (Rom 7, 22). (4)”

Se em nossa mente não existisse a sombra do pecado original e se a nossa vontade não tivesse sido debilitada, conheceríamos bem a nós mesmos e, conseqüentemente, conheceríamos sem nenhuma dúvida o que é bom: teríamos uma visão clara da lei moral. Acontece que encontrar essa lei nos custa trabalho, até porque também nos custa trabalho vivê-la. Mas Deus, na sua infinita Misericórdia, veio em nosso auxílio – fez-se Homem! – para nos dizer com palavras humanas qual é o caminho que nos faz de verdade homens perfeitos e felizes: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). E não nos oferece apenas uma felicidade natural: mediante a Sua Encarnação, Vida, Paixão, Morte e Ressurreição, abriu-nos as portas para nada menos do que a vida íntima de Deus Uno e Trino. Colocou à nossa disposição a Sua própria Felicidade: o máximo, não já relativamente ao Homem, mas em absoluto.

E para que todos os homens possam conhecer facilmente – sem disputas ou dúvidas angustiosas, sem esforços hercúleos – quais são as coisas que nos aproximam de Deus e quais as que nos afastam dEle, fundou a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica. Dotada de um Magistério autorizado, assistido sempre pelo Espírito Santo – o Espírito da Verdade –, a Igreja é capaz de traçar, a cada momento, o mapa certo e seguro dos caminhos do bem. Temos aí – especialmente os católicos, mas também de algum modo todos os outros – o grande critério, a grande luz, a grande segurança para discernir o bem do mal. Assim podemos conhecer essa “norma suprema da vida humana”, que o Concílio Vaticano II recorda como “a própria lei divina, eterna, objetiva e universal, pela qual Deus ordena, dirige e governa o Universo e os caminhos da comunidade humana.” (5)

 



NOTAS
(1) SANTO AGOSTINHO, Confissões, X, 17
(2) CORNELIO FABRO, Dios, Madrid, Ed. Rialp, 1961, p. 203
(3) SANTO AGOSTINHO, o.c., I, l
(4) Audiência geral, 27-VII-1983
(5) Decreto Dignitatis humanae, nº 3.

Fonte: Arvo.net

Tradução: Quadrante

 

O conflito atual dos humanismos.

Por Paulo Oriente Franciulli

Que é o homem? Toda a corrente filosófica de certo relevo assenta-se numa peculiar antropologia. Dentre as perguntas que os filósofos fazem, “quem é o homem?” reveste-se de uma importância crucial. Não seria desatinado afirmar que, de acordo com a resposta dada, pode-se chegar ao âmago do pensamento de um filósofo e à forma como encara o mundo.É natural que daí surja o conflito entre as diferentes visões de humanismos. No entanto, o que chama a atenção e faz por merecer uma análise mais detida é a constatação de que esse conflito não se confina ao âmbito acadêmico, mas repercute sensivelmente na vida de cada um.

Que é o homem? Toda a corrente filosófica de certo relevo assenta-se numa antropologia peculiar. Dentre as perguntas que os filósofos fazem, a de “quem é o homem?” reveste-se de uma importância crucial. Não seria desatinado afirmar que, de acordo com a resposta que ele dê, se pode chegar ao âmago do pensamento de um filósofo e à forma como encara o mundo.

É natural que daí surja o conflito entre quem defende as diferentes concepções do homem, os diversos humanismos. No entanto, o que chama a atenção e exige uma análise mais detida é a constatação de que esse conflito não se confina ao âmbito acadêmico, mas repercute sensivelmente na vida de cada um.

Se enfocarmos três dos principais humanismos – o cristão, o naturalista e o existencialista – e centrarmos o estudo num único aspecto, o do sentido da vida, os contornos daquilo de que falamos se tornam mais nítidos. Por que essas três filosofias? Porque, nos dias que correm, conscientemente ou não, via de regra as pessoas seguem alguma delas. Por que esse aspecto? Porque, entre tantos possíveis, apresenta a invulgar vantagem de ser ao mesmo tempo transcendental, elucidativo, tormentoso, comprometedor e nem sempre corretamente tratado.

Tufos de feixes fisiológicos

O humanismo naturalista pode ser entendido como uma miscelânea de escolas afins: cientificismo, materialismo dialético, psicanálise, behaviorismo, evolucionismo... Todas possuem em comum vários postulados famosos: as ciências naturais são as únicas que merecem crédito, somente o conhecimento empírico pode explicar o ser humano, deve-se depositar uma esperança fiducial em que o avanço tecnológico aperfeiçoará e imortalizará o homem, o cérebro e todo o psiquismo são apenas matéria altamente evoluída, o Homo sapiens nada mais é do que um animal dito “superior”. Julian Huxley, no seu livro Evolution, escrevia em 1942: “A evolução é um produto de forças cegas, exatamente como a queda de uma pedra na terra ou o fluxo e o defluxo das marés”. Aceitar valores absolutos e a sua personificação em Deus seria um erro dos homens. O centro da nova religião? O humanismo evolucionista. O homem ainda haverá de multiplicar as suas forças inexploradas.

Moral? Ora, o que é a moral? Os novos tempos assistem, ao casamento de quatro pares de homossexuais na Holanda como se fosse a coisa mais natural do mundo, enquanto protestam veementemente contra o noivado do herdeiro daquele país com uma bela Argentina, que cometeu a “aberração” de ser filha de um ex-ministro da ditadura de Jorge Videla(1)...

Não pode haver moral nem travas para o humanóide terráqueo, um genuíno elo da cadeia cósmica. Quem assistiu ao filme Missão: Marte dificilmente esquecerá a passagem em que o alienígena mostra aos humanos as cenas da sua origem: parte uma nave de Marte para a Terra, cai no mar, os seus tripulantes vão evoluindo em diversas espécies, uma delas torna-se humana, volta a Marte, e todos vivem felizes para sempre na fraternidade sideral. Nisto acredita piamente esta geração que – na feliz expressão de Alejandro Llano – padece de “anorexia cultural”.

Essa concepção antropológica, como é óbvio, repercute no sentido que cada pessoa dá à sua vida. Se o homem não passa de um mero tufo de feixes fisiológicos facilmente manejáveis, viver é estar biologicamente “otimizado”, com muitos prazeres, sem dores, um belo corpo, bem alimentado, bem vestido, descansado. Nada de esforços inúteis. O que importa é como os outros o vêem, apreciam e invejam. Basta a fachada. A glória está em que se aparece na coluna social.

Sufocado pelo tédio

Mas passemos da alegria oca do naturalismo ao ambiente cinzento e rarefeito do humanismo existencialista de Jean-Paul Sartre. Aqui nada se sabe sobre a essência do homem: só poderíamos conhecer a existência. Chegaríamos apenas ao como, não ao quê do ser humano. O existir próprio da pessoa seria condicionado pela realização de si mesma no mundo histórico, pela situação concreta em cada momento.

Essa realização estaria ligada à liberdade, tal como é entendida pelos existencialistas: um valor absurdamente onipotente. Sartre estava encantado com o Calígula de Albert Camus: era o seu protótipo de homem livre. Louco lúcido, estranho à verdade e à justiça, monstro sanguinário que condena todos os seus súditos à tortura e à morte, comprovando assim o seu poder. Era a seguinte a sua cantilena enquanto estrangulava a amante Caesonia: “Vivo, mato, exerço o poder delirante do destruidor, comparado com o qual o do criador parece um arremedo. Ser feliz é isto. É isto a felicidade, esta insuportável libertação, este universal desdém, o sangue, o ódio à minha volta. A alegria desmedida do assassino impune, esta lógica implacável que tritura vidas humanas, que te tritura, Caesonia, para tornar enfim perfeita a solidão eterna que desejo” (2).

O existencialismo exige que cada qual tenha um projeto para si mesmo. Não pode haver escala alguma de valor universal. Só o existir pessoal revelaria a lei das próprias decisões. Não se admite a norma moral universal porque não se conhece a essência humana.

O que resta para orientar a vida? Qual o balanço dessa filosofia opressiva? No dizer do seu arauto-mor(3), a náusea, a abundância pasmada, a sonolência, a má digestão, beber sem sede, toneladas de sujidade viscosa, o mundo sufocado pelo tédio, “nascer sem razão, prolongar-se por fraqueza, morrer ao acaso”. A vida não tem outro sentido que o nada. Para citar um exemplo dessa experiência nadificante, há o hipotético encontro marcado pelo protagonista com Pedro num café. Pedro não está. O protagonista olha para o interior do café, e tudo – as pessoas que lá se encontram, as mesas, as bebidas, a fumaça dos cigarros, o barulho de vozes e risadas –, tudo ali é nada. Pedro não veio. Pedro é nada. O sujeito que marcou o encontro também é nada(4).

Resta o desejo alucinante de ser deus, porém um deus oni-impotente, oni-ignorante e oniausente. E a decepção ao constatar que a liberdade certamente é limitada, a começar pelo “somos livres para tudo, exceto para não o ser”.

O homem revelado ao homem

Do fundo do poço para a serena reflexão que parte da realidade: o humanismo cristão parte da teoria multissecular do Direito Natural. Agostinho de Hipona já sustentava, no alvorecer da nossa era, que o homem constitui-se de alma e corpo, a alma é imortal (o corpo decai e acaba), existe uma sede insaciável de verdade (de uma verdade imutável) e de eternidade. O realismo aristotélico é lavrado por Tomás de Aquino. Há razão imaterial – abstraímos, refletimos, enxergamos a relação causa-efeito –, vontade livre, sentimentos, paixões, Homo faber, Homo ludens.

O humanismo cristão não é pré-fabricado, mas aberto: avança rumo à essência do ser humano, ouvindo o que têm a dizer todos os que escreveram a cultura, mesmo os naturalistas e os existencialistas. Heródoto conta o heroísmo de Leônidas em Termópilas; Plutarco fala do Alexandre vencedor das mulheres persas – mais difíceis de combater, na sua inebriante beleza, do que os homens...; o Rei Artur, na narração de John Steinbeck, entedia-se num dia plúmbeo; Pedro Abelardo arrepende-se dos seus amores ilícitos com Heloísa; Tolstói escreve a clássica passagem sobre a autoconfiança entre os povos; e o inesquecível Holden Caulfield, o apanhador no campo de centeio, monologa como qualquer adolescente que pulula por aí. Em cada um desses trechos, surgem os mesmos personagens com quem se convive nas ruas das grandes cidades ou a respeito dos quais se ouvem notícias, neste início de milênio. Idênticos sonhos, defeitos, ambições de grandeza, medos. A mesma essência.

O ser humano é social. A liberdade não é ilimitada, uma vez que ninguém está só sobre a terra, além de que a própria liberdade tem um sentido: fazer o bem; liberdade que se aperfeiçoa praticando o bem. Aspira-se à felicidade, felicidade que é plenitude – perfeição, ideal de vida boa (vita bona no sentido moral, não a “boa vida” indolente), vida bem conseguida –, que pressupõe uma certa medida de bens, também materiais (família estruturada, moderada quantidade de riquezas, bons amigos, justa fama, honra, boa saúde, contemplação da verdade, prática da virtude, amar e ser amado, servir...). A felicidade diz respeito primariamente ao futuro (J. Marías). A vida é tarefa, realização: tem sentido quando pressupõe que há uma tarefa a cumprir, algo que valha a pena, de que desfrutaremos com o maior número possível de semelhantes.

Vigora a inabalável convicção de que, ao lado dessa visão filosófica do mundo, existem experiências longamente vividas – dois milênios de cristianismo – e, o que é mais valioso, verdades reveladas que completam e dão fundamento ao genuíno humanismo. Dentre estas últimas, destaca-se a certeza de que o homem foi criado de acordo com umas regras que devem ser observadas, e de que tudo se decompõe quando, cegado pelo sereis como deuses, infringe essas normas. Imediatamente surge uma ruptura, a humanidade faz-se centro de si mesma, vai-se desarraigando da própria natureza, e se embrutece, avilta-se. Em determinado momento histórico, felizmente, surge e ressurge a esperança: o Verbo – por quem todas as coisas, inclusive as citadas normas, foram criadas – assume a natureza humana e a revela ao próprio homem.

Rasto de bem

Todas as idéias expostas visam a algo mais do que puras considerações filosóficas, às quais talvez não sejamos dados, nós os comuns mortais. Não é trivial que uma pessoa imersa nos afazeres alucinadamente prementes do cotidiano possa dedicar-se a escolher qual humanismo seguirá. Porém, o que se pretende é desembocar numa consideração muito simples: se alguém procura sinceramente a felicidade, a verdade, o bem e a beleza, há de ter em mente que só os conseguirá se for coerente com o seu modo de ser. Não o modo de ser da massa, nem muito menos o apregoado por certos meios de comunicação. Mas sim aquele conferido pela sua natureza humana, o seu “código genético moral”, que desemboca no reconhecimento da dignidade da pessoa e no respeito por ela, em seguir a consciência bem formada e em deixar um rasto de bem ao longo da passagem pela terra.

Paulo Oriente-Franciulli é Mestre em Direito Civil pela UFRJ e foi professor da Universidade Federal Fluminense, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro. Estudioso de História e Filosofia, é co-autor de O anticristo: mito ou profecia? e autor de O milagre de Calanda.

(1) Aceprensa, n. 55/01, págs. 3-4.
(2) Albert Camus, Caligula, Gallimard, Paris, 1945, pág. 212.
(3) Jean-Paul Sartre, La nausée, 33ª ed., Gallimard, Paris, 1938, págs. diversas.
(4) Jean-Paul Sartre, L’être et le néant, 2ª ed., Gallimard, Paris, 1943, pág. 45

A morte .

Por Edouard Clerc     
                    
Por mais que não pensemos nela, cedo ou tarde todos teremos de enfrentar-nos com a morte. Por isso, importa estar sempre preparado para esse momento, sem, contudo, viver numa paranóia contínua. O ponto é que a morte, para o cristão, é um encontro.

PENSAR NA MORTE

É necessário pensar na morte, evitando, por outro lado, que se torne uma idéia fixa, pois pensar nela o tempo todo é doentio ou, pelo menos, negativo. Positivo é desejar a Vida Eterna como um fim que presida a toda a vida terrena. A morte será, assim, o meio de alcançarmos a verdadeira vida, para a qual fomos criados.
Qualquer pessoa que creia firmemente na vida eterna deixa de ver a morte unicamente como uma dolorosa separação entre a alma e o corpo, porque, “por trás das misteriosas portas da morte, perfila-se uma eternidade de alegria em comunhão com Deus” (João Paulo II). Deste ponto de vista, que aliás é o único verdadeiro, a vida não é tirada pela morte, mas transformada, e, desfeita a nossa habitação terrena, é-nos dada uma mansão eterna nos céus (Prefácio dos defuntos I).
A primeira conseqüência, para quem crê e espera nesta alegria sem fim, é o desprendimento de tudo aquilo que não serve para adquiri-la. Tantos homens e mulheres afadigam-se, lutam e sofrem para obter aquelas coisas que, segundo pensam, lhes trarão a felicidade, mas, quando morrem, nada resta de tudo isso. Pura e simplesmente, correram atrás de uma miragem. Nem o dinheiro, nem a vanglória, nem o poder, nem os prazeres carnais, nenhuma dessas coisas que governam o mundo é capaz de proporcionar uma felicidade duradoura. Portanto, é preciso fazer um esforço enérgico para superar tudo isso, que, em si, para nada serve; pois, quer pensemos na morte, quer não, os anos passam e a hora do nosso fim aproxima-se.
É preciso simplificar a vida. Quando se carrega um excesso de bagagem, estraga-se a viagem: é penoso e cansativo carregar malas enormes, e a pessoa acaba por perguntar-se a si própria: “Mas por que fui trazer tantas coisas?” Ainda é tempo de nos desembaraçarmos de tudo o que é inútil, pois não é necessário ter dinheiro nem condecorações para entrar no céu. O coração puro é um coração desprendido: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus (Mt 5, 3).

POSSÍVEIS ATITUDES DIANTE DA MORTE

O nosso grau de amor a Deus pode medir-se pela atitude que tivermos diante da morte: podemos temê-la, resignar-nos diante dela ou aceitá-la ativamente.
Temer a morte é um sentimento natural no homem, porque morrer supõe geralmente um duro combate, uma luta da nossa natureza contra o ato que a destrói: é a agonia, que pode ser longa e é sempre penosa. Instintivamente, temos medo dela. Na ordem natural, pois, é impossível contemplarmos com indiferença essa catástrofe que consiste na separação dos dois elementos que compõem o nosso ser.
Se a morte destrói a ordem querida por Deus, ao decompor a criatura, por que morremos? Porque a morte é conseqüência do pecado. Deus disse a Adão: Se desobedeceres e comeres desse fruto, morrerás (cf. Gen 2, 17). Adão desobedeceu e morreu, deixando-nos a morte em herança.
Podemos perguntar também: “Então, se Adão tivesse obedecido, não morreríamos?” Com efeito, como a morte era o castigo da desobediência, o homem poderia ter-lhe escapado se tivesse observado o mandamento divino. Nesse caso, a sua imortalidade seria uma graça especial, pois o corpo humano é mortal, como todos os seres vivos materiais; o homem passaria desta vida para a vida eterna sem sofrer a dor e a angústia da morte. De qualquer modo, nas nossas condições atuais, a morte é um mal e, por isso, não é de estranhar que lhe tenhamos medo.
A morte pode ser resignada quando, pela força do seu caráter ou pelo raciocínio, a pessoa chega a aceitá-la sem revolta, como algo que não tem remédio, apesar de toda a repugnância que sente diante dela. Quando se está gravemente doente, e se sabe que o desenlace é inevitável, acaba-se por aceitar sem revolta o fim. Mesmo numa perspectiva meramente humana, sem referência a Deus, é-nos necessário alcançar pelo menos essa resignação humana para podermos superar o terror que a morte inspira.
Quando se avança em idade, torna-se cada vez mais necessário resignar-se com a impossibilidade de fazer aquelas coisas que se costumavam fazer. Temos de deixar nas mãos dos mais jovens as tarefas que nós próprios desempenhávamos, mesmo que eles as levem a cabo de modo diverso do nosso. Temos de resignar-nos com a decadência física, com o entorpecimento progressivo que vai tomando conta dos nossos olhos, dos ouvidos, das pernas. Temos de resignar-nos diante da doença e do sofrimento, sinais da nossa fragilidade. Temos de resignar-nos a ver o tempo passar cada vez mais depressa, e compreender que o fim se aproxima.
Poderia dizer-se que esses diversos tipos de resignação constituem uma preparação remota para a morte, uma vez que nos desprendem de muitas coisas terrenas. Mas a resignação não basta, porque essa atitude só diz respeito aos velhos e aos doentes crônicos, quando há também numerosos casos de morte súbita ou por acidente. É necessária, portanto, uma outra disposição perante a morte: a aceitação.
A livre aceitação da morte não é um simples sentimento, que pode ou não estar presente, mas implica a compreensão do plano de Deus, e por isso é importante para todas as pessoas. Temos de chegar a considerar a morte como o meio previsto por Deus para entrarmos na vida eterna, “o parto para a vida, que se realiza na dor”.
Semelhante aceitação não deve estar mesclada de amargura, mas unir-se à atitude de Jesus que, na sua agonia no Horto das Oliveiras, dizia ao Pai: Não se faça a minha vontade, e sim a tua (Lc 22, 42). Os nossos sofrimentos e a nossa morte são elevados e transformados pela nossa união com Cristo, e assim a nossa aceitação tem de ser igual à do Senhor: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito (Lc 23, 46).
Com o dom da nossa vida, devemos, pois, fazer também o dom da nossa morte, persuadidos de que, tanto na vida como na morte, pertencemos ao Senhor: Quer vivamos, quer morramos, somos do Senhor. Pois foi com este fim que Cristo morreu e ressuscitou: para ser Senhor dos mortos e dos vivos (Rom 14, 8-9).
Acostumemo-nos a oferecer a nossa morte a Deus a partir deste mesmo instante – pois é coisa que não se improvisa –, a fim de que no último momento da nossa vida o ato de caridade nos venha aos lábios com toda a espontaneidade. O derradeiro oferecimento da nossa morte a Deus estará assim ligado a uma vida de permanente abandono e confiança na Misericórdia infinita. E teremos verdadeiramente uma morte aceita, uma morte no Senhor.

A MORTE ESPIRITUAL

Mas em que consiste morrer no Senhor? Antes de mais nada, em conduzir-nos de acordo com a verdade que Deus nos deu a conhecer: Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não incorre na sentença de condenação, mas passou da morte para a vida (Jo 5, 24). Escutar e cumprir a palavra de Deus, fazer aquilo que Ele nos pede, implica evitar tudo o que é contrário à sua Vontade, isto é, o pecado. Por ser livre, o homem pode escolher, e de acordo com o que pensar e fizer, estará preservando a vida da graça ou pondo-a a perder. E quando se perde essa vida, é a morte espiritual: a pessoa passa a estar em estado de pecado mortal. Quem morre em pecado não morre no Senhor, pois, ao pecar, expulsou-o da sua alma.
Esta vida é, portanto, combate espiritual permanente contra a morte da alma pelo pecado; e é na arena da vida terrestre que se desenvolve este drama, cujas conseqüências – a vida ou a morte – são eternas. Certamente, não será necessário esclarecer que não são os pecados leves, mas os pecados graves, que provocam a morte espiritual; e para distinguir entre uns e outros, dispomos da doutrina cristã, ilustrada pelo Magistério da Igreja, e de um juiz interior, a consciência, cuja voz não devemos afogar, mas escutar.
Assim como já não se quer falar do Inferno, também não se fala mais do pecado, que é a sua causa, e conseqüentemente tampouco se fala da morte espiritual. No entanto, este é o grande dilema da nossa vida cotidiana: ou se está em graça ou se está em pecado; ou se está vivo ou se está morto. Aqui não há meios-termos possíveis. É assustador que se possa viver sem pensar nisso, esquecendo ou deixando de compreender que a nossa permanência nesta terra é uma prova, um combate que terminará por uma vitória ou uma derrota .
() O valor moral de toda uma vida não depende, portanto, de um balanço entre os méritos e os deméritos, de um confronto entre os atos bons e os atos maus, mas está ligado ao estado em que a alma se encontra no momento da morte. Se isto pode parecer paradoxal, recordemos que a justiça humana também é administrada analogamente: o juízo é pronunciado sobre um ponto, não sobre uma soma. Não esqueçamos, porém, que Deus não espera o momento da queda para apanhar o homem em falta e condená-lo: Terei eu prazer com a morte do malvado? Não desejo, antes, que mude de proceder e viva? (Ez 18, 23). Até o pecador mais calejado pode receber a graça de converter-se antes de morrer. Inversamente, pode acontecer a desgraça de que uma pessoa reta caia no final em alguma infidelidade grave, mas isso acontece mais raramente quando se procura manter ao longo da vida um coração humilde e se recorre com constância à oração e ao auxílio de Deus (N. do T.).

OS SACRAMENTOS E A ORAÇÃO

Por mais corajoso que seja o nosso empenho nesta batalha que dura a vida inteira, a nossa vontade por si só não basta para triunfar nela; felizmente, porém, contamos com Deus que, na sua misericórdia, nos presta a ajuda eficaz da sua graça. Com ela, não sucumbimos à tentação; e, se caímos, o Senhor encontra-se sempre disposto a perdoar, por meio do Sacramento da Reconciliação, até mesmo as faltas mais graves, se nos arrependemos delas.
Morrer em estado de graça, em paz com Deus, é morrer no Senhor. Quem se esforça por guardar a pureza da sua alma, está sempre pronto para esse encontro que é a morte. Uma reflexão deste gênero, sobre a morte espiritual, bem pode ser a ocasião de que precisemos para nos convertermos, para regressarmos a Deus, se por acaso nos afastamos dEle. Seja como for, todos nós encontraremos nela um acicate para nos enfrentarmos lealmente conosco próprios e para formularmos sérios propósitos de melhora.
A ajuda da graça chega-nos em primeiro lugar pelos Sacramentos, que nos dão ou restituem a graça, como o Batismo e a Confissão, ou a fazem crescer, como a Eucaristia. Não nos esqueçamos de que o principal alimento da vida sobrenatural em nós, o alimento por excelência, é a Comunhão. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna, diz o Senhor (Jo 6, 5). Ninguém se esquece do alimento corporal, pura e simplesmente porque tem necessidade dele; da mesma forma, deveríamos ter o desejo de comungar com freqüência, se possível diariamente, para manter o nosso organismo espiritual “em forma”.
Além dos Sacramentos, a graça chega-nos também pela oração e pelo mérito das boas obras. Se perdemos o costume de orar, expomo-nos a cair como um inválido que tivesse esquecido as suas muletas. A oração consiste em elevarmos o coração a Deus, falando com Ele e confiando-lhe tudo o que trazemos no coração; ela é, portanto, um sinal claro de que procuramos estar na graça de Deus.
A oração mais perfeita é a Santa Missa, da qual todos os cristãos têm necessidade; prescindir dela é correr um grande risco. E devemos também perseverar no costume de rezar à Santíssima Virgem, pedindo-lhe que rogue “por nós, agora e na hora da nossa morte”; podemos ter a certeza de que Ela estará presente nesse encontro e nos dará a mão para passarmos por essa porta.
“Assistimos todos os dias à morte de muitos, celebramos os seus enterros e funerais, e no entanto continuamos a prometer-nos longos anos de vida”. (Santo Agostinho, Sermão 17)
“[As pessoas] temem muito a morte porque amam muito a vida deste mundo e pouco a do outro. Mas a alma que ama a Deus vive mais na outra vida do que nesta, porque a alma vive mais onde ama do que onde anima”. (São João da Cruz, Cântico espiritual, 11, 10)
“Não tenhas medo da morte. – Aceita-a desde agora, generosamente..., quando Deus quiser..., como Deus quiser..., onde Deus quiser. Não duvides; virá no tempo, no lugar e do modo que mais convier..., enviada por teu Pai-Deus. – Bem-vinda seja a nossa irmã, a morte!” (Josemaría Escrivá, Caminho, n. 739)
“Não tem grande importância escapar à morte, pois é por pouco tempo, e depois é preciso morrer; mas é coisa grande escapar definitivamente à morte, como acontece conosco, por quem Cristo, nossa Páscoa, foi imolado”. (Orígenes, Hom. para o tempo pascal)
“Que grande dignidade e segurança sair contente deste mundo, sair glorioso em meio à aflição e à angústia, fechar por um momento estes olhos com que vemos os homens e o mundo, para em seguida voltar a abri-los e contemplar a Deus! (São Cipriano, Trat. a Fortunato, 13)”
“[...] Quando vier a morte, que virá inexoravelmente, espera-la-emos com júbilo, como tenho visto que o souberam fazer tantas pessoas santas no meio da sua existência diária. Com alegria, porque, se imitarmos Cristo em fazer o bem – em obedecer e levar a Cruz, apesar das nossas misérias –, ressuscitaremos como Cristo: Surrexit Dominus vere! (Lc 24, 34), que ressuscitou realmente”. (Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 21)
“Doutor em Direito e em Filosofia, preparava um concurso para professor catedrático na Universidade de Madrid. Duas carreiras brilhantes, feitas com brilhantismo. Mandou-me avisar: estava doente, e desejava que eu fosse visitá-lo. Cheguei à pensão onde estava hospedado. – «Padre, estou morrendo», foi a saudação. Animei-o, com carinho. Quis fazer uma confissão geral. Naquela noite, faleceu. Um arquiteto e um médico me ajudaram a amortalhá-lo. – E, à vista daquele corpo jovem, que rapidamente começou a decompor-se..., estivemos de acordo os três em que as duas carreiras universitárias não valiam nada, comparadas com a carreira definitiva que, como bom cristão, acabava de coroar”. (Josemaría Escrivá, Sulco, n. 877)
“Somente a virtude acompanha os defuntos; unicamente a caridade os segue”. (Santo Ambrósio, em Catena Aurea, vol. VI, p. 86)
“Não temas a morte. É tua amiga!
“– Procura acostumar-te a essa realidade, assomando com freqüência à tua sepultura. E ali, olha, cheira e apalpa o teu cadáver apodrecido, defunto há oito dias.
“– Lembra-te disto, especialmente, quando te perturbar o ímpeto da tua carne”. (Josemaría Escrivá, Forja, n. 1035)
“Não faças da morte uma tragédia!, porque não o é. Só aos filhos desamorados é que não entusiasma o encontro com seus pais”. (Josemaría Escrivá, Sulco, n. 885)
“Morrer?... Que comodismo!, repito.
“– Diz como aquele santo bispo, ancião e doente: “Non recuso laborem”: Senhor, enquanto puder ser-te útil, não me recuso a viver e a trabalhar por Ti”. (Josemaría Escrivá, Forja, n. 1040)

Fonte: “Que há para além da morte”, Quadrante, São Paulo, 1993.
Tradução: Gabriel Perissé

A consciência e a vida correta.

Por Joseph Ratzinger

Seguir a consciência significa realizar todos os nossos gostos? O conceito de autoridade exclui o conceito de liberdade? O então Cardeal Ratzinger fala sobre essas e outras questões nesse conjunto de reflexões tirado do posfácio do livro Joseph Ratzinger: uma biografia.

A unidade do homem tem um órgão: a consciência. Foi uma ousadia de São Paulo afirmar que todos os homens têm a capacidade de escutar a sua consciência, separando assim a questão da salvação da questão do conhecimento e da observância da Torah e situando-a no terreno da comum exigência da consciência em que o Deus único fala e diz a cada um o que é verdadeiramente essencial na Torah: Quando os gentios, que não têm lei, cumprem naturalmente as prescrições da lei, sem ter lei são lei para si mesmos, demonstrando que têm a realidade dessa lei escrita no seu coração, segundo o testemunho da sua consciência... (Rom 2, 14 e segs.). Paulo não diz: “Se os gentios se mantiverem firmes na sua religião, isso é bom diante do juízo de Deus”. Pelo contrário, ele condena grande parte das práticas religiosas daquele tempo. Remete para outra fonte, para aquela que todos trazem escrita no coração, ao único bem do único Deus.

Seja como for, aqui se enfrentam hoje dois conceitos contrários de consciência, que na maioria das vezes simplesmente se intrometem um no outro. Para Paulo, a consciência é o órgão da transparência do único Deus em todos os homens, que são um homem. Em contrapartida, atualmente a consciência aparece como expressão do caráter absoluto do sujeito, acima do qual não pode haver, no campo moral, nenhuma instância superior. O bem como tal não seria cognoscível. O Deus único não seria cognoscível. No que diz respeito à moral e à religião, a última instância seria o sujeito.

Isto seria lógico, se a verdade como tal fosse inacessível. Assim, o conceito moderno da consciência equivale à canonização do relativismo, da impossibilidade de haver normas morais e religiosas comuns, ao passo que, pelo contrário, para Paulo e para a tradição cristã, a consciência sempre foi a garantia da unidade do ser humano e da cognoscibilidade de Deus, e assim da obrigatoriedade comum de um mesmo e único bem. O fato de que em todos os tempos houve e há santos pagãos baseia-se em que em todos os lugares e em todos os tempos – embora muitas vezes com grande esforço e apenas parcialmente – a voz do coração era perceptível; a Torah de Deus se nos fazia perceptível como obrigação dentro de nós mesmos, no nosso ser criatural, e assim tornava possível que superássemos a mera subjetividade na relação de uns com os outros e na relação com Deus. E isto é a salvação (1).

CONSCIÊNCIA E VERDADE

A vida e a obra do Cardeal Newman poderia ser realmente definida como um extraordinário e extenso comentário ao problema da consciência <...>. Quem não se recorda <...> da famosa frase acerca da consciência na carta que dirigiu ao duque de Norfolk? Diz assim: “Se tivesse de brindar pela religião, o que é altamente improvável, fá-lo-ia pelo Papa. Mas em primeiro lugar pela consciência. Só depois o faria pelo Papa” (2). Newman queria que a sua resposta fosse uma adesão clara ao Papado em face da contestação de Gladstone, mas também queria que fosse, em face das formas errôneas do “ultramontanismo”, uma interpretação do Papado que só pode ser concebido adequadamente quando visto de forma conjunta com o primado da consciência, não como oposto a ela, mas como algo que a funda e lhe dá garantia. É difícil para o homem moderno, que pensa sempre na subjetividade como oposta à autoridade, entender esse problema. Para ele, a consciência está do lado da subjetividade e é expressão da liberdade do sujeito, enquanto a autoridade aparece como sua limitação e, inclusive, como sua ameaça e negação. É preciso aprofundar mais em tudo isso para entender de novo a perspectiva em que tal oposição não é válida.

O conceito central de que Newman se serve para unir autoridade e subjetividade é a verdade. Não tenho reparos em dizer que a verdade é a idéia central da sua luta espiritual. A consciência ocupa para ele um lugar central porque a verdade está no centro. Dito de outra maneira: em Newman, a importância do conceito de consciência está unida à excelência do conceito de verdade e deve ser entendida exclusivamente a partir dele. A presença constante da idéia de consciência não significa a defesa, no século XIX e em contraposição à neo-escolástica “objetivista”, de uma filosofia ou uma teologia da subjetividade. O sujeito merece, a seu ver, uma atenção como não havia despertado talvez desde Santo Agostinho. Mas é uma atenção na linha de Santo Agostinho, não na da filosofia subjetivista da modernidade. Ao ser elevado ao cardinalato, Newman confessou que toda a sua vida tinha sido uma luta contra o liberalismo. Poderíamos acrescentar: e também contra o subjetivismo cristão tal como o encontrou no movimento evangélico do seu tempo, e que constituiu o primeiro degrau de um caminho de conversão que duraria toda a sua vida.

A consciência não significa para Newman a norma do sujeito frente às demandas da autoridade num mundo sem verdade, que vive entre as exigências do sujeito e da ordem social, mas, antes, a presencia clara e imperiosa da voz da verdade no sujeito. A consciência é a anulação da mera subjetividade no ponto em que se tangenciam a intimidade do homem e a verdade de Deus. São significativos os versos que escreveu na Sicília em 1833: “Eu amava o meu próprio caminho. Agora Te peço, ilumina-me para Te seguir” (3). A conversão ao catolicismo não foi para ele uma questão de gosto pessoal ou de uma necessidade anímica subjetiva. Já em 1844, no umbral de sua conversão, falava sobre isso com estas palavras: “Ninguém pode ter uma opinião mais desfavorável que eu da situação atual dos católicos” (4). Mas a Newman importava mais obedecer à verdade, inclusive contra o seu próprio sentir, que seguir o seu gosto, os vínculos de amizade e os caminhos trilhados.

Parece-me muito significativo que ele tenha sublinhado a prioridade da verdade sobre o bem na série das virtudes, ou, expresso de forma mais compreensível para nós, a sua primazia em face do consenso e dos pactos de grupo. Eu diria que essas atitudes são comuns quando falamos de um homem de consciência. Homem de consciência é aquele que não compra tolerância, bem-estar, êxito, reputação e aprovação públicas renunciando à verdade. Nisso Newman coincide com outra grande testemunha britânica da consciência, com Thomas More, para quem a consciência nunca foi expressão da sua vontade de obstinação nem de heroísmo caprichoso. Thomas More contava-se a si mesmo entre os mártires temerosos que só depois de muitos atrasos e inumeráveis questionamentos conseguiu levar a alma a obedecer à consciência: a obediência à verdade, que deve estar acima das instâncias sociais e dos gostos pessoais. Aparecem então dois critérios para distinguir a presença de uma verdadeira voz da consciência: que não coincida com os desejos e gostos próprios nem com o que é mais benéfico para a sociedade, o consenso do grupo ou as exigências do poder político ou social.

Chegados a este ponto, parece natural lançar um olhar aos problemas da nossa época. O indivíduo não deve trair a verdade reconhecida para comprar o progresso e o bem-estar. A humanidade não o permite. Com isto, tocamos o ponto verdadeiramente crítico da modernidade: o conceito de verdade foi praticamente abandonado e substituído pelo de progresso. O progresso “é” a verdade. Mas com essa aparente elevação desmente-se e anula a si próprio, pois quando não há direção, o mesmo movimento pode ser tanto progressivo como retrógrado. É assim que a teoria da relatividade formulada por Einstein vê o cosmos físico. Mas penso que também descreve com acerto a situação do cosmos espiritual do nosso tempo. A teoria da relatividade estabelece que não há nenhum sistema de referência fixo; cabe a nós considerar um ponto qualquer como referência e a partir dele tentar medir a totalidade, pois apenas assim poderemos obter resultados; da mesma maneira que escolhemos um, poderíamos ter escolhido qualquer outro.

O que se diz a respeito do cosmos físico reflete também o segundo giro “copernicano” que se deu na nossa relação fundamental com a realidade: a verdade, o absoluto, o ponto de referência do pensamento deixou de ser evidente. Por isso, já não há – tampouco do ponto de vista espiritual – nem norte nem sul. Não há direção num mundo sem pontos de medida fixos. O que consideramos direção não assenta numa medida verdadeira, mas numa decisão nossa e, em última análise, no ponto de vista da utilidade. Num tal contexto “relativista”, a ética teleológica ou conseqüencialista converte-se numa ética niilista, mesmo quando não se percebe. O que numa cosmovisão como essa se chama “consciência” é, considerada em profundidade, um modo de dissimular que não há autêntica consciência, isto é, unidade de conhecimento e verdade. Cada um cria os seus próprios critérios, e, na situação de relatividade geral, ninguém pode ajudar os outros, e menos ainda dar-lhes instruções.

Agora se percebe a enorme radicalidade do debate ético atual, cujo centro é a consciência. Penso que o paralelismo mais aproximado na história das idéias é a controvérsia entre Sócrates e Platão, por um lado, e os sofistas, por outro, na qual se põe à prova a resolução originária de duas atitudes fundamentais: a confiança na capacidade humana de verdade e uma visão do mundo na qual o homem cria os seus próprios critério.

O motivo pelo qual Sócrates, um pagão, se converteu em certo sentido num profeta de Jesus Cristo é, a meu ver, essa questão primordial: a sua disposição de acolher a verdade foi o que permitiu ao modo de fazer filosofia inspirado na sua figura o privilégio de ser de algum modo um elemento da História Sagrada, e o que fez dele um recipiente idôneo do Logos cristão, cuja finalidade é a libertação pela verdade e para a verdade. Se separarmos a luta de Sócrates das contingências históricas do momento, perceberemos rapidamente com que intensidade intervém – com outros argumentos e nomes – nos assuntos da polêmica do presente. <...>

em muitos lugares já não se pergunta o quê um homem qualquer pensa. Basta-nos dispor de uma idéia sobre o seu modo de pensar para incluí-lo na categoria formal conveniente: conservador, reacionário, fundamentalista, progressista ou revolucionário. A inclusão num esquema formal torna desnecessária qualquer explicação do seu pensamento. Algo parecido, mas reforçado, se observa na arte. O que expressa é indiferente: pode glorificar Deus ou o diabo. O único critério é que seja formalmente conhecido.

Com isto, chegamos ao verdadeiro núcleo do nosso assunto. Quando os conteúdos não contam e a pura fraseologia assume o comando, o poder converte-se em critério supremo, isto é, transforma-se em categoria – revolucionária ou reacionária – dona de tudo. Esta é a forma perversa de semelhança com Deus de que fala o relato do pecado original. O caminho do mero poder e da pura força é a imitação de um ídolo, não a realização da imagem de Deus. O traço essencial do homem enquanto homem não é perguntar pelo poder, mas pelo dever, e abrir-se à voz da verdade e suas exigências. Esta é, a meu ver, a trama definitiva da luta de Sócrates. Também é o argumento mais profundo do testemunho dos mártires: os mártires manifestam a capacidade de verdade do homem como limite de qualquer poder e como garantia da sua semelhança com Deus. É assim que os mártires se constituem nas grandes testemunhas da consciência, da capacidade outorgada ao homem para perceber o dever acima do poder e começar o progresso verdadeiro e a ascensão efetiva (5).

A CONSCIÊNCIA “INFALÍVEL”

A consciência é apresentada como o baluarte da liberdade em face das constrições da existência causadas pela autoridade. <...> Desse modo, a moral da consciência e a moral da autoridade parecem enfrentar-se como duas morais contrapostas em luta recíproca. A liberdade do cristão ficaria a salvo graças ao postulado original da tradição moral: a consciência é a norma suprema que o homem deve seguir sempre, mesmo quando vai contra a autoridade. Quando a autoridade, nesse caso o Magistério da Igreja, falasse sobre problemas de moral, estaria submetendo um material à consciência, que reservaria sempre para si mesma a última palavra <...>. Essa concepção da consciência como última instância é recolhida por alguns autores na fórmula “a consciência é infalível”. <...>

Por um lado, é inquestionável que devemos sempre seguir o veredito evidente da consciência, ou pelo menos não o infringir com as nossas ações. Mas é muito diferente sustentar a convicção de que o ditame da consciência, ou o que consideramos como tal, sempre estaria certo, sempre seria infalível. Semelhante afirmação significaria o mesmo que dizer que não há verdade alguma, ao menos em matéria de moral e religião, isto é, justamente no âmbito que é o fundamento constitutivo da nossa existência. Como os juízos da consciência se contradizem uns aos outros, só haveria uma “verdade do sujeito” <...>.

A pergunta pela consciência nos transporta, na prática, para o domínio essencial do problema moral e a interrogação acerca da existência do homem. Não gostaria de pôr esses problemas em forma de considerações estritamente conceituais e, por conseguinte, completamente abstratas, mas preferiria avançar de modo narrativo.

Primeiramente, contarei a história da minha relação pessoal com esse problema. Ele pôs-se pela primeira vez com toda a sua urgência no começo da minha atividade acadêmica. Um meu colega mais velho <...>, expressou durante uma disputa a opinião de que devíamos dar graças a Deus por conceder a muitos homens a possibilidade de fazer-se não-crentes seguindo a sua consciência; se lhes abríssemos os olhos e eles se fizessem crentes, não seriam capazes de suportar neste nosso mundo o peso da fé e das suas obrigações morais. Mas, como todos seguiram de boa-fé um caminho diferente, poderiam alcançar a salvação.

O que mais me chocava nessa afirmação não era a idéia de uma consciência equivocada concedida pelo próprio Deus para poder salvar os homens mediante esse estratagema, isto é, a idéia de uma ofuscação enviada por Deus para a salvação de alguns. O que me perturbava era a idéia de que a fé fosse uma carga insuportável que só naturezas fortes poderiam suportar, quase um castigo ou, em todo o caso, uma exigência difícil de cumprir. A fé não facilitaria a salvação, antes a dificultaria. Livre seria aquele que não carregasse com a necessidade de crer e de dobrar-se ao jugo da moral que decorre da fé da Igreja Católica. A consciência errônea, que permitiria uma vida mais leve e mostraria um caminho mais humano, seria a verdadeira graça, o caminho normal da salvação. A falsidade e o afastamento da verdade seriam melhores para o homem do que a verdade. O homem não seria libertado pela verdade, mas deveria ser libertado dela. A morada do homem seria mais a obscuridade do que a luz, e a fé não seria um dom benéfico do bom Deus, mas uma fatalidade.

Porém, se as coisas fossem assim, como poderia surgir a alegria da fé? Como poderia surgir a coragem de transmiti-la aos demais? Não seria melhor deixá-los em paz e mantê-los distantes dela? Foram idéias como essa que paralisaram, com cada vez mais força, a tarefa evangelizadora. Quem encara a fé como uma carga pesada ou como uma exigência moral excessiva não pode convidar outras pessoas a abraçá-la. Prefere deixá-los na suposta liberdade da sua boa consciência.

<...> O que inicialmente me estarreceu no argumento mencionado era, sobretudo, a caricatura de fé que me pareceu haver nele. Mas, numa segunda consideração, pareceu-me igualmente falso o conceito de consciência que pressupunha. A consciência errônea protege o homem das exigências da verdade e o salva: assim soava o argumento. A consciência não aparecia nele como uma janela que abre para o homem o panorama da verdade comum que sustenta a cada um e a todos, tornando possível que sejamos uma comunidade de vontade e de responsabilidade apoiada na comunidade do conhecimento. Nesse argumento, a consciência também não é a abertura do homem ao fundamento que o sustenta nem a força que lhe permite perceber o supremo e essencial. Trata-se antes de uma espécie de invólucro protetor da subjetividade <...> que não dá acesso à estrada salvadora da verdade, que ou não existe ou é exigente demais; e converte-se assim em justificação da subjetividade, que não se quer ver questionada, e do conformismo social, que deve possibilitar a convivência como valor médio entre as diversas subjetividades. Desaparecem assim o dever de buscar a verdade e as dúvidas quanto às atitudes e costumes dominantes: bastariam o conhecimento adquirido individualmente e a adaptação aos outros. O homem é reduzido às convicções mais superficiais, e quanto menor a sua profundidade, melhor para ele. <...>.

Pouco depois, numa disputa entre um grupo de colegas sobre a força justificadora da consciência errônea, alguém objetou contra essa tese que, se fosse universalmente válida, estariam justificados – e deveríamos procurá-los no céu – os membros das SS que cometeram os seus crimes com um conhecimento fanatizado e plena segurança de consciência. <...> Não haveria a menor dúvida de que Hitler e os seus cúmplices, que estavam profundamente convencidos do que faziam, não podiam ter agido de outra forma. Apesar do horror objetivo das suas ações, teriam agido moralmente do ponto de vista subjetivo. Como seguiam a sua consciência, embora esta os tivesse guiado erroneamente, deveríamos reconhecer que as suas ações eram morais para eles; não poderíamos duvidar, em suma, da salvação eterna das suas almas.

A partir dessa conversa, sei com segurança absoluta que há algum erro na teoria sobre a força justificadora da consciência subjetiva; em outras palavras, que um conceito de consciência que conduz a semelhantes resultados é falso. A firme convicção subjetiva e a segurança e falta de escrúpulos que dela derivam não tiram a culpa do homem. Quase trinta anos depois, lendo o psicólogo Albert Görres, descobri resumida em poucas palavras a idéia que então tentava penosamente reduzir a conceitos e cujo desenvolvimento forma o núcleo das nossas reflexões. Görres indica que o sentimento de culpabilidade, a capacidade de sentir culpa, pertence de forma essencial ao patrimônio anímico do homem. O sentimento de culpa, que rompe a falsa tranqüilidade da consciência <...>, é um sinal tão necessário para o homem como a dor corporal, que permite conhecer a alteração das funções vitais normais. Quem não é capaz de sentir culpa está espiritualmente doente, é um “cadáver vivente, uma máscara do caráter”, como diz Görres (6). “Os animais e os monstros, entre outros, não têm sentimento de culpa. Talvez Hitler, Himmler ou Stalin também não o tenham tido. Com certeza, os chefões da máfia também carecem dele. Mas, na verdade, é bem possível que os seus cadáveres estejam ocultos no sótão, junto com os sentimentos de culpa rejeitados... Todos os homens necessitam de um sentimento de culpa” (7).

Além do mais, uma rápida olhada na Sagrada Escritura poderia ter evitado esses diagnósticos e as teorias da justificação pela consciência errônea. No Salmo 19, 13 encontramos uma proposição eternamente digna de reflexão: “Quem será capaz de reconhecer os seus deslizes? / Limpa-me <, Senhor,> dos que me são ocultos”. Isso não é um “objetivismo veterotestamentário”, mas profunda sabedoria humana: negar-se a ver a culpa ou fazer emudecer a consciência em tantos assuntos é uma doença da alma mais perigosa que a culpa reconhecida como culpa. Aquele que é incapaz de perceber que matar é pecado cai mais baixo do que aquele que reconhece a ignomínia da sua ação, pois está muito mais distante da verdade e da conversão. Não é em vão que, diante de Jesus, o orgulhoso aparece como alguém verdadeiramente perdido. O fato de o publicano, com todos os seus pecados indiscutíveis, parecer mais justo diante de Deus que o fariseu, com todas as suas obras verdadeiramente boas (Lc 18, 9-14), não significa que os pecados do publicano não sejam pecados nem que não sejam boas as obras boas. <...> O fundamento desse juízo paradoxal de Deus revela-se precisamente a partir do nosso problema: o fariseu não sabe que também tem pecados. Está inteiramente quite com a sua consciência. Mas o silêncio da consciência torna-o impermeável a Deus e aos homens, ao passo que o grito da consciência que aflora no publicano torna-o capaz da verdade e amor. Jesus pode atuar nos pecadores porque eles não se fazem inacessíveis às mudanças que Deus espera deles – de nós – escondendo-se atrás do biombo da sua consciência errônea. Mas não pode atuar nos “justos”, que não sentem necessidade nem de perdão nem de conversão; a sua consciência, que os exculpa, não acolhe nem o perdão nem a conversão.

Voltamos a encontrar a mesma idéia, ainda que exposta de outro modo, em Paulo, que nos diz que os gentios, quando guiados pela razão natural, sem Lei, cumprem os preceitos da Lei (Rom 2, 1-16). Toda a teoria da salvação pela ignorância fracassa diante desses versículos: no homem, existe a presença inegável da verdade, da verdade do Criador, que se oferece também por escrito na revelação da História Sagrada. O homem pode ver a verdade de Deus no fundo do seu ser criatural. É culpado se não a vê. Só se deixa de vê-la quando não se quer vê-la, ou seja, porque não se quer vê-la. Essa vontade negativa que impede o conhecimento é culpa. Que o farol não brilhe é conseqüência de um afastamento voluntário do olhar daquilo que não queremos ver.

A estas alturas das nossas reflexões, é possível tirar as primeiras conseqüências para responder à pergunta sobre o que é a consciência. Agora já podemos dizer: não é possível identificar a consciência humana com a autoconsciência do eu, com a certeza subjetiva de si e do seu comportamento moral. Essa consciência pode ser às vezes um mero reflexo do meio social e das opiniões nele difundidas. Outras vezes, pode estar relacionada com uma pobreza autocrítica, com não ouvir suficientemente a profundidade da alma. O que se deu no Leste Europeu após a derrocada dos sistemas marxistas confirma este diagnóstico. Os espíritos mais claros e despertos dos povos libertados falam de um imenso abandono moral, produzido por muitos anos de degradação espiritual, e de um embotamento do sentido moral, cuja perda e os perigos que acarreta pesariam ainda mais que os danos econômicos que produziu. O novo patriarca de Moscou pôs energicamente em evidência esse aspecto, no começo da sua atividade, no verão de 1990: as faculdades perceptivas dos homens que vivem num sistema de engano turvam-se inevitavelmente. A sociedade perde a capacidade de misericórdia e os sentimentos humanos desaparecem. <...> “Temos de conduzir de novo a humanidade aos valores morais eternos”, isto é, desenvolver de novo o ouvido quase extinto para escutar o conselho de Deus no coração do homem. O erro, a consciência errônea, só são cômodos num primeiro momento. Depois, o emudecimento da consciência converte-se em desumanização do mundo e em perigo mortal, se não reagimos contra eles.

Em outras palavras: a identificação da consciência com o conhecimento superficial e a redução do homem à subjetividade não libertam, mas escravizam. Fazem-nos completamente dependentes das opiniões dominantes e reduzem dia após dia o nível dessas mesmas opiniões dominantes. Aquele que iguala a consciência à convicção superficial identifica-a com uma segurança aparentemente racional, tecida de fatuidade, conformismo e negligência. A consciência degrada-se à condição de mecanismo exculpatório, em vez de representar a transparência do sujeito para refletir o divino, e, como conseqüência, degrada-se também a dignidade e a grandeza do homem. A redução da consciência à segurança subjetiva significa a supressão da verdade. Quando o salmista, antecipando a visão de Isaías sobre o pecado e a justiça, pede para libertar-se dos pecados que se nos ocultam, chama a atenção para o seguinte fato: deve-se, sem dúvida, seguir a consciência errônea, mas a supressão da verdade que a precede, e que agora se vinga, é a verdadeira culpa, que adormece o homem numa falsa segurança e por fim o deixa só num deserto inóspito (8).


FORMAR A CONSCIÊNCIA

Certamente a fé cristã vai além daquilo que a pura razão é capaz de reconhecer, mas faz parte das suas convicções fundamentais que Cristo é o Logos, quer dizer, a razão criadora de Deus da qual procede o mundo e que se reflete na nossa racionalidade. O apóstolo Paulo, que falou com tanta ênfase da novidade e da unicidade do cristianismo, destacou ao mesmo tempo que o preceito moral registrado na Sagrada Escritura coincide com aquele que “está inscrito nos nossos corações, segundo o testemunho da nossa consciência” (Rom 2, 15). É verdade que, com freqüência, esta voz do nosso coração, a consciência, é sufocada pelos ruídos secundários da nossa vida. A consciência pode, por assim dizer, tornar-se cega. Precisamos assistir às “aulas de recuperação” da fé, que volta a despertá-la, e assim torna novamente perceptível a voz do Criador em nós, suas criaturas (9).

O RESPEITO HUMANO, TRAIÇÃO DA PRÓPRIA CONSCIÊNCIA

O Juiz do mundo, que um dia voltará para nos julgar a todos nós, está ali, aniquilado, insultado e inerme diante do juiz terreno. Pilatos não é um monstro de maldade. Sabe que esse condenado é inocente, e procura um modo de libertá-lo. Mas o seu coração está dividido. E, por fim, faz prevalecer a sua posição, a si mesmo, acima do direito. Também os homens que gritam e pedem a morte de Jesus não são monstros de maldade. Muitos deles, no dia de Pentecostes, sentir-se-ão emocionados até ao fundo do coração (At 2, 37) quando Pedro lhes disser: a Jesus do Nazaré, homem acreditado por Deus junto de vós, <...>, vós o matastes, cravando-o na cruz pela mão de gente perversa (At 2, 22-23). Naquele momento, porém, sofrem a influência da multidão. Gritam porque os outros gritam e tal como os outros gritam. E assim a justiça é espezinhada pela covardia, pela pusilanimidade, pelo medo do diktat da mentalidade predominante. A voz sutil da consciência fica sufocada pelos gritos da multidão. A indecisão, o respeito humano dão força ao mal (10).

FALSAS PROMESSAS

Cristo diz: Guardai-vos dos falsos profetas que vêm a vós sob disfarce de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Pelos seus frutos os conhecereis. Parece uma advertência contra as seitas e heresias.

É uma interpretação possível. Mas também é uma advertência contra qualquer regra fácil. Jesus nos previne contra os “curandeiros do espírito”. Diz que a nossa norma deve ser perguntarmo-nos: “Como vive essa pessoa? Quem é na realidade? Que frutos produzem ele e o seu círculo? Analise isso e verá a que conduz”.

Essa norma prática, ditada por Cristo à vista do momento em que viveu, projeta-se sobre a História. Pensemos nos pregadores da salvação do século passado, quer se trate de Hitler ou dos pregadores marxistas; todos vieram e disseram: “Trazemos a justiça para vós”. No princípio, pareciam mansas ovelhas, mas acabaram sendo grandes destruidores. Mas também diz respeito aos numerosos pequenos pregadores que nos dizem: “Eu tenho a chave, age assim e em pouco tempo conseguirás a felicidade, a riqueza, o êxito”.

William Shakespeare, evidentemente um católico, viveu com intensidade a roda da existência. Como bom pedagogo, no fim ofereceu uma recomendação, algo assim como a essência do seu conhecimento mundano: “Compra tempo divino, vende horas do triste tempo terrenal”. São palavras sábias, como as que se esperam de um grande homem. O tempo mais bem aproveitado é o que se transforma em algo duradouro: é o tempo que recebemos de Deus e a Ele devolvemos. O tempo que é pura transição desmorona e se transforma em mera caducidade (11).

A REGRA DE OURO

O Sermão da Montanha não corresponde necessariamente às idéias tradicionais. Opõe-se até às nossas definições de sorte, grandeza, poder, êxito ou justiça. E, no seu final, oferece ao seu público um resumo, quase que uma lei das leis, a “regra de ouro” da vida. Diz assim: “Portanto, tudo o que quiserdes que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; porque esta é a Lei e os Profetas”.

A regra de ouro já existia antes de Cristo, embora formulada de maneira negativa: “Não faças a ninguém o que não queres que te façam”. Jesus a supera com uma formulação positiva que, como é lógico, é muito mais exigente.

Na minha opinião, o que é grandioso é que já não se volta a comparar quem fez o que, quando, como, a quem; que a pessoa já não se perde em diferenciações, mas compreende a missão essencial que nos foi confiada: abrir bem os olhos, abrir o coração e encontrar as possibilidades criativas do bem. Já não se trata de perguntar que é o que eu quero, mas de trasladar para os outros o meu desejo. E esta entrega autêntica, com toda a sua fantasia criativa, com todas as possibilidades que abre diante de nós, está recolhida numa regra muito prática, para que não fique reduzida a um sonho idealista qualquer (12).

VIVER AS VIRTUDES

Creio que todo o mundo gostaria de saber como levar uma vida correta, <...>, como levá-la ao cume sentindo-se à vontade consigo mesmo. Antes de morrer, o grande ator Cary Grant deixou à sua filha Jennifer uma carta de despedida comovente. Quis dar-lhe nela algumas recomendações adicionais para o caminho. “Queridíssima Jennifer”, escreveu, “viva a sua vida plenamente, sem egoísmo. Seja comedida, respeite o esforço dos outros. Esforce-se para conseguir o melhor e o bom gosto. Mantenha puro o juízo e limpa a conduta”. E prosseguia: “Dê graças a Deus pelos rostos das pessoas boas e pelo doce amor que há por trás dos seus olhos... Pelas flores que ondulam ao vento... Um breve sono e despertarei para a eternidade. Se não despertar como nós o entendemos, então continuarei a viver em você, filha queridíssima”.

De certa forma, soa a católico. Seja como for, é uma carta belíssima. Se era católico ou não, não sei, mas certamente é a expressão de uma pessoa que se tornou sábia e compreendeu o significado do bem, e tenta transmiti-lo, além disso, com uma assombrosa amabilidade (13).
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NOTAS:

(1) Fe, verdad y cultura. Reflexiones a propósito de la encíclica Fides et ratio, Primeiro Congresso Internacional da Faculdade San Dámaso de Teologia, Madrid, 16.02.00.
(2) Letter to Norfolk, pág. 261.
(3) Do conhecido poema Lead, kindly light.
(4) Correspondence of J. H. Newman with J. KebleOthers, págs. 351 e 364.
(5) Verdad, valores, poder, págs. 56-64.
(6) A. Görres, “Schuld und Schuldgefühle”, em Internationale katolische Zeitschrift “Communio”, 13 (1948), pág. 434.
(7) Ibid., pág. 142.
(8) “Se quiseres a paz, respeita a consciência de cada um (Consciência e verdade)”, em Wahrheit, Werte, Macht. Prüfsteine der pluralistischen Gesellschaft, Herder, Friburgo, 1993; trad. esp. Verdad, valores, poder. Piedras de toque de la sociedad pluralista, Rialp, Madrid, 2000, págs. 40-55.
(9) Entrevista a Jaime Antúnez Aldunate.
(10) Via-sacra no Coliseu, Primeira estação: meditação, Departamento para as Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice, Roma, 14.04.05.
(11) La fe, de tejas abajo.
(12) La fe, de tejas abajo.
(13) La fe, de tejas abajo.

Tradução: Emérico da Gama