terça-feira, 19 de novembro de 2013

A PLC 122

Hoje, trago um importante alerta sobre o PLC 122, um projeto do PT concebido para criminalizar a chamada "homofobia", conceito muitas vezes interpretado como qualquer opinião contrária às práticas homossexuais.
Conforme a Agência Senado, o senador Paulo Paim (PT-RS) entregou nesta quinta-feira (14) à Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) seu substitutivo ao Projeto de Lei da Câmara (PLC) 122/2006, e anunciou que o projeto poderá ser votado na próxima quarta-feira (20).
Segundo Paim, sua versão do PLC 122 omitiu propositalmente agora o termo "HOMOFOBIA". Conforme a matéria acima, ele havia anunciado com antecedência:
"NO TEXTO, NÃO VAI ENTRAR A PALAVRA HOMOFOBIA".
O termo traiçoeiro, mas não seu espírito, foi removido. As ameaças explícitas foram removidas. Mas outras ameaças, não explicitas, estão presentes. Sob a roupagem de uma legislação punitiva, o projeto pretende ser o veículo para introduzir na legislação brasileira os conceitos de "ORIENTAÇÃO SEXUAL" e "IDENTIDADE DE GÊNERO", agora mais reforçados do que nas versões anteriores. O projeto cita doze vezes o conceito de gênero e identidade de gênero e seis vezes o conceito de orientação sexual.
O PLC 122 introduz na legislação brasileira o conceito de "GÊNERO". A única lei que até hoje contém o termo "GÊNERO" é a Lei Maria da Penha, porém com o sentido unicamente de sexo (masculino e feminino). A Lei Maria da Penha refere-se à violência doméstica contra a mulher, conforme declarado em seu primeiro artigo:
"ESTA LEI CRIA MECANISMOS PARA COIBIR E PREVENIR A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER, E ESTABELECE MEDIDAS DE ASSISTÊNCIA E PROTEÇÃO ÀS MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR".
O problema no caso do PLC 122 é que o conceito de "GÊNERO" em seu texto não é mais sinônimo de sexo masculino e feminino. "GÊNERO" no PLC 122 é uma construção ideológica para sustentar uma variedade flexível de SEXUALIDADES" inventadas.
O PLC 122 introduz também o conceito de "ORIENTAÇÃO SEXUAL". Esse conceito é, do ponto de vista lógico, anterior ao conceito de gênero. Para alcançar o conceito de "GÊNERO" como algo totalmente diferente da definição tradicional de sexo biológico masculino e feminino é necessário passar pelo conceito de "ORIENTAÇÃO SEXUAL". Uma vez consolidada a idéia de que existem várias "ORIENTAÇÕES SEXUAIS", a Esquerda sexual apresenta sua explicação de que não existem sexos, mas existem gêneros, que são "CONSTRUÇÕES SOCIAIS", não biológicas. Ora, se o que existe não são mais os "SEXOS", mas sim os "GÊNEROS", e se os "GÊNEROS" não são mais biológicos, mas simples "CONSTRUÇÕES SOCIAIS", neste caso a família tradicionalmente entendida, como originária da união entre um homem e uma mulher, deixa de fazer qualquer sentido.
Deste modo, a ideologia de gênero está sendo introduzida na legislação como uma bomba relógio com o objetivo de destruir o conceito tradicional da família como a união de um homem e uma mulher vivendo com compromisso de criar e educar filhos.
A bomba relógio trazida pelo PLC 122 está armada para ser detonada o mais rapidamente possível. Já está tramitando na Câmara dos Deputados um projeto de lei, produzido pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre a Violência contra a Mulher no Brasil, que introduz a "IGUALDADE DE GÊNERO" nas metas da Lei de Diretrizes e Bases da Educação nacional. Esse projeto, o PL 6010/2013, está avançando em regime de urgência, para ser aprovado diretamente no plenário do Congresso Nacional. Sua tramitação e conteúdo podem ser examinados neste
endereço:
Ora, bastará que o conceito de "GÊNERO" seja oficialmente reconhecido e imposto na legislação pelo PLC 122, para que não exista mais nenhum motivo que possa ser apresentado pelos legisladores como fundamento para que se recusem a aprovar o PL 6010/2013, que introduzirá e imporá a "IGUALDADE DE GÊNERO" nas metas da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Com isso, todos os alunos serão obrigados a aprender nas escolas a ideologia de gênero, que apresenta como sexualidade toda a abundância de opções fora dos padrões relacionados com a construção de uma família tradicional, uma instituição que não têm qualquer sentido dentro da ideologia de gênero. Com a ideologia de gênero imposta pela lei na educação, os kits gays, bissexuais, transexuais, lésbicos, etc., serão obrigatórios para as crianças em idade escolar.
Esta tendência já está sendo imposta a nível internacional. O escritório regional para a Europa da Organização Mundial da Saúde, em conjunto com o Centro Federal Europeu para a Educação em Saúde, com sede em Colônia, acabam de publicar o documento "PADRÕES PARA A EDUCAÇÃO SEXUAL NA EUROPA".
O documento afirma que a educação sexual obrigatória na Europa em todas as escolas começou em 1955, estendendo-se em seguida para os outros países escandinavos, a Alemanha, a Áustria, a Holanda e a Suíça, embora não tenha se tornada obrigatória nesses países. O texto afirma que lamentavelmente a educação sexual dada nas escolas da Europa concentra-se "APENAS NA COMUNICAÇÃO DOS FATOS BIOLÓGICOS, NEGLIGENCIANDO TODO O DESENVOLVIMENTO DE HABILIDADES".
O documento recomenda ainda que a educação sexual se torne obrigatória para as crianças de todos os países da Comunidade Europeia, sem nenhuma cláusula de opções que permitam aos pais retirar suas crianças das aulas,
"MESMO QUE ELES TENHAM SÉRIAS OBJEÇÕES AOS CONTEÚDOS DO CURRÍCULO".
Este é um padrão que está sendo intencionalmente imposto no mundo inteiro e que chegará ao Brasil.
O que acontecerá então? Se o PLC 122 for aprovado e se tornar lei, o conceito de "GÊNERO" estará legalmente sacralizado. Em seguida, o PL 6010/2013, que supostamente é apresentado como tendo sido idealizado apenas para "COMBATER À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER", introduzirá a "IGUALDADE DE GÊNERO", e toda a ideologia envolvida neste conceito, nas metas da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, forçando todas as escolas nessa direção. Bastará então que qualquer projeto de lei venha a tornar a educação sexual obrigatória nas escolas, e a Esquerda sexual acabará transformando o sistema educacional numa máquina armada para a demolição e destruição do conceito da família natural.
A malícia contida na estratégia de "MUDANÇA" apresentada pelo senador petista Paulo Paim o PLC 122 consiste no fato de que o publico, tão acostumado e cansado em focar a atenção apenas no caráter punitivo do PLC 122, não conseguirá perceber a bomba-relógio da sacralização legal dos conceitos agora reforçados de "ORIENTAÇÃO SEXUAL" e "GÊNERO". Em vez de perceberem esta ameaça, as pessoas se distrairão na discussão sobre se as punições que o PLC 122 impõe são justas ou injustas, se são abusivas ou equilibradas. E vamos nos perder nestas discussões sem ter percebido que o principal perigo do projeto é justamente a introdução legal do conceito de "GÊNERO", que está na própria essência do documento. Assim que este projeto vier a tornar-se lei, o conceito de gênero já estará fora de discussão, e a própria concepção do que seja a sexualidade humana terá sido totalmente reinventada na legislação, sem que ter sido discutida uma única vez.
Com esta reviravolta legal solidificada, as portas estarão abertas para outras leis sacralizando a nova e inventada multiforme sexualidade, atingindo a educação e as escolas, e pavimentando o caminho para leis punitivas na imagem e semelhança do PLC 122 original em suas pretensões draconianas para com os milhões de cidadãos brasileiros que discordam das práticas homossexuais. Os que ousarem propor a família tradicional como tema central na educação da juventude, mesmo que sejam escolas religiosas, serão perseguidos por "DISCRIMINAÇÃO DE GÊNERO", um conceito cujos contornos são claros mas ao mesmo tempo ainda suficientemente maleáveis para serem ainda mais ampliados pela legislação ou pela jurisprudência posterior.
Foi na década de 60 que o conceito de "GÊNERO" começou a ser desenvolvido, nos Estados Unidos, pelo Dr. John Money da Universidade John Hopkins. A partir da década de 1980, a teoria de "GÊNERO" passou a ser adotada por feministas e socialistas, que viam nessa teoria uma justificação científica para as ideias desenvolvidas por Karl Marx e Friedrich Engels, contidas no livro "A ORIGEM DA FAMÍLIA, DA PROPRIEDADE PRIVADA E DO ESTADO", que prevê a demolição da família tradicional, defendendo, em seu lugar, o sexo livre. Deste modo a palavra "GÊNERO", antes usada apenas em gramática com a finalidade de classificar substantivos e adjetivos como masculinos, femininos ou neutros, passou a ser utilizada para promover a revolução cultural feminista e marxista.
Inicialmente passou-se a utilizar a palavra "GÊNERO" como se fosse um sinônimo moderno e elegante para sexo. Mas quando o público se acostumou com a inovação, os socialistas passaram a defendem que "GÊNERO" não significaria somente o sexo masculino e feminino, mas muito mais. Com a teoria aceita e universalizada, os adeptos de Marx começaram a atiçar as multidões contra a "OPRESSÃO DE GÊNERO", apresentando as pessoas que optaram por comportamentos sexuais desviados, e até mesmo as mulheres que aceitavam um papel diferenciado dos homens dentro da família, como vítimas de uma "OPRESSÃO" que teria base não em diferenças biológicas, mas em categorias socialmente construídas, e que estaria na própria raiz de todas as demais opressões, inclusive a do proletariado.
Essa marcha revolucionária para defender o "GÊNERO OPRIMIDO" contra a sexualidade tradicional teve seu início do direito internacional através da Conferência da ONU sobre a Discriminação contra as Mulheres, realizada em Pequim, em 1995. Essa conferência da ONU, que tratou da "CONVENÇÃO SOBRE A ELIMINAÇÃO DE TODAS AS FORMAS DE DISCRIMINAÇÃO CONTRA A MULHER", em vez de focar-se apenas na questão da discriminação contra as mulheres, que era o objetivo anunciado da Conferência, gastou a maior parte de seu tempo tentando introduzir, mais de duzentas vezes, o termo "GÊNERO" em seus longos documentos.
A teoria de "GÊNERO" está sendo utilizada agora para promover uma revolução cultural sexual marxista, principalmente entre as crianças em idade escolar. Na submissão da mulher ao homem através da família, e na própria instituição familiar, Marx e Engels entenderam estar a origem de todos os sistemas de opressão que se desenvolveriam em seguida. Se essa submissão fosse conseqüência da biologia humana, não haveria nada que fosse possível fazer. Mas no livro "A ORIGEM DA FAMÍLIA, DA PROPRIEDADE PRIVADA E DO ESTADO", o último livro escrito por Marx e terminado por Engels, estes autores afirmam que a família não é conseqüência da biologia humana, mas de uma opressão social produzida pelo acumulação da riqueza entre os primeiros povos agricultores. Eles não utilizaram o termo gênero, que ainda não havia sido inventado, mas chegaram bastante perto.
A ideologia de gênero, afirmando que a diferença entre o homem e a mulher não é biológica, mas conseqüência de papéis socialmente construídos, somou-se à obra de Marx através da conclusão que, se esta é a base de toda opressão e tudo não passa de uma construção social, então será possível modificar, justamente através da ideologia de gênero, os papéis de homens e mulheres até chegarmos a uma igualdade tão completa que não haveria mais espaço para os papéis de marido e esposa e mesmo da instituição que hoje conhecemos como família. Com a família totalmente extinta, todos estaremos livres para fazermos sexo do modo que quisermos, inclusive com as crianças e nossos próprios filhos, e as crianças, sem família e pais para as educarem, teriam o Estado como única instituição para educá-las. Nesta sociedade socialista ideal, sem a "OPRESSÃO" do sexo masculino e feminino, as crianças serão educadas para serem bissexuais, a masculinidade e a feminilidade não serão mais naturais, e os próprios conceitos de heterossexualidade e homossexualidade deixarão de fazer sentido. A longo ou curto prazo, agora esta é a meta do novo PLC 122.
De fato, o novo substitutivo do PLC 122 remove as antigas e assustadoras punições que havia nas versões anteriores. Mas com o reforço da teoria da "ORIENTAÇÃO SEXUAL" e "GÊNERO", enquanto o publico festeja a remoção das suas punições draconianas, tanto o senador Paulo Paim quanto seu partido, o PT, podem também celebrar e dizer: "QUEM RI POR ÚLTIMO RI MELHOR".
O senador petista espera desta vez fazer o que nem Fátima Cleide nem marta Suplicy conseguiram: levar o público opositor a apoiar o projeto petista que tem amplo apoio da ABGLT, Luiz Mott e poderosos grupos homossexuais.
Para aprovar o novo PLC 122, Paim segue uma estratégia aparentemente mais maliciosa do que Marta Suplicy, que tentou enganar o público cristão, conforme pode ser visto neste vídeo:
Em janeiro deste ano, Paim havia prometido aprovar o PLC 122 em 2013. Ele disse: "2013 VAI SER O ANO DA APROVAÇÃO DO PLC 122".
Conforme o site homossexual A Capa, a empolgação de Paim foi estimulada pelo exemplo do presidente americano Barack Obama. Na época, o militante do PT havia louvado Obama por se declarar a favor da agenda gay em seu discurso de posse presidencial. Disse Paim:
"PRESIDENTE DE NENHUM PAÍS DO MUNDO JAMAIS ASSUMIU UMA POSTURA TÃO OUSADA, DE ENFRENTAMENTO AOS CONSERVADORES, EM SEU DISCURSO DE POSSE".
Em 2012, Obama já vinha sendo aplaudido pela esquerda mundial por seu apoio ao "CASAMENTO" gay.
"ISSO É INCRIVELMENTE IMPORTANTE, É EXCELENTE NOTÍCIA. OS ESTADOS UNIDOS LIDERAM GLOBALMENTE EM TUDO, E ISSO INCLUI DIREITOS GAYS", disse Julio Moreira, presidente do grupo supremacista gay Arco Íris, com sede no Rio de Janeiro, conforme a Associated Press. "ISSO FORÇARÁ OUTRAS NAÇÕES COMO O BRASIL A AVANÇAREM COM POLÍTICAS MAIS PROGRESSISTAS".
Durante anos de tramitação, o PLC 122 passou por várias mudanças que tentavam lhe dar uma aparência favorável à
aprovação. A letra mudava, mas o espírito não. O momento decisivo para o despertamento da população cristã com relação às ameaças do PLC 122 ocorreu no começo de 2007. Depois de sua aprovação praticamente tranquila na Câmara dos Deputados no final de 2006, parecia que sua tramitação e aprovação no Senado seguiriam tranquilas também. Mas então um grupo de católicos, movidos pela defesa da família, fez contato comigo pedindo permissão para espalhar para todo o Brasil uma mensagem de alerta escrita por mim contra o PLC 122. Depois que a mensagem foi enviada aos brasileiros, o projeto do PT para criminalizar opiniões contrárias às práticas homossexuais nunca mais teve sossego. A mensagem moveu milhares de brasileiros a se manifestarem. As manifestações tiveram resultado além do esperado. Em 2011, a revista Veja disse:
"O SENADO FEDERAL RECEBEU MAIS DE 245.000 MENSAGENS POR TELEFONE OU INTERNET EM MAIO DESTE ANO SOBRE O PROJETO DE LEI COMPLEMENTAR 122, QUE CRIMINALIZA A HOMOFOBIA. O TEMA REPRESENTA 90% DAS MANIFESTAÇÕES DA POPULAÇÃO SOBRE DIVERSOS ASSUNTOS ENCAMINHADOS À [CÂMARA DOS DEPUTADOS]."
Na mesma notícia, Veja deixou claro: "QUASE TODAS AS MENSAGENS SÃO CONTRA O PLC 122."
A mobilização de 2007 foi o gatilho para a grande resistência católica e evangélica hoje contra o PLC 122. Por isso, não podemos desanimar. Um pequeno esforço hoje pode provocar grandes mudanças no futuro. Esse esforço pode ser um telefonema ou envio de e-mail ao senador, e outros senadores. A grande resistência que começou em 2007 precisa de seus pequenos esforços para continuar detendo o avanço do PLC 122.
Há ainda um outro problema gravíssimo na tramitação do PLC 122, conforme explicação do Dr. Zenóbio Fonseca:
Este projeto originou-se na Câmara, e agora está sendo votado no Senado, supostamente "SUAVIZADO" pelo Senador Paulo Paim, para poder ser aprovado diante de toda a oposição que se originou. Se o projeto for aprovado nesta versão supostamente mais suave, ele deverá voltar para a Câmara, onde poderão ser vetadas todas as mudanças feitas pelo Senado. Pelos regimentos internos do Congresso, a Câmara não poderá mais modificar o projeto, mas poderá vetar todas as modificações introduzidas pelo Senado.
Ou seja: a suposta "SUAVIDADE" do substitutivo poderia não passar de um simples engodo para ser aprovado no Senado e, assim, voltar para a Câmara. Na Câmara o atual substitutivo seria derrubado, sendo aprovado o "PROJETO ORIGINÁRIO", muito pior, que seria remetido diretamente para a sanção presidencial.
Por este motivo, a única alternativa aceitável para o PLC 122, ruim desde o seu nascedouro, é a sua TOTAL REJEIÇÃO PELAS COMISSÕES PERMANENTES DO SENADO, o que causaria O ARQUIVAMENTO DO PROJETO.
Julio Severowww.juliosevero.com

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O Sacramento da Confissão

Porque devemos nos confessar.
Deus, no seu amor paternal, deseja que todos os pecadores voltem para junto dele. Ele quer que nos afastemos dos nossos pecados, que nos convertamos a ele, nosso supremo Senhor e fim eterno. Jesus Cristo nos diz no Evangelho: “Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está perto.” (Mat. IV,17).

Mas para nos ajudar a fazer a penitência, Deus nos dá uma virtude especial para que tenhamos forças para nos arrependermos de nossos pecados. Essa força especial é a Virtude de Penitência.

Pela virtude de Penitência, que Deus coloca no nosso coração, Ele nos leva a reconhecer toda Sua bondade, toda Sua santidade e como nós O ofendemos e O deixamos triste quando cometemos nossos pecados. Só mesmo conhecendo a Santidade, a Justiça e o Amor de Deus é que podemos reconhecer como nossos pecados ofendem a Deus.

Deus quer que tenhamos grande arrependimento por nossos pecados.

O que quer dizer “se arrepender”? 

Arrepender-se quer dizer não querer de maneira nenhuma continuar com a alma manchada pelo pecado, sentir uma dor profunda por ter traído a bondade de Deus, ter ofendido e entristecido a Deus, que nos ama tanto.

Na nossa família nós temos um bom exemplo do que é o arrependimento, quando deixamos nossos pais tristes e ofendidos. Logo vem aquela dor, aquela vergonha e, ao mesmo tempo, a certeza de que eles vão nos perdoar, se pedirmos desculpas, porque sabemos que eles nos amam muito. Com Deus também acontece assim. Com essa diferença: o arrependimento dos nossos pecados nos abre novamente as portas do Paraíso, nos devolve a amizade com nosso Deus, que morreu na Cruz para nos salvar.

Mas se não tivermos o arrependimento, será que Deus nos perdoará dos nossos pecados? É fácil perceber que sem um sincero arrependimento, Deus não pode nos perdoar.

Há vários tipos de arrependimento pelo pecado:

- Arrependimento humano: estamos arrependidos porque temos medo do castigo que receberemos de nossos pais. Esse arrependimento humano nada adianta para o perdão dos pecados.

- Arrependimento imperfeito: chama-se também contrição imperfeita ou atrição – estamos arrependidos porque temos medo do castigo de Deus.

- Arrependimento perfeito: chama-se também contrição perfeita – estamos arrependidos não mais por causa do castigo dos pais ou de Deus, mas porque ofendemos a Deus, traímos o amor de Deus, nosso Pai tão bom e amoroso, nosso Redentor e Salvador. Esta dor é chamada perfeita porque vem do amor que sentimos por Deus. É essa contrição perfeita que nós manifestamos quando rezamos o Ato de Contrição. Devemos saber de cor o Ato de Contrição para rezá-lo no confessionário e também em todos os momentos de tentação e perigo de nossa vida.

“Meu Deus, eu tenho muita pena de ter pecado, pois ofendi a Vós, meu sumo Bem, e mereci os castigos de Vossa justiça. Perdoai-me, Senhor, não quero mais pecar”.

Existe um Ato de Contrição mais bonito e mais completo:

«Senhor meu Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro, criador e redentor meu, por serdes Vós quem sois, sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas, e porque Vos amo e estimo, pesa-me Senhor, de todo o meu coração de Vos ter ofendido; pesa-me também de ter perdido o céu e merecido o inferno; e proponho firmemente, ajudado com o auxílio da Vossa divina graça, emendar-me e nunca mais Vos tornar a ofender. Espero alcançar o perdão das minhas culpas pela Vossa infinita misericórdia. Amém.»

Porém, só o arrependimento não basta! É preciso que ele seja acompanhado pelo bom propósito.

O que é o propósito?

É a vontade firme e sincera de não mais cometer aquele pecado.

Se tivermos a contrição perfeita e o firme propósito de não mais pecar, devemos esperar com toda confiança o perdão de Deus. Ele é infinitamente misericordioso, chegando até a enviar seu Filho, o Verbo Encarnado, Jesus Cristo, para morrer pagando nossos pecados. 

Essa virtude de Penitência não serve apenas para que nasça em nosso coração o arrependimento e a dor por ter pecado. Ela nos ajuda ainda a realizar certos atos exteriores, as obras de penitência, que servem para diminuir a pena do Purgatório, que teremos de pagar antes de irmos para o Céu; serve para dominar nossas más inclinações, nossos defeitos dominantes; e, também, para nos fortificar no bem. 

São obras de penitência: rezar, jejuar, dar esmolas, suportar com paciência os sofrimentos e contrariedades, aceitar os incômodos da vida. A melhor obra de penitência é receber o Sacramento da Penitência, que é a Confissão. 


 A Tentação, o Pecado e o Sacramento da Confissão

Deus quer que a nossa vida aqui na Terra seja um tempo de provação, para podermos alcançar a glória do Paraíso, não somente como um presente mas também como prêmio pela vitória. Por isso Ele permite que sejamos tentados e mesmo que, por nossa fraqueza, façamos pecados, pondo assim em risco a nossa Salvação Eterna.

A Tentação

Quando Jesus foi tentado no deserto, levou-o o demônio a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória e disse-lhe: “— Tudo isso lhe darei se, prostrado em terra, me adorares. Respondeu-lhe Jesus: Afasta-te Satanás! Pois está escrito: adorarás ao Senhor teu Deus e só a Ele servirás. Então o demônio o deixou e eis que vieram os anjos e O serviram.” (S. Mateus, IV, 8-11).

Enquanto vivermos na Terra estaremos sujeitos à tentação. O demônio emprega toda sua astúcia e maldade para fazer com que pequemos e nos condenemos para sempre.

Deus permite a tentação. Ele quer nossa vitória, mas ao mesmo tempo Ele quer que nós saibamos reconhecer nossa fraqueza ficando humildes: a luta deve também nos fortificar para que nossa recompensa seja, um dia, ainda maior.

Deus nos ajuda na tentação. Ele é fiel: se Ele permite que sejamos tentados, Ele também nos dá as graças para vencer a tentação. Deus está sempre do nosso lado.

Como fazer quando somos tentados?

Devemos resistir imediatamente à tentação e invocar o auxílio de Deus. Às vezes bastará uma oração jaculatória ou o Sinal da Cruz. Muitas vezes o melhor é não fazer caso da tentação, ocupar-se com alguma outra coisa e acabar esquecendo o pecado. Devemos evitar as más companhias que podem nos conduzir à ocasiões de pecado.

Sentir uma tentação é pecar?

Não. Só haverá pecado se nós consentirmos na tentação, ou seja, se nós aceitarmos o pecado que a tentação propõe. Mas já é pecado se nos expormos à tentação ou não a combatermos com fervor.

Para a minha vida: Na tentação direi: Nunca, Jamais! e rezarei: Senhor, ajudai-me!

A tristeza e o abatimento são os maiores aliados da fraqueza e do mal. Por isso sejam sempre alegres.

Os Santos nos ensinam:

“Quem não é tentado não é provado: quem não é provado não progride” (Sto. Agostinho).

“Quanto mais se luta, mais se demonstra o amor a Deus” (Sta. Tereza D’Ávila).

“Se nos deixarmos levar pela mão de Deus, venceremos o demônio: se combatermos sozinhos, seremos vencidos” (Sto. Agostinho).

 O Pecado

Muitas vezes não damos ouvidos aos conselhos de Deus, mas consentimos na tentação. Pecamos contra Deus, Sua vontade e Sua ordem. Desobedecemos à Lei de Deus com consciência, querendo fazer o pecado.

O pecado pode ser mortal ou venial. 

O Pecado Mortal

O pecado mortal é um pecado sobre matéria grave, onde desobedecemos os mandamentos de Deus ou da Igreja. Para ser mortal, deve haver matéria grave e vontade firme de pecar.

O que quer dizer matéria grave? Vamos dar um exemplo. Todos sabem que roubar é pecado. Se você rouba uma bala de um amigo da escola, a matéria do pecado é leve, é muito pouca coisa. Se você rouba um saco de balas ou a carteira de dinheiro, a matéria do pecado é grave.

O que quer dizer vontade firme? Dizemos também: ter pleno consentimento do pecado. Ou seja, você sabe perfeitamente que aquilo é pecado, você poderia recusar, mas você faz assim mesmo. Todas as vezes que fazemos algo contra os dez mandamentos da Lei de Deus e contra os cinco mandamentos da Igreja, em que há matéria grave e pleno consentimento, cometemos pecado mortal.

O pecado mortal é uma grave injúria que se faz a Deus. Com o pecado mortal o homem se rebela contra seu Criador e Senhor. Deste modo, ofende a Deus, Santidade infinita, e retribui com a mais vergonhosa ingratidão ao amor de seu bondoso Pai e de seu Redentor crucificado.

O pecado mortal é, ao mesmo tempo, uma terrível desgraça para o homem: rouba-lhe a vida da graça e a amizade de Deus: ele perde todos os méritos que já tinha ganho; passa a merecer a condenação eterna do inferno e os castigos temporais. Enquanto o pecador não se arrepender, estará morto para o Céu.

“É impossível que venha a cometer um pecado mortal o homem que reza com verdadeiro fervor e continuamente invoca a Deus“ (S. João Crisóstomo).

O Pecado Venial

É o pecado que não nos afasta inteiramente de Deus, mostra certa negligência do nosso amor e serviço de Deus, mas não chega a ser uma grave traição. Esses pecados podem ser perdoados sem a Confissão, bastando rezar um Ato de Contrição, pedir sinceramente perdão a Deus e não querer fazer mais aquilo. Deus perdoa assim o pecado venial. Eles não acarretam a morte eterna e o inferno, mas não deixa de ferir nossas almas e aumentar o tempo do Purgatório.

Comete-se pecado venial quando se peca em matéria menos grave, como por exemplo o que vimos do roubo de bala. Podemos cometer pecado venial também por falta de vontade firme de não pecar.

Por isso, a grande importância da Confissão freqüente. Mesmo que estejamos arrependidos de ter feito algo que consideramos errado, o melhor que temos a fazer é nos confessarmos. Na Confissão, o Padre poderá esclarecer todas as nossas dúvidas, e certamente ficaremos mais tranqüilos e felizes por recebermos a Santa Comunhão e vivermos em constante estado de graça.

Mas não é porque o pecado venial seja leve que podemos viver pecando assim. Todo pecado, mesmo venial, é uma ingratidão para com nosso Pai Celeste. Devemos nos esforçar para evitar também os pecados veniais. Além disso eles nos prejudicam, principalmente quando os cometemos deliberadamente. Perdemos por causa deles muitas graças e diminui em nós o amor de Deus e o gosto pelo Bem. E, depois, com a alma enfraquecida com muitos pecados veniais, logo virão pecados mortais. Como todo pecado, o pecado venial nos traz penas temporais que teremos de pagar ou com nossos sofrimentos aqui na Terra ou com muito sofrimento no Purgatório.

Para minha vida: Quando, na tentação, me vier um pensamento assim: ... afinal, isso não passa de um pecado venial, responderei a mim mesmo: o Divino Salvador na Cruz teve de sofrer também pelos pecados veniais.

O Sacramento da Confissão

1) A Instituição do Sacramento da Penitência

Na tarde do dia da Ressurreição, apareceu Jesus aos Apóstolos e lhes disse: “A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, assim envio-vos eu. Depois destas palavras soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo. A quem perdoares os pecados, lhes serão perdoados, e a quem os retiverdes, lhes serão retidos” (Evangelho de São João, Cap. XX, 19-23).

Jesus Cristo, no seu amor, vem em auxílio do pecador por meio de um Sacramento especial. Durante sua vida terrena, perdoou aos pecadores arrependidos, e na Cruz expiou a culpa de toda a humanidade. No dia da sua Ressurreição, deu aos Apóstolos e aos seus sucessores no sacerdócio, o poder de perdoar os pecados em seu nome. Instituiu assim o Sacramento da Confissão ou Penitência e o confiou à sua Igreja.

 2) Quando devemos nos Confessar

Devem receber o Sacramento da Penitência todos aqueles que cometeram algum pecado mortal depois do Batismo. Não há obrigação de confessar os pecados veniais, pois estes podem ser perdoados também de outros modos, como fazendo um Ato de Contrição perfeito, rezando devotamente um Confiteor, fazendo uma boa ação por amor a Deus. Mas é muito útil confessarmos também deles, pois na Confissão Jesus Cristo vem em nosso auxílio por meio de abundantes graças próprias deste Sacramento, por exemplo, forças especiais para não pecar novamente. É, pois, muito útil confessar regularmente, mesmo os pecados veniais.

Além de confessar os pecados mortais e os pecados veniais, a Confissão também serve para expor uma dúvida que esteja nos afligindo, para pedir um conselho ao Padre, para pedir uma explicação. Essas coisas podem ser ditas em outra hora, mas o confessionário ajuda a conversar sobre a vida espiritual e moral.

3) A Forma e a Matéria da Confissão

Jesus Cristo ordenou que no Sacramento da Confissão, os pecados fossem perdoados ou retidos, ou seja, não perdoados ou deixados para uma próxima Confissão. Cabe ao Padre julgar, como juiz que ele é, se há verdadeiro arrependimento. Como o Padre não pode adivinhar os nossos pecados, nós devemos confessá-los, ou seja, declará-los, dizê-los claramente, sem esconder nenhum deles. Os nossos pecados assim ditos diante do Padre constitui a matéria do Sacramento da Confissão.

Depois que confessamos, arrependidos, os nossos pecados, o Padre nos absolve com as palavras da forma do Sacramento: Eu te absolvo dos teus pecados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Vemos assim que é preciso três coisas principais neste Sacramento: a matéria (os pecados confessados), a forma (absolvição pelo Padre) e o arrependimento.

4) Os efeitos da Confissão

Quando o Sacerdote nos absolve, Jesus Cristo, nosso Redentor, nos perdoa todos nos nossos pecados. Nós, que estávamos afastados de Deus pelo pecado, somos reconciliados com o Pai Celeste, pelo perdão do pecado e da pena eterna. A Confissão nos restitui, nos devolve a graça santificante, a amizade de Deus, bem como os méritos que perdemos por causa do pecado. A Confissão nos traz muitas forças para não mais pecar.

A pena eterna nos é perdoada.

O que isso quer dizer?

Quando cometemos um pecado mortal, ficamos sujeitos a dois tipos de castigo:

- a pena eterna, que é a condenação ao inferno, onde nunca se vê a Deus e onde se sente ódio de Deus, de si mesmo e de todos;

- a pena temporal, que é o sofrimento do fogo que queima as almas do inferno.

Quando nos arrependemos do pecado e recebemos a absolvição, somos imediatamente perdoados da pena eterna, ou seja, não vamos mais para o inferno. Mas continuamos sujeitos à pena temporal, ao fogo. Para pagar esta pena temporal e poder entrar no Céu perfeitamente puras, as almas passam pelo Purgatório. Lá elas sofrem muito, sofrem também no fogo, mas este sofrimento tem a consolação de se saber que em breve estarão no Céu, na Felicidade Eterna, vendo a Deus face a face e podendo amá-lo e adorá-lo eternamente. Mas as almas do Purgatório sofrem muito. Por isso devemos rezar muito por elas, pedindo a Deus, à Nossa Senhora, à São Miguel Arcanjo, que levem estas almas sofredoras para o Céu.

Mas Deus nos ajuda também para diminuir o tempo que devemos passar no Purgatório. Como?

Ele permite que nós tenhamos muitos sofrimentos aqui na Terra. Quando somos católicos e conhecemos todas estas coisas que estamos estudando, aprendemos a oferecer estes sofrimentos a Jesus, em vez de ficarmos reclamando e praguejando contra Deus.

Nossas orações também servem para diminuir nossa pena temporal. Por isso, na Confissão, o Padre nos dá a penitência. Esta oração, ou a obra que o Padre nos manda fazer (jejum, esmola, sacrifício) serve para diminuir nossa pena temporal. Por isso, em vez de desejarmos penitências pequenas e rápidas, devemos nos alegrar quando o Padre nos pede algo que devemos fazer com algum esforço, pois estaremos diminuindo mais a nossa pena temporal.

5) Como devemos nos Confessar

Exame de consciência. Devemos rezar ao Divino Espírito Santo para que Ele nos ilumine sobre nossos próprios pecados. Refletimos, procuramos nos lembrar de todos os pecados que cometemos desde a última Confissão. Podemos ter ofendido a Deus por pensamentos, por atos pecaminosos, por omissões no nosso dever.

Devemos nos lembrar do pecado, mas também do número de vezes que o cometemos e de alguma coisa que possa ter agravado ou diminuído a gravidade do pecado. Tudo isso devemos dizer ao Padre.

Quando já sabemos mais ou menos o que vamos dizer ao Padre, nos aproximamos do confessionário com respeito e recolhimento. Muitas crianças não entendem bem que a Confissão é uma cerimônia religiosa, um rito, e não uma conversa com o Padre. Estamos ali diante de Deus.

Pedimos a benção ao Padre, dizemos quando foi nossa última Confissão, e dizemos todos os pecados, uma após o outro, com o número e algum detalhe importante, sem alongar muito os detalhes que nos levaram a cometer o pecado. Se for necessário algum detalhe a mais, o Padre perguntará. Não podemos esconder nenhum pecado grave, pois isso tornaria a Confissão inválida e estaríamos abusando da bondade de Deus. Muitas pessoas, por vergonha, escondem algum pecado. O Padre, que não pode adivinhar, dá a absolvição, mas Deus não perdoa uma alma mentirosa. Depois aquela pessoa vai para a Missa e ainda comunga, cometendo o pecado de sacrilégio. Tenhamos sempre sinceridade nas nossas confissões.

Quando terminamos de confessar, ouvimos os conselhos do Padre. Sempre aprendemos alguma coisa boa para nossa alma nesta hora. Prestemos muita atenção! E procuremos agir segundo estes conselhos, principalmente quando se trata de reparar algum mal causado aos outros, como pedir desculpas a alguém, devolver algo roubado, etc. O Padre, nesta hora, nos dará a penitência, que rezaremos assim que possível, de preferência logo após a Confissão, em união à Paixão de Nosso Senhor. Depois, ele nos manda rezar o Ato de Contrição. Enquanto rezamos, ele nos dá a absolvição, que termina com esta bela oração:

«Que a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, os méritos da bem-aventurada Virgem Maria e de todos os Santos, e tudo o que tiverdes feito de bom e suportado de mal, vos seja aplicado para a remissão dos pecados, aumento das graças e para a recompensa da vida eterna. Amém.»

Que Deus não permita que nos afastemos algum dia da prática da Confissão regular, meio seguro de alcançar a salvação eterna!

Retirado de:
http://www.capela.org.br/Catecismo/confissao.htm

domingo, 10 de novembro de 2013

Mais sobre a Inquisição.

Amigos e irmãos em Cristo que acompanham as postagens do "Fiel Católico": há um assunto que não quer calar e do qual sinto que preciso tratar neste exato momento. Sou visceral, e sinto o sangue ferver em minhas veias quando vejo determinadas injustiças e absurdas calúnias que se propagam contra a Igreja Católica, minha mãe e mestra.

Quem acompanhou a série de postagens que narra a minha experiência pessoal de retorno à Igreja Católica (
leia aqui) sabe que minha conversão não foi puramente emocional e/ou afobada, movida por um impulso irracional. Ao contrário, foi pensada, sentida, refletida e confirmada de muitas maneiras. Antes de ser um fiel católico, fui por muitos anos um protestante apaixonado, bastante radical em minhas opiniões, e frequentei também diversas seitas pentecostais e neopentecostais. Por isso, sei muito bem o que pensam da fé católica, do espantalho que os "pastores" constroem para chamar de Igreja Católica, para malhar impiedosamente com os paus e pedras da mentira.

Pela minha experiência de vida, por tudo que vi e que vejo (em amigos, colegas de estudo e do trabalho, na minha própria família, etc.), posso garantir que 99% daqueles que, dentro dessas "igrejas" dão os seus testemunhos dizendo que eram católicos e agora "encontraram Jesus" em alguma denominação dita "evangélica", estão na verdade prestando falsos testemunhos, - ainda que muitas vezes sejam bem intencionados, e o façam por pura ignorância, - porque nunca foram católicos realmente; nunca aprenderam o que é catolicismo, pois tiveram uma péssima catequese, por um lado, e por outro lado nunca tiveram interesse em aprender um pouco mais sobre a sua fé.

Disse tudo isso para esclarecer o que vou dizer agora: eu não tenho medo de tratar de nenhum, absolutamente nenhum assunto, com "protestante"/evangélico algum, porque através do meu longo processo de conversão me foi dado compreender que todas as acusações contra a primeira e única Igreja de Cristo são vazias, estéreis, nulas... E muitas vezes (talvez na maioria delas) simplesmente maldosas: maledicência e calúnia em suas expressões mais baixas.

O título deste post seria o seguinte: "Protestantes/'evangélicos' atacando a Igreja Católica por conta da inquisição?! Que piada de mau gosto é essa?", mas mudei de ideia, porque neste artigo não pretendo tratar apenas deste lado da questão (as estapafúrdias acusações protestantes/'evangélicas'), e sim do tema como um todo. Então vamos lá... 

Realmente, alguns fatos nos deixam em dúvida, entre rir ou chorar. Rir porque é comum que uma situação ridícula provoque risos nos seres humanos, ainda que involuntariamente. E quando o ridículo é extremo, - como no caso de que vou tratar aqui, - pode levar às gargalhadas, e foi o que aconteceu comigo, ao menos num primeiro momento. Mas logo depois veio a indignação, a sensação de estar sendo injustamente ofendido, caluniado, injuriado, acusado falsamente, - e as e falsas acusações partem justamente de quem não tem nenhuma moral para fazê-las.

Estou me referindo à postagem do blog do Julio Severo, que por um tempo não só eu como muitos católicos chegaram a considerar uma pessoa digna de algum respeito de nossa parte. Julio Severo, protestante, é um articulista razoavelmente talentoso e militante pró-vida. Foi injustamente perseguido por grupos de ativistas comunistas e gayzistas e tornou-se relativamente conhecido por escrever contra o pentecostalismo, a mentalidade socialista que tomou conta do Brasil e da América Latina, a decadência moral da sociedade atual e outros temas como estes, ordinariamente a partir de um ponto de vista coerente e compatível com os autênticos valores cristãos. Por conta disso, muitas páginas católicas já republicaram os seus artigos, e o rapaz contou sempre com a boa vontade de boa parte do público católico... até ontem.

O "ontem" em questão é o dia 10 de outubro (2013), data em que o referido cidadão publicou o infeliz artigo cujo título é: "A inquisição, o papa e o suspiro de alguns católicos 'conservadores'”. Logo de cara, no subtítulo, o autor escancara o tipo de preconceito e calúnia que defenderá: "Como querem combater a cultura da morte do socialismo, homossexualismo e feminismo quando se sentem à vontade com a cultura da tortura e morte da Inquisição?". Nos comentários, como não podeira deixar de ser, a velha coleção de bobagens e tolas ofensas de sempre, coisas realmente bem idiotas, do tipo: "a Igreja Católica é a Babilônia do Apocalipse"... Curioso é que muitos comentários desse tipo foram aprovados, mas os meus, respeitosos e puramente elucidativos, convidando ao diálogo e apresentando inclusive fontes bibliográficas para o esclarecimento do tema, não.

Bem, não preciso dizer da tremenda decepção que tive com esse rapaz... O post em questão é uma lamentável demonstração de ignorância, insensatez e da mais pura má vontade. Num comentário, perguntei aos leitores daquele blog, todos afoitos e cheios de pedras na mão para atirar contra a primeira Igreja de Jesus Cristo, que livro teriam lido sobre o assunto Inquisição. Perguntei se não tinham aprendido nada sobre História das Mentalidades Coletivas, ramo historiográfico que estuda e demonstra o óbvio: que o pensamento medieval era completamente diferente do nosso, e que não podemos julgar fatos ocorridos há muitos séculos usando os padrões de moral de hoje. Foi em vão. Não obtive nenhuma resposta minimamente coerente ou que demonstrasse qualquer sinal de preocupação para com a verdade dos fatos; apenas uma nova chuva de pedras.

Tentei explicar que, se condenarmos a Igreja Católica pelos atos de seus filhos em eras passadas, então seria preciso que rasgássemos também as nossas Bíblias, pois as narrativas do Antigo Testamento estão repletas de matanças e violência extrema, muito piores que as atribuídas à inquisição, até contra crianças e até mesmo contra recém-nascidos considerados inimigos! O Povo de Israel, nas descrições veterotestamentárias (do Antigo Testamento - AT), não tratava os povos seus adversários com a mesma noção de "direitos humanos" que temos hoje. Não... O livro de Números, por exemplo, conta como Moisés atacou os midianitas, mandando matar a todos sem piedade e incendiar as suas cidades. Conta ainda como os soldados israelitas, penalizados, pouparam mulheres e crianças, o que irritou Moisés, que então ordenou assassinar também a todos os meninos e a todas as mulheres que não fossem virgens, com uma exceção: “Todas as meninas que não conheceram algum homem, deitando-se com ele, deixai-as viver e tomai-as para vós" (Nm 31,18).

Haveremos de convir que, para os padrões de moral de hoje, esta é a descrição de um genocídio bárbaro, cometido contra os pobres midianitas em suas próprias terras, sem provocação alguma, com a matança de pobres mulheres e crianças e abuso de jovens virgens inocentes, e tudo em nome de Deus. Convenhamos também que a Inquisição não praticou nada nem de longe parecido com isso, e por mais que tenham ocorrido abusos de autoridade, todas os atos que hoje consideramos inadmissíveis da parte dos inquisidores só aconteceram em decorrência do seu excesso de zelo. Sim! Num tempo em que a ofensa a um nobre era punida com tortura e morte, como punir a ofensa a Deus? Era este o pensamento comum.

Assim como nós, cristãos, não deixamos de crer na Bíblia por causa das suas passagens violentas e de difícil compreensão, porque sabemos (ao menos assim se espera de um cristão) entendê-las dentro do seu contexto cultural e histórico, temos que saber usar do mesmo (mínimo) bom senso para falar das ações da Igreja em épocas distantes e completamente diferentes da nossa. Da mesma maneira como é preciso entender o contexto da Antiguidade para ler os textos do AT, é preciso entender o contexto e a mentalidade do período medieval para compreender a Inquisição. Simples, quando se tem boa vontade.

Inquisição: origem e finalidades

Quanto aos fatores que motivaram o surgimento da Inquisição, já tratamos do assunto em detalhes
neste estudo, mas vou reiterar aqui, rapidamente, que o Tribunal do Santo Ofício foi estabelecido para combater a heresia cátara, uma seita cuja doutrina contrariava todos os princípios evangélicos que a Igreja defendeu desde sempre. Foi uma das maiores ameças à fé cristã de todos os tempos: os cátaros eram contra a procriação e o Matrimônio, consideravam desgraçadas as grávidas, defendiam o suicídio por inanição, pregavam a renúncia radical aos prazeres e negavam o culto religioso. Viam o corpo como coisa ruim (uma manifestação do mal), e negavam a salvação por Jesus Cristo1. Os cátaros ensinavam ainda que o mundo material tinha sido criado por um deus mal, e que o homem não devia se reproduzir. Segundo autores, chegavam a sacrificar mulheres grávidas com punhaladas no ventre. Para o catarismo, dois princípios eternos dividiam o Universo: um bom, criador do mundo dos espíritos, e um mau, criador do mundo terreno2. Como todas as heresias, o catarismo afirmava que a sua doutrina era o “verdadeiro cristianismo”, usando alguns termos e conceitos cristãos, mas distorcendo seus significados e renegando os dogmas da fé cristã. Viam Cristo como um “anjo caído” e negavam a Ressurreição do Senhor, rejeitando todos os Sacramentos. O aborto e o suicídio eram alguns dos seus princípios básicos2.

O catarismo se expandiu muito: dominaram o Languedoc e a Provença, influenciaram o nordeste da Espanha, a Lombardia, a Itália, a atual Yugoslávia e os Bálcãs. Chegaram a ameaçar a existência da Igreja na Europa. Combatidos pelo Estado, os cátaros se ocultaram, mas continuaram difundindo suas ideias e práticas3.

Foi dentro desse contexto extremo que a Inquisição surgiu; para garantir a sobrevivência da Igreja na luta contra essa e outras heresias. Como disse acima, não só eu, enquanto fiel católico e teólogo, como também e principalmente o Magistério da Igreja reconhece que ocorreram abusos nesse conturbado período histórico, tanto que Joana D'Arc foi condenada pelo Tribunal da Inquisição (1431), e anos depois canonizada santa (1920).

Não é novidade para ninguém que a Igreja, mesmo sendo a Esposa de Cristo santa e imaculada, mãe e mestra, Casa de Deus, coluna e sustentáculo da Verdade, Corpo Místico de Cristo, agregou e agrega pecadores em seu seio, e isso foi sempre assim, desde os tempos em que o Senhor ainda caminhava sobre a Terra. - Integrando um grupo seleto de apenas doze homens estava Judas Iscariotes, e até o primeiro Papa negou Jesus não uma, mas três vezes. Não devemos nos escandalizar com os erros e pecados dos filhos da Igreja nesses dois mil anos de história.
 
Alguns fatos puramente históricos sobre a Inquisição (que raramente são mencionados)

* A Inquisição foi a primeira instituição jurídica do mundo a declarar que as confissões sob tortura não seriam válidas para a condenação de alguém, algo que naquele tempo foi um tremendo avanço na formação dos direitos humanos3.

** A Inquisição exigiu que a tortura fosse limitada, e que deveria ser usada apenas para a obtenção de informações, e não como instrumento de punição. Que não poderia violar a integridade física da pessoa; que deveria ser limitada a no máximo meia hora, que deveria ser assistida por um médico e que jamais poderia se repetir3.

*** O recurso da tortura, do qual se usava e abusava indiscriminadamente nos tribunais laicos, não era constante na Inquisição, que recorreu muito raramente a esse procedimento: bem diferente do que se vê nos filmes, ao todo, menos de 10% dos processos inquisitoriais usaram tal método4.

**** A Inquisição impôs uma regra que proibia aos eclesiásticos derramar qualquer gota de sangue dos réus, e confissões obtidas sob tortura perdiam a validade. Fato histórico: o tribunal religioso condenou pouco4.

***** Sobre a Inquisição espanhola, a mais comentada e polêmica, é preciso saber que ela foi principalmente uma instituição civil, não controlada pela Igreja, e que a própria Igreja censurou e tomou medidas contra ela5. Também é fundamental saber que quase tudo o que se divulgou a respeito da Inquisição espanhola é fruto das calúnias difundidas pelo ex-padre Juan Antonio Llorente, um apóstata que produziu documentos sobre a Inquisição na Espanha com o interesse de ajudar a França de Napoleão a dominar aquele país. Llorente queimou todos os documentos que usou, para que não se descobrissem falsificações5.

****** Fato: as ações repressoras da Inquisição foram bem menos implacáveis que as civis. Por quê, então, se mantém uma imagem tão terrível do Santo Ofício? Por vários motivos, mas foi sobretudo o fanatismo do inquisidor espanhol Tomás de Torquemada (século XV), que ficou gravado na memória popular. Daí veio o protestantismo, no século XVI, o antipapismo anglicano, o iluminismo e o anticlericalismo dos séculos XIX e XX... Um conjunto de eventos e adversários da Igreja que pintaram um quadro pavoroso da Inquisição, que, mesmo sendo falso, ainda repousa na mentalidade do nosso tempo.

Notemos como a verdade histórica é diferente daquela que vemos nos filmes de Hollywood (EUA = protestantismo + sensacionalismo). A verdade costuma surpreender os leigos, acostumados a ouvir grandes e absurdos exageros, perpetrados muitas vezes por professores barbudos e de camisetinhas vermelhas em salas de aula. O fato é que a Inquisição também tinha por finalidade controlar os excessos de violência cometidos pelo Estado, a ponto de que muitos presos, julgados pelos tribunais civis, passavam a blasfemar contra Deus e contra a Igreja, na esperança de serem transferidos para os tribunais da Inquisição3. - Evidentemente, se os tribunais eclesiásticos fossem assim tão terríveis e injustos como pintam os inimigos da Igreja, qualquer coisa seria preferível a eles...

Abundam provas de que os métodos aplicados pela Inquisição eram mais humanos que os da autoridade civil da época: um notário transcrevia o processo, os acusados não ficavam presos durante o inquérito, podiam recusar um juiz e apelar para Roma contra alguma decisão do tribunal.4


Encerrando o assunto

No começo eu disse que o post do blog do Julio Severo era uma piada de mau gosto, que era extremamente ridículo, - tanto que à primeira vista me levou às gargalhadas, - além de representar uma lamentável demonstração de ignorância, insensatez e pura má vontade. Por quê? Bem, creio que tudo o que eu demonstrei até aqui tenha ajudado a lançar um pouco de luz sobre o assunto Inquisição, que teimosamente volta sempre à baila, mais cedo ou mais tarde, toda vez que se fala em catolicismo. Isso acontece porque essa foi uma das propagandas anticatólicas mais benfeitas de toda a História, até hoje. Ninguém sabe e (pior) ninguém parece querer saber de todos os fatos históricos que listei acima.

Mais importante do que tudo o que expus até agora, porém, dentro dessa discussão, é observar que esses ataques à Igreja Católica, quando partem de protestantes/'evangélicos" são antes de tudo puramente ridículos. Será possível que o Julio Severo, que se apresenta como pessoa esclarecida e comprometida com a verdade, junto com os seus prezados leitores (que lamberam os beiços de satisfação com o famigerado artigo e se alvoroçaram como urubus em cima da carniça) nunca tenham ouvido falar na Inquisição Protestante?

Ora, o que aquele artigo defende, simplesmente, é que os católicos não têm moral para se posicionar contra a cultura da morte, o socialismo, o homossexualismo e o feminismo, com a Inquisição figurando nas páginas da história da Igreja Católica. Acontece que eles, protestantes, também tiveram a sua própria Inquisição, que cometeu os mesmos atos (alguns ainda piores) que eles condenam na Inquisição Católica! - E isso não é a minha opinião, é um fato histórico inquestionável.

Curiosamente (de novo), o comentário que enviei expondo este fato, juntamente com referências históricas e fontes bibliográficas, não foi publicado por lá. Por que será que eu não fiquei surpreso? Mas não acaba por aí! Sobre a Inquisição Protestante, o fulano em pessoa teve o cinismo, o descaramento, a desfaçatez, a cara de pau... de postar a seguinte resposta:

"Gente, alguns católicos querem refutar meu artigo apelando para uma suposta 'Inquisição Protestante.' A tal 'Inquisição Protestante' é pura mitologia e só existe em livros católicos (!!!!)..." 

Chegar ao ponto de negar a realidade histórica da Inquisição Protestante!?!? Puxa! O ódio irracional à Igreja Católica fez o nosso varonil blogueiro despencar (de uma vez) ladeira da insanidade abaixo. Bem, se alguém quiser dicas de bibliografia histórica séria e isenta sobre a Inquisição Protestante, de autores não católicos, é só procurar um pouquinho. Não vai demorar mais do que um minuto para achar. Posso sugerir, por exemplo, o
Google Livros e o Google Acadêmico (clique nos links e terá algumas dúzias de exemplos).

Para encontrar a verdade dos fatos, basta um pouco de desapego e desejo honesto de conhecer essa verdade, mesmo que não seja aquela que queremos. Aliás, quem foi mesmo que torturou e mandou para a forca mais de 300 pessoas no famoso caso das "bruxas de Salém"? Que instituição religiosa levou à morte mais de 30.000 camponeses anabatistas na Alemanha? Sob ordens de quem o médico espanhol Miguel Servet Grizar (o descobridor da circulação sanguínea) foi condenado a morrer na fogueira? Quem mandou também para a fogueira mais de mil mulheres escocesas, num período de seis anos (1555 - 1561)? Pois é... Todos esses crimes foram cometidos pela Inquisição Protestante, que quase nunca é mencionada pelos críticos da Igreja Católica, principalmente porque esses críticos, na maioria das vezes, são protestantes.

Grupos da Inquisição Protestante esfolaram vivos os monges da Abadia de São Bernardo (Bremen), e depois passaram sal em suas carnes vivas, antes de pendurá-los no campanário do mosteiro. Em Augsburgo, em 1528, cerca de 170 anabatistas foram aprisionados por ordem do poder público protestante, sendo que muitos deles foram queimados vivos e outros marcados com ferro em brasa nas bochechas ou tiveram a língua cortada. Até o teólogo protestante Meyfart descreveu a tortura aplicada pela inquisição protestante, que ele presenciou, qualificando-a como uma “bestialidade”.

Sendo assim, afinal de contas, que moral os protestantes têm para atacar os católicos por conta da Inquisição, se a Inquisição Protestante cometeu as mesmas práticas, e algumas ainda mais cruéis para a sensibilidade atual??



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1. GONZAGA, João Bernardino G. A Inquisição em seu Mundo. São Paulo: Saraiva, 1993;
2. AYLLÓN, Fernando. El Tribunal de la Inquisición; De la leyenda a la historia. Lima, Fondo Editorial Del Congreso Del Perú, 1997;
3. WALSH, William T. Personajes de la Inquisición. Madrid, Espasa-Calpe, S. A., 1963;4. Revista História Viva nº 32 - especial Grandes Temas / A Redescoberta da Idade Média, São Paulo: Duetto março/2011;
5. FALBEL, Nachman. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977.
vozdaigreja.blogspot.com

O que seria dos protestantes sem a Igreja Católica?

Por Conde Loppeux de la Villanueva

Alguns evangélicos detestaram minhas explanações em um artigo que publiquei sobre os “pecados” históricos e teológicos do protestantismo (veja aqui). Meu amigo Julio Severo, blogueiro de confissão protestante e militante cristão pró-vida, postou uma resposta em sua página, que é cheia de equívocos históricos. Na verdade, suas declarações apenas revelaram aquilo que critiquei no imaginário protestante. A ideia errônea de uma Igreja Católica irremediavelmente corrupta e de uma “Reforma” moralizadora e salvadora da Cristandade. Até o dado momento, não vi nenhuma refutação realmente convincente.

O protestantismo do século XVI ameaçou destruir todas as bases culturais e históricas do Catolicismo na Europa. Em nome dos erros da Sola Scriptura e de outras idiossincrasias teológicas, queria apagar da memória cerca de quase mil e quinhentos anos de Cristianismo. Ou, na melhor das hipóteses, reescrever essa tradição e essa história conforme as conveniências de cada seita ou grupo político apologista do cisma reformado. De fato, esse apagão cultural ocorreu dentro da cultura protestante. Monarcas como Henrique VIII saquearam os mosteiros e templos católicos, expulsando ou executando monges e padres e obrigando toda a uma população a aderir à sua nascente igreja particular. Na Alemanha foi até pior. Igrejas foram queimadas, obras de arte foram destruídas e os católicos foram obrigados à conversão forçada ou assassinados. A Alemanha foi um verdadeiro palco de guerra civil e religiosa.

Até aqui falei de história. De fatos. Como católico, naturalmente que sempre me chamou a atenção essa lendária calúnia contra a Igreja Católica. O peso histórico dessas calúnias foi tão estrondoso que fez até o Papa João Paulo II declarar um mea-culpa inconveniente, já que o fez baseado em uma perspectiva enviesada. O Santo Padre pediu desculpas por boa fé. Porém, suas declarações acabam por legitimar meias verdades históricas. Os católicos da atualidade são bombardeados por um nível tal de estigma social, que ficam simplesmente desarmados e sem resposta, por ignorância.

Voltemos aos protestantes. Obviamente que a Igreja do século XVI não era exemplar. Estava acometida pelas corruptas famílias nobres da Itália e também era alvo de disputas pelos poderes seculares da Europa. A depravação do clero era algo que não poderia ser ignorado. Contudo, o problema central é vender a ideia de que o protestantismo significava uma oposição a isso. Eis a questão. O protestantismo representou a mais completa rebelião do poder secular contra o poder espiritual. Na verdade, a Reforma não foi uma mera consequência da corrupção da Igreja Católica. A rebelião protestante é parte e consequência dessa corrupção. A decadência do clero católico apenas serviu de pretexto.

Muitos ficaram ofendidos quando associei o protestantismo ao catarismo, heresia gnóstica do século XII, em Albi, na França e demais regiões da Itália e no norte da Espanha. Pois bem, se atentarmos aos anabatistas e aos rebeldes fanáticos luteranos de Thomas Müntzer ou mesmo da tirania religiosa de Münster, houve aberrações horripilantes de seitas milenaristas que pregavam a destruição da ordem vigente e a instituição de utopias sociais. Em muitos aspectos lembram as utopias totalitárias do século XX.

Friedrich Engels escreveu um artigo sobre a Reforma, onde fazia a objeção dialética entre Lutero e Müntzer. O primeiro, embora rebelado contra Roma, representava a situação encabeçada pelos príncipes protestantes alemães. Müntzer seria uma espécie de “teólogo da libertação” ou da “Missão Integral” do século XVI. Pregava a abolição da propriedade, a rejeição á autoridade e o estabelecimento de um regime comunista de bens. Insuflou uma violenta rebelião camponesa, que foi esmagada com incrível crueldade.

Entretanto, há um erro na análise de Engels, preso aos esquemas mentais do materialismo histórico. Lutero também era revolucionário. A diferença é que não era totalmente um utopista. Há quem diga que o monge agostiniano foi o pai do nacionalismo alemão. De fato, ele significou a ruptura da ordem internacional cristã da Idade Média, para o surgimento dos Estados nacionais e do absolutismo monárquico. Naturalmente que Lutero não foi o único gerador do processo. Outros fatos coexistiram com ele. Todavia, sua doutrina política deu força suficiente para que os príncipes rebeldes da Europa usassem as armas teológicas contra a Igreja Católica.

Pensemos aqui numa outra hipótese: se o protestantismo conquistasse toda a Europa, incluso Portugal, Itália e Espanha e destruísse a fé católica, qual seria o futuro do Cristianismo? Com certeza o prejuízo seria terrível. A história cristã tradicional seria apagada para se impor uma nova e fictícia ordem religiosa, embasada em erros históricos e teológicos.

Qualquer igreja ou seita evangélica ou “reformada” praticamente reescreveu toda a história do mundo antigo e medieval, em particular, sobre as origens da Igreja cristã, riscando o legado católico do mapa. Embora as historietas sobre uma suposta “Idade das Trevas” tenha surgido na prepotência do humanismo renascentista europeu, a militância protestante absorveu profundamente esse mito e a entronizou na sua propaganda anticatólica. A tônica central da historiografia protestante já se tornou um padrão de pensamento: havia uma idealizada “Igreja primitiva” que guardava as Escrituras como se fosse uma espécie de código penal. Essa “igreja” foi corrompida quando o Imperador Constantino “criou” a Igreja Católica e destruiu a espiritualidade dos primeiros cristãos. E do final do Império Romano até a Reforma, a Igreja viveu seu período de trevas, paganismo, corrupção e tirania dos papas e do clero romano, “escondendo” a Bíblia do povo e contrapondo sua “tradição” humana às Escrituras. Lutero e Calvino vieram “salvar” a igreja verdadeira do engodo romano buscando a “palavra de Deus”. Qual católico ignorante não se converteria ao protestantismo depois dessa ladainha? A [hilária] historiografia apologética protestante encontrada em qualquer livro parte uma teologia errônea para sustentar uma falsa história.

Uma das mais significativas lendas negras da historiografia protestante é basicamente sobre a Inquisição. Criou-se toda uma sorte de desinformações a respeito dessa instituição abominada pela posteridade. A lenda nasce, em parte, por conta das guerras entre a Espanha católica e as nações “reformadas” da Holanda e Inglaterra. A Espanha era o país mais poderoso, rico e culturalmente sofisticado da Europa. Era um gigantesco império, que envolvia a América do Sul, central e do norte, parte da Itália, parte da atual Bélgica e Holanda, além de algumas regiões da Alemanha. E um verdadeiro bastião militar da fé católica da Contra-Reforma. Se os protestantes não conseguiam derrotar os tércios e as armadas dos Áustrias espanhóis, ou seja, Carlos V e Felipe II, eles seriam derrotados pela propaganda. Dito e feito.

Os supostos horrores atribuídos à inquisição, com suas torturas abomináveis e sadismo dos inquisidores, são mitos cada vez mais desmistificados por historiadores sérios. Na verdade, a inquisição foi a primeira instituição europeia a limitar o uso da tortura para fins de confissão. Recordemos que a tortura era um método comum do tribunal criminal secular. Segundo estudiosos como Henry Kamen, a tortura era raramente empregada e havia restrições para seu uso.

Vende-se a ideia comum de que a Inquisição Espanhola foi uma instituição que impunha o terror e o medo generalizados nas populações católicas e também protestantes e esterilizou a cultura ibérica. Nada mais falso. A sociedade espanhola aceitava a inquisição como instituição legítima e defensora da ortodoxia. Recordemos que o ápice da Inquisição espanhola foi também o auge da cultura espanhola, o Siglo de Oro, onde uma penca de escritores, moralistas, teólogos, juristas, místicos, poetas e músicos brilhou por todo o século de Felipe II.

A inquisição espanhola não era feita de fanáticos ensandecidos por sadismo e violência. Era formada por homens eruditos e juristas de Salamanca, gente educada e letrada. No inicio do século XVI, cardeais inquisidores como Ximenes eram humanistas e admiradores de livros como os de Erasmo de Roterdã. Até Torquemada, um dos mais duros inquisidores, embora não o pior, era um homem de letras.

Foi a inquisição espanhola, contrariando toda uma tendência histérica e delirante do direito criminal europeu, que decretou, no início do século XVII, a inexistência do crime de bruxaria. Para o Consejo de la General y Suprema Inquisición, órgão maior da instituição em Madrid, a bruxaria não passava de superstição, difícil de ser comprovada, estimulada por pessoas loucas ou problemáticas. A lógica inquisitorial era muito simples: como juristas, queriam provas. Como não havia provas, não haveria também como afirmá-las de sua existência. Ademais, é comum brandir o espantalho contra a bruxaria, ao citar o Malleus Maleficarum dos dominicanos Kraemer e Sprenger ou o Manual da Inquisição, de Nicolaus Eymerich. Contudo, a inquisição espanhola rejeitou esses livros e, inclusive, proibiu-os.

Esse é um dado importante, pois a historiografia protestante finge ignorar a existência de sua própria inquisição. A caça às bruxas no século XVII foi um fenômeno mais protestante do que católico. Milhares de mulheres “bruxas” foram queimadas na Alemanha, Suíça, Inglaterra, Suécia, Dinamarca e demais países “reformados”. Até hoje há seitas protestantes que vêem bruxas pra tudo quanto é lado.

Outra grande lenda que leio no blog de Julio Severo é a de que a inquisição matou milhares de pessoas em toda a Europa. Nem todos os países católicos tinham uma “inquisição”. Com exceção de Portugal, Espanha e algumas regiões da Itália, os procedimentos para os crimes de heresia pertenciam ao poder secular. Quanto mais se aprofunda a pesquisa sobre o assunto, descobre-se que o número de pessoas entregues ao braço secular pelo sistema inquisitorial foi ínfimo. Em Portugal, ao menos, segundo Anita Nowinski, foram cerca de 1700 pessoas em dois séculos, embora esses números sejam francamente exagerados. Na Espanha, acreditava-se que o máximo seria de 10000 a 20000 pessoas em quatro séculos. Hoje, há dados que diminuem ainda mais esses números. De acordo com o historiador Agostino Borromeo, junto com o Simpósio Internacional sobre a Inquisição, realizado no Vaticano, em 1998, de 1540 a 1700, apenas 800 pessoas foram entregues ao braço secular. Numa ordem de 44 mil processos, apenas 2% dos acusados foram executados. As mortes atribuídas à inquisição em séculos são menores do que uma tarde de verão de qualquer ditadura do século XX. São menores, inclusive, do que as perseguições praticadas pelos próprios protestantes.

É necessário observar um mero detalhe: o mal daqueles que criticam a Inquisição é o de falhar pelo contexto histórico. Os valores religiosos tinham uma importância crucial, tanto nas sociedades católicas, como nas protestantes. A heresia, como a dissidência religiosa, era considerada uma grave ameaça à ordem social. O conceito de “liberdade religiosa” era completamente estranho ao homem europeu do século XVI. Nem Lutero e Calvino pregavam essa ideia. O “livre exame” era “livre” dentro dos preceitos protestantes. Cada religião tinha sua forma de manutenção da ordem social. Era um fator de unidade e de identidade e de preservação da ordem.

Julio Severo fala da perseguição da Inquisição aos judeus como se fosse uma realidade, quando na prática, ficou restrita a um caso particular em Portugal e Espanha. Cabe acrescentar que a inquisição não tinha jurisdição sobre os judeus. Nos Estados papais italianos havia uma comunidade judaica onde os judeus poderiam viver sua religião sem serem incomodados. Na República de Veneza era a mesma coisa. E por quê? Pelo simples fato de que a Inquisição só julgava pessoas batizadas no catolicismo. Os judeus espanhóis e portugueses julgados pela Inquisição tinham batismo católico e eram considerados como tais. O batismo implicava a aceitação das regras, valores e preceitos religiosos da comunidade católica. Era a partir dessas leis que os heréticos ou apóstatas eram inquiridos pelo tribunal eclesiástico.

Julio Severo também diz que a punição contra a dissidência religiosa é algo que contraria o Evangelho. De fato, no Evangelho não há prescrições impositivas contra dissidentes religiosos. Todavia, no Antigo Testamento, o que não faltam são prescrições contra blasfêmias ou práticas pagãs entre os judeus, cuja pena era a morte. Aliás, recordemos que os judeus da Diáspora viviam essas regras severas. Na “tolerante” Holanda protestante do século XVII, a comunidade judaica excomungou Uriel da Costa e Baruch de Spinoza, acusados de ateísmo. Os argumentos protestantes para queimar bruxar na Europa também se embasavam na interpretação literal do Antigo Testamento.

É verdade que a Inquisição católica cometeu muitas injustiças. Todavia, os “heterodoxos”, nas palavras do historiador espanhol Menéndez y Pelayo, não eram totalmente sacrossantos. Muitas heresias catalogadas na Espanha do século XVI, XVII e XVIII eram manifestações de loucuras coletivas que seriam punidas por qualquer sistema penal vigente. A onda de “dejados”, “alumbrados” outros tipos lunáticos que insuflavam uma massa fanatizada pelas palavras do louco herético, causava uma comoção social e uma desordem tal, que poderiam romper os laços de paz social. A extrema ferocidade com que a Espanha combateu a heresia protestante evitou que o país entrasse no campo da guerra civil européia, por conta das dissidências religiosas.

Aliás, um fator interessante dos tribunais protestantes é a sua interpretação literal e sectária da Bíblia, tornando sociedades e reinos em verdadeiras tiranias teocráticas. Com exceção da Inglaterra e Holanda, a linha do legalismo bíblico ganhou ares sectários de lei. Genebra foi um exemplo clássico disso. Por essa razão é que os tribunais protestantes foram tão impiedosos. A carência de distinção entre o secular e o religioso tornava o Estado implacável. A inquisição católica parece branda perto das perseguições protestantes. E lembremos que essas perseguições não se limitavam aos católicos. Protestantes também perseguiam protestantes. Anglicanos, luteranos, puritanos, anabatistas e outros se matavam entre si.

Os Estados Unidos, tão idolatrados por Julio Severo, nasceram da perseguição religiosa protestante contra outra seita protestante. E neste ponto, o meu amigo evangélico sustenta outro mito, que já tinha identificado no texto anterior: a supremacia do protestantismo como sociedade política, em detrimento da sociedade católica. Ele cria uma fantasiosa relação de tolerância entre calvinistas holandeses no nordeste do Brasil no século XVII (...).

Se o mito da prosperidade soa bonito na propaganda protestante, o mesmo se fala dos holandeses, em detrimento dos portugueses. É bem verdade que Mauricio de Nassau era um homem pragmático e um grande político patrocinador das artes e da cultura. Todavia, esse reino de “tolerância” não escondia o radicalismo dos calvinistas holandeses, que odiavam profundamente os católicos ibéricos, inclusos os brasileiros. A coexistência pacífica, aparentemente realista, não escamoteava o desprezo mútuo entre calvinistas, católicos e judeus. Ademais, Julio Severo faz uma confusão entre “liberdade religiosa” e “tolerância religiosa”. Os calvinistas holandeses poderiam tolerar a diferença religiosa, mas não a dissidência interna. Bastou que a Companhia das Índias Ocidentais pressionasse os senhores de engenho através de dívidas impagáveis, para que os católicos se reunissem em armas a expulsar os holandeses.

Ademais, Julio Severo se engana ao crer que a primeira tradução da Bíblia em português é do calvinista João Ferreira de Almeida. Talvez seja a mais famosa e aprofundada, mas a tradução da Bíblia para o português já existia desde o século XIII, na época do Rei Dom Dinis e dos monges do mosteiro de Alcobaça. A relativa desconfiança da Igreja com relação à tradução da Bíblia em vernáculo tinha menos a ver com elementos conspiratórios do que de evitar a disseminação de heresias e interpretações errôneas dos textos bíblicos.

Julio Severo interpreta erroneamente a história e acaba por idealizar algo irreal: “O Nordeste do Brasil muito perdeu por amor à Inquisição católica. Perdeu uma cultura de tolerância e respeito e ficou com uma cultura de trevas, inquisição e morte”.

A Inquisição Católica teve pouca relevância no Brasil. Julio Severo cria uma falsa associação entre Igreja e Inquisição, como se fossem elementos essenciais e institucionais. Há outro problema: por que os católicos ibéricos da América aceitariam se sujeitar a políticos protestantes visivelmente hostis à sua religião e que só acataram a tolerância por questões de puro pragmatismo? É preciso recordar os massacres praticados por holandeses contra os católicos no Brasil, em particular, os de Uriaçu e Cunhaú, em 1645. É preciso também recordar que os holandeses tomaram o nordeste através das armas. Eram inimigos de Portugal e da Igreja Católica.

Falou-se aqui em tolerância e prosperidade. Os países protestantes vendem a ideia de que são tolerantes em matéria de religião. É verdade que começaram a discutir sobre a “tolerância” no século XVII. Contudo, isso se deveu menos a uma mera liberalidade espiritual do que a uma solução civil e política para acabar com as matanças, guerras civis e hostilidades religiosas causadas por eles mesmos. A Inglaterra caiu numa guerra civil entre puritanos e anglicanos, entre o parlamento puritano e os anglicanos alinhados com o rei. A Alemanha foi o palco da guerra dos trinta anos. E a França, embora católica, caiu numa selvagem guerra civil no século XVI.

A discussão sobre a “tolerância”, embora mais antiga, ressurge deste contexto. Mas essa “tolerância” era também restrita. Na Inglaterra do século XVII, em particular, na Revolução Gloriosa, os protestantes se toleravam entre si, mas desprezavam os católicos e restringiam ao máximo suas liberdades civis e políticas. Na Irlanda, os ingleses tratavam os católicos como abaixo de animais. Alguém poderia afirmar que a aceitação de católicos nas instituições inglesas poderia ameaçar a volta do catolicismo como religião oficial. Mas a recíproca não era verdadeira nos países católicos com relação aos protestantes? Os protestantes também não queriam impor sua hegemonia e seu poder em detrimento dos católicos?

(...) Julio Severo omite outros dados: os rígidos valores protestantes, em particular, os calvinistas, criaram uma sociedade racista e discriminatória. Uma sociedade que discriminava católicos e outros tipos de povos considerados não-nórdicos ou não-protestantes. As toneladas de inverdades que a cultura protestante americana criou sobre a Igreja Católica são assustadoras. O nível de mentiras chega a ser patológico. São essas falsidades que se repetem à exaustão nas escolas dominicais de qualquer igreja protestante. O ódio a Igreja Católica é dos mais caros dogmas protestantes.

(...) Aliás, por que será que os protestantes estão escandalizados com minhas observações? Eles ganham espaço pelo mesmo imaginário faccioso que repetem dos católicos. O mito da Reforma protestante, o mito da inquisição, o mito do “atraso” católico, dentre outros, é pregado à exaustão como “verdades”, quando na prática são mistificações. Mistificações estas apenas confirmadas pelas palavras de meu querido amigo Julio Severo.

Eu fiz uma pergunta em meu texto onde respondi apenas superficialmente: o que seria dos protestantes sem os católicos? A negação radical da Tradição, dos legados da Igreja medieval e mesmo da teologia cristã durante séculos seria a castração do Cristianismo, a destruição de suas origens. Até as origens do Evangelho seriam apagadas.

Percebe-se que essa castração já nasce com a Sola Scriptura. Mas “sola scriptura” baseado em quê? Em que história? Aquela inventada pelos protestantes, que ora chamam a Santa Madre Igreja de “intolerante” e “corrupta”, ao mesmo tempo em que essa mesma Igreja caluniada guardou fiel e honestamente a Bíblia? Para ser protestante é preciso apagar a história. É preciso passar uma borracha na tradição. É preciso seguir uma opinião pessoal em desfavor de toda uma Tradição Apostólica que foi repassada diretamente de Jesus Cristo, para ser reduzida às tendências caprichosas dos luteranos, calvinistas, anabatistas e milhares e milhares, senão milhões de seitas que mal se entendem entre si e se julgam a “igreja de Jesus”. Nem os cristãos gregos, cujo cisma gerou a primeira ruptura da Igreja em 1054, conseguiram ser tão odiosos contra a Tradição.

Nós, católicos, representamos a preservação de um passado civilizacional que se quer destruir. Será que o protestantismo possui a força civilizacional da Igreja Católica? Será que os norte-americanos representam, atualmente, alguma força neste sentido? Acredito que não. 


Se o protestantismo aceita o liberalismo teológico, por que não aceitaria outras formas de liberalismos? Não é curioso notar que o ateísmo cresce absurdamente nos países protestantes, justamente porque o protestantismo é a primeira etapa do secularismo? Na Europa, as igrejas reformadas aceitam casamentos e padres homossexuais, e admitem quaisquer tipos de aberrações morais em nome de certas conveniências politicamente corretas. A legalização do aborto é uma vitória de país protestante espalhado em países católicos. A apostasia é muito mais grave no protestantismo do que no catolicismo. A Igreja Católica pode ter padres, bispos e até papas ruins. Mas somos escravos de uma Tradição que não podemos mudar substancialmente. Essa Tradição, junto com a Sagrada Escritura e o Magistério, é a bussola do católico. A Igreja está nestes pilares.

Por que tanto ódio contra a Igreja Católica? Alguém tem dúvida de que se ela decair totalmente, a civilização ocidental vai junto para o ralo? A crise moral brasileira também é a crise moral do catolicismo. As seitas protestantes são capazes de compensar essa lacuna, por uma razão simples: o protestantismo é teologicamente fraco e suas bases culturais e religiosas são inconsistentes. A própria civilização europeia depende de suas origens católicas.

É por esse motivo que a Igreja Católica tem tantos detratores e inimigos. O ódio protestante pelo catolicismo é paradoxalmente o mesmo compartilhado por segmentos ateus, secularistas, iluministas, marxistas e outros. Eles podem ser aparentemente distintos nas idéias, mas possuem elementos em comum. A Igreja Católica representa a Tradição que teima em resistir. Ainda que o clero não saiba representá-la, ainda que até o papa cometa falhas, ainda que muitos católicos a ignorem, a sua sobrevivência perante os séculos deve ser uma Dádiva sobrenatural.
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Fonte:
Blog Conde Loppeux de la Villanueva, disponível em:
http://cavaleiroconde.blogspot.com.br/2013/10/o-que-seria-dos-protestantes-sem-igreja.html
Acesso 13/10/013

Gloriosa História da Igreja - 5

Gloriosa História da Igreja - 4

Parte 10 em diante

Gloriosa História da Igreja - 3

Retirado do site http://vozdaigreja.blogspot.com.br
 
A Essência da Igreja: o que é, afinal, a Igreja?

Assim, como judeu zeloso, bem formado, respeitado e influente, Saulo resolveu tentar tudo o que podia para conter o que ele via, - baseado na mais elementar lógica humana, - como uma terrível e absurda heresia. E começou a perseguir os cristãos, não esporadicamente, mas de forma bastante concreta. Adquiriu cartas do Sinédrio em Jerusalém e passou a percorrer várias cidades, saindo com cartas até a Síria, que fica fora de Jerusalém.

Vai então para Damasco, capital da Síria até hoje, sabendo que lá existe uma comunidade de cristãos. Vai com uma espécie de mandato judicial para encarcerar os cristãos. Por quê? Porque para ele os cristãos eram um grupo de fanáticos perigosos que seguem um louco blasfemo. E aqui se cumpre aquilo que Jesus havia previsto: "...Virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus. (Jo 16,2)". Por fidelidade a Deus, iriam perseguir e matar os cristãos.
E lá está Saulo no caminho para Damasco. - Não sabemos se ele está a pé ou a cavalo, apesar de tantas imagens tradicionais que lhe retratam, literalmente, caindo do cavalo. A narrativa dos Atos dos Apóstolos, no entanto, não o especifica. - Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Saulo disse: “Quem és, Senhor?” Respondeu a voz: “Eu sou Jesus, a quem tu estás perseguindo” (At 9,4).
Estamos diante de uma revelação. Vemos um homem que estava convicto de que fazia o bem por seguir Jesus, perseguindo a sua Igreja. Agora ele encontra este mesmo Jesus ressuscitado, como Luz que ilumina sua vida, e uma Luz tão forte que lhe provoca cegueira. E a voz do Senhor lhe esclarece. E como se deu a conversão de Saulo?
Sua conversão não foi individual. Não foi ele sozinho quem teve um contato com Jesus e resolveu mudar de vida. Sua conversão foi eclesial, isto é: desde o começo, essa conversão ocorreu a partir da Igreja, no seio da Igreja, com e para a Igreja.
Jesus Cristo identifica-se com a Igreja. Mostra e declara a Saulo, claramente, que existe uma identificação direta e inexorável entre Jesus e sua Igreja, e este é um grande e fundamental mistério da fé cristã. O Senhor diz a Saulo: "Por que me persegues?” (At 9,4), mas Saulo evidentemente não perseguia Jesus, que já havia ressuscitado e ascendido aos Céus. Saulo perseguia a Igreja, homens e mulheres frágeis e pecadores como eu e você. Para Saulo, não era a Jesus que perseguia e lançava na prisão, mas a homens e mulheres comuns. O próprio Cristo, no entanto, lhe revela de modo maravilhoso que aquilo que se faz a Igreja se faz a Jesus; perseguir a Igreja é perseguir Jesus, pois a igreja é, num sentido essencial, o próprio Jesus Cristo. Existe aí uma identificação
Para estudar a história da Igreja, precisamos antes de qualquer coisa entender o que é a Igreja. Precisamos conhecer a sua identidade. A Igreja é, de alguma forma, uma continuidade do fenômeno Jesus. A Igreja é a continuidade do Mistério da Encarnação divina. Deus, na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, encarnou-se, fez-se homem, mas ao ascender aos Céus, deixou ainda seu Corpo no mundo e na História. Esse corpo chama-se Igreja.
Em sua primeira carta aos coríntios, capítulo 11, S. Paulo fala do Corpo de Cristo na Eucaristia, sendo oferecido na Santa Missa. No capítulo 12, ele deixa de falar no Corpo de Cristo na Eucaristia e começa a falar do Corpo de Cristo que somos nós, membros da Igreja, como a explicar o que entendeu naquela tremenda experiência de sua conversão:
“Porque, como o corpo é um todo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo. Em um só Espírito fomos batizados todos nós, para formar um só corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres; e todos fomos impregnados do mesmo Espírito. Assim o corpo não consiste em um só membro, mas em muito (...) Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros.”

A Igreja, portanto, é:

# O Corpo de Cristo, sendo a Cabeça é o próprio Cristo (1Cor 12,12-27);

# A porta de entrada para a vida cristã, pois é por meio dela que recebemos o Batismo que nos qualifica como filhos e filhas de Deus e, portanto, a entrada para o Caminho da Salvação, que é Jesus, além de todos os Sacramentos;

# A coluna e o sustentáculo da Verdade (1Tm 3,15);

# Aquela que possui autoridade para ligar e desligar no Céu e na Terra (Mt 16,17-19 e 18,18);

# Aquela que possui autoridade para perdoar ou para reter os nossos pecados (Jo 20, 22ss);

# Aquela que produziu, canonizou, traduziu e preservou a Bíblia Sagrada, dede o princípio até hoje;

# Una, reconhecendo um só Senhor, professando uma só fé e um só Batismo (Ef 4,4-5);

# A "Casa do Deus Vivo..." (1Tm 3,15);

# A Assembléia dos Santos reunida, o Povo de Deus, e muito mais...

** Compreendemos, assim, o supremo absurdo daqueles que proclamam que a Igreja não tem importância, e que cada um pode, individualmente, interpretar as Sagradas Escrituras para criar novas igrejas a qualquer tempo, conforme seus desejos e interesses, segundo apenas o seu próprio entendimento, independentemente da Igreja Una e Indivisível que foi instituída por Nosso Senhor e Deus.

Gloriosa História da Igreja - 2


O que mais impressiona no estudo das primeiras comunidades cristãs é o fervor e a coragem dos fiéis. Diante das autoridades romanas e dos líderes religiosos judaicos daquele tempo, os fiéis cristãos não tinham medo de confessar a fé em Jesus. A presença do Espírito Santo é muito viva. Em cada comunidade local da Igreja havia ministros, presbíteros, diáconos... Todo fiel colocava sua vida, literalmente, à disposição da Igreja.

A atuação feminina era muito importante e expressiva, mas não havia confusão entre o papel do homem e o da mulher. As grandes sociedades da antiguidade, e aí se incluem tanto a romana quanto a judaica, eram machistas: a mulher era vista como propriedade do marido, e as crianças também podiam ser rejeitadas ou abandonadas pelos pais. Mas os cristãos tinham valores completamente diferentes. Em Cristo não há diferença de dignidade entre grego e judeu, homem e mulher, escravo e livre.

Todos se reuniam para celebrar a Eucaristia, especialmente no domingo (que substituiu o sábado como o sétimo dia dos cristãos, por causa da ressurreição do Senhor), rezavam juntos, partilhavam seus bens... O rito de iniciação cristã era o batismo, no qual os efei-tos da morte redentora de Cristo eram aplicados sobre o fiel. Havia ainda a imposição das mãos, ou Crisma, através da qual o fiel confir-mava o seu compromisso com a Fé e com a comunidade, e a unção dos enfermos, para curar e confortar os doentes.

Uma fonte importante sobre a vida das comunidades cristãs nos séculos I e II é a Didaqué, a Instrução dos Doze Apóstolos, uma espécie de Catecismo primitivo, que foi escrito no primeiro século, ainda antes do Evangelho segundo S. João e do Apocalipse. A primeira parte da Didaqué apresenta os dois caminhos que o homem pode escolher: o da vida e o da morte. Tem orientações para a conduta dos fiéis e exortações. Na segunda parte há uma descrição da vida sacramental e da oração. O batismo é feito em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e, quando a imersão não é possível, a água pode ser simplesmente derramada três vezes sobre a cabeça de quem vai receber o Sacramento. A celebração dominical da Missa é o Sacrifício Verdadeiro, e cumpre a profecia de Ml 1,10s.

A Didaqué também fala dos sacerdotes ou presbíteros, bispos e diáconos da Igreja, e adverte contra os “falsos profetas e corrup-tores”, e contra o anticristo que virá quando o fim estiver próximo.

Os primeiros cristãos, geralmente, eram gente simples. Ex-teriormente não se distinguiam das outras pessoas do seu tempo, mas viviam de modo honesto e digno. Não eram revolucionários, procuravam ser obedientes às autoridades e rezavam pelos governantes. Tanto os epíscopos (bispos) como os presbíteros e diáconos eram ordenados através da imposição de mãos. Esta estrutura ministerial deu origem à hierarquia da Igreja tal como a conhecemos hoje.

Sto. Inácio de Antioquia, já no primeiro século, declarou: “Que todos reverenciem os diáconos, o bispo e os presbíteros (padres), que são o Senado de Deus, a Assembleia dos Apóstolos”1. Desde os seus primórdios, a Igreja possui uma hierarquia, primeiro formada pelos Apóstolos e por S. Pedro, e esta constituição foi transmitida ininterruptamente através do Sacramento da Ordem.

Os Apóstolos fundaram comunidades e ordenaram pessoas para presidi-las. Estas, por sua vez, ordenaram suas sucessoras, e o processo prosseguiu continuamente, de tal modo que permite ligar cada bispo, cada padre, cada diácono da Igreja de hoje aos Apóstolos e, dos Apóstolos, ao próprio Jesus Cristo. De modo particular, o bispo de Roma é o sucessor do Apóstolo S. Pedro e, portanto, responsável por garantir a unidade e a integridade da fé da Igreja.

Outra característica importante dos primeiros cristãos era a ansiedade pela Volta do Senhor Jesus Cristo, a Parusia. Pelas cartas de S. Paulo, notamos que a volta próxima de Jesus era a crença comum. Nas assembleias litúrgicas ouvia-se a exclamação cheia de esperança: “Maranatha!” (Vem, Senhor!) Com o tempo, percebeu-se que a vinda de Jesus não era para aquelas primeiras gerações.

O cristianismo usou a imensa rede de estradas que interligava o Império Romano. Desenvolveu-se principalmente nas cidades. De boca em boca, através de mercadores, viajantes, judeus hele-nizados, artesãos e escravos, a Boa-Nova do Evangelho ia chegando aos lugares mais distantes. O Império de Roma tornou-se, afinal, a “Pátria do Cristianismo”.

Entre pseudo historiadores sensacionalistas, muito se fala sobre uma suposta oposição entre São Pedro e São Paulo, e alguns chegam a sugerir um suposto conflito de ideias entre os dois. Nada mais distante da verdade. Os Evangelhos mostram a importância de Pedro como chefe do Colégio Apostólico e líder da Igreja de Jesus Cristo. “Tu és Kepha (Pedra - Pedro) e sobre esta Kepha edificarei a minha Igreja”. Estas palavras do Senhor são mais do que suficientes para estabelecer a importância e a autoridade superior de Pedro. Junte-se a isto o testemunho dos Atos dos Apóstolos no próprio testemunho direto de Paulo, que fez questão de encontrar-se com Pedro para ter confirmada a sua missão.

Durante a perseguição de Agripa I, Pedro ficou preso, mas graças às orações da Igreja foi milagrosamente libertado. Segundo a Tradição, Pedro e Paulo foram as colunas da Igreja em Roma. Na Cidade Eterna, durante a perseguição de Nero, por volta do ano 64, as vidas dos dois Apóstolos foram ceifadas no martírio (Pedro morreu provavelmente no ano 64, e Paulo em 63, embora existam estudiosos que proponham outras datas). Crê-se que Paulo foi decapitado e Pedro crucificado de cabeça para baixo.

Quando Paulo estava já perto da morte, escreveu estas palavras: “Quanto a mim, já fui oferecido em libação, e chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha corrida, guardei a fé. Desde já me está reservada a coroa da justiça, que me dará o Senhor, Justo Juiz, naquele Dia; e não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor a sua Aparição” (2Tm 4,6-8).

João, Apóstolo e Evangelista

Entre os anos 92 e 96, João, "o discípulo que Jesus amava", encontrava-se na ilha de Patmos, deportado por ordem do imperador Domiciano. Do seu exílio, ele testemunhava a crueldade das perseguições contra a Igreja.

Inspirado por Deus, sentindo a necessidade de reagir contra o desespero e a angústia que ameaçavam os cristãos, escreveu um livro que é o grito de esperança e confiança em Deus de todo seguidor de Jesus: o Apocalipse.

Quando o primeiro século chega ao seu final, o apóstolo é um ancião venerável, cheio de glória e santidade, reverenciado por toda a Igreja. O seu corpo conservava as marcas do suplício do óleo fervente, do qual tinha sobrevivido milagrosamente.

Entre 96 e 104 conclui o quarto Evangelho. Entre suas maiores preocupações estavam as heresias e os erros que ameaçavam a integridade da fé. Seu estilo teológico é bem particular, marcado pela influência grega (fala do Verbo ou Logos, por exemplo).

Com a morte do discípulo que Jesus amava, aquele que recebeu Maria em sua casa como mãe, que viu o sangue e a água saindo do lado do Salvador e que conheceu e tocou com as mãos o Verbo da Vida, encerram-se os tempos apostólicos.

Os demais Apóstolos

Há uma tradição, que consta dos escritos de Eusébio de Cesaréia (265-340aC), que diz que os Apóstolos foram dispersos pelos quatro cantos da Terra. Tomé teria ido para o país dos partos, Mateus para a Etiópia, André para a Cítia e João para a Ásia, falecendo em Éfeso.

Marcos teria partido para a evangelização no Egito. Tiago, irmão de João, foi decapitado por ordem de Agripa I, em 44. Em 62, o sumo sacerdote Anã manda apedrejar Tiago, irmão do Senhor e bispo de Jerusalém. Ele é sucedido por Simeão, filho de Cleófas e de Maria, irmã da mãe de Jesus.

A compreensão da autêntica história da Igreja é de fundamental importância para todo cristão, em especial nos tempos atuais, em que temos a impressão de que a crítica infundada à Igreja Católica tornou-se uma espécie de hobby para muitos professores de História, sejam do ensino médio ou universitários. A Igreja Católica é como um boneco em que todos gostam de bater. Metaforicamente falando, qualquer pedaço de pau serve para malhar a Igreja, e esse professor ainda é visto como um sujeito inteligente, crítico, moderno, de pensamento livre, etc.

A Igreja é muitas vezes apresentada como uma instituição muito poderosa, uma ditadora que comanda os usos e costumes das nações com mão de ferro, impondo regras aos pobres cidadãos ignorantes, e quem pensa assim invariavelmente gostaria de ver todo o poder nas mãos do Estado. No entendimento dessas pessoas, ao Estado “laico” é que caberia o poder de decisão sobre absolutamente todas as coisas: o Estado é que deveria mandar, por exemplo, na educação dos nossos filhos, ditando a todos o que é moralmente certo e o que é errado, aquilo que cada um de nós deve ou não fazer... E não a religião. Curioso é que essa experiência já foi feita por muitas nações, em diversas ocasiões, e o resultado foi sempre desastroso. A receita mais certa para o desastre de um país é não saber olhar para o passado e aprender com ele.

Ocorre que a religião é uma parte intrínseca do ser humano. Hoje sabemos que, no sentido mais puro da palavra, não ter fé é impossível para os seres humanos, e os místicos já o haviam entendido bem antes de a antropologia descobrir que, além de racional, psíquico, social, político e inacabado, o homem é um ser religioso. Se formos fundo na questão, perceberemos que negar as formas religiosas é apenas mais uma forma religiosa. - Uma forma religiosa negativa. - O sobrenatural e o divino estão relacionados ao ser religioso que é o homem; neles o homem busca respostas e soluções para os seus problemas existenciais, e isso sempre foi assim. Escavações arqueológicas não cessam de encontrar vestígios de rituais religiosos praticados nos tempos das cavernas. Por isso é que a religião tem uma dimensão ética fundamental nas sociedades, bem captada pelo historiador inglês Arnold Joseph Toynbee, que disse: “A religião leva a notar que há no mundo a presença de algo espiritual maior do que o próprio ser humano”.

Nessa relação homem e Divindade, no que se pode chamar transcendência e imanência, o homem corresponde a esse grande Mistério, que é superior às suas possibilidades e conhecimentos, usando de orações, gestos, cerimônias e rituais para manifestar a sua reverência, gratidão e comprometimento, estabelecendo dessa maneira um contato com o Sagrado.

É por isso que nunca, em tempo algum, um governo poderá podar do ser humano aquilo que lhe é intrínseco, que está na sua própria essência e natureza. Mais do que isso, o conceito torto de "laicismo" que temos hoje, se examinado bem “de perto”, revela-se bastante difuso, subjetivo. Ora, todo governo é regido por pessoas, e toda pessoa tem suas próprias ideologias, seu próprio sistema de crenças, acalenta ideais, tem princípios, códigos de moral. O socialismo, por exemplo, é uma ideologia bem definida, quase religiosa, com seus próprios dogmas e até ritos, por assim dizer. O mesmo podemos dizer do capitalismo ou de qualquer outro sistema político-econômico. Então, quando excluímos o fator Deus desse esquema, estamos apenas mudando prioridades.

Um país que proíbe a exposição de crucifixos e Bíblias nos seus tribunais, por exemplo, mas incentiva a ostentação de um retrato do presidente da república, está apenas redefinindo quem é a autoridade última naquele lugar: não se espera mais o auxílio divino, universal e transcendente para se fazer justiça, e sim confia-se na autoridade humana. Não mais manifestamos confiança em Deus, mas sim no Estado. Não mais reverenciamos Deus, mas sim o homem.

Além de tudo, nada mais ridículo e ilusório do que ver a Igreja como uma grande ditadora, já que há muito tempo, - infelizmente, - a Igreja não exerce mais poder praticamente nenhum sobre as sociedades humanas. O poder que a Igreja tem é sobre as almas, é inspirar corações, mas se existe uma instituição que foi relegada à irrelevância dentro do quadro de poder que hoje compõe o establishment mundial é a Igreja Católica. A Igreja é, - ainda, - tolerada, exatamente devido à sua relevância junto aos sentimentos da população, mas não junto à classe política e dominante. E é por isso que esses professores tão "moderninhos" e "descolados", que se colocam como inimigos declarados da Igreja, em sua profunda ignorância prestam um enorme desserviço às consciências dos nossos jovens.

O estudo da História da Igreja, portanto, requer de nós um esforço especial, diferente. O sujeito a ser investigado é uma realidade impossível de ser compreendida apenas intelectualmente, Não é a mesma coisa que estudar, por exemplo, a História Antiga, a História da Europa, a História da Medicina, etc. O estudo da História da Igreja, para ser frutuoso, exige um certo preparo prévio. Isso porque a Igreja não é apenas um grupo de pessoas, unidas em sociedade, para obter um fim. A Igreja é mais do que isso. Existe um verdadeiro Mistério que é intrínseco à ela, não enquanto instituição, mas ontologicamente falando (ontologia é a ciência do ser, que estuda o ser em geral e sua essência, com suas propriedades transcendentais 1).

Para dar continuidade ao nosso estudo da história da Igreja, vamos analisar um testemunho histórico fundamental: a história da conversão de São Paulo Apóstolo.

Saulo de Tarso, isto é, Paulo, foi educado na cultura helenística, e como era filho de pais judeus devotos, foi levado a Jerusalém para estudar na escola de Gamaliel. Esse homem culto e devoto percebeu que havia um fenômeno importante e estranhíssimo ocorrendo no judaísmo de sua época: este fenômeno não era um movimento nem uma doutrina. Era uma pessoa. Alguém a quem chamavam Jesus de Nazaré.

As transformações em curso não estavam somente no que este homem dizia ou mesmo no que Ele fazia, nem sequer na beleza do que Ele pregava, pois haviam muitos candidatos a Messias com belas palavras e propondo doutrinas revolucionárias nessa época. O fenômeno estava na Pessoa, no Homem em si.  

Uma questão de simples coerência

De forma geral, qualquer pessoa que fala em Jesus o faz com respeito. Mesmo os não cristãos, e até aqueles que não têm fé alguma, em sua grande maioria, ao se referirem ao personagem Jesus o retratam pelo menos como um grande sábio, como um iluminado, um dos maiores pensadores da História. Acontece, porém, que se formos analisar a questão um pouco mais a fundo, somente aqueles que têm fé em Jesus como o Cristo, isto é, como o Filho de Deus e Salvador do mundo, é que podem considera-lo um sábio. Ora, para os que não têm essa fé, não há como considerar Jesus um “sábio”. Por quê? Porque Jesus, em todo seu discurso, apresentou-se e proclamou-se como Filho de Deus. Este é o ponto central de toda a sua mensagem, desde o começo até o final.

Sim. Aquilo que encontramos nos Evangelhos é algo de escandaloso. Ao observarmos o Sermão da Montanha, que é também apreciado enquanto obra literária até por aqueles que não têm fé, Jesus insistentemente diz: “Ouvistes o que foi dito (por Deus a Moisés); eu, porém, vos digo...” (Mt 5,21-22). Jesus afirma, simplesmente, que o que Ele diz tem a mesma autoridade do que aquilo que Deus disse a Moisés no Antigo Testamento! Ele está reformulando a Lei, está acrescentando “vírgulas”, esclarecendo a Palavra de Deus com autoridade divina. Jesus diz de si mesmo, literalmente: “Eu sou a Verdade”. Não diz apenas que diz a Verdade, que sua doutrina é verdadeira, que aponta para a Verdade. Ele diz, categoricamente: “Eu sou a Verdade!”.

Sendo assim, você precisa escolher, de duas, uma: ou você crê no que Jesus diz, que Ele é Deus, aceitando-o como Deus que se fez homem, ou então você precisa, - necessariamente, considerá-lo como uma louco varrido, alguém que não merece o menor respeito. Não há outra alternativa.

E aqui precisamos entrar numa questão bem específica. Ocorre que alguns chegam a dizer que Jesus nunca se declarou Deus. – uma afirmação completamente absurda, desprovida de qualquer sentido, que só pode partir de quem nunca leu os Evangelhos. - Por essa razão, apresentamos abaixo um breve estudo sobre a divindade de Jesus, segundo as Escrituras.

Jesus declarou-se Deus?

É possível crer nas Sagradas Escrituras e nos Evangelhos e não crer na divindade de Jesus, como fazem, por exemplo, os espíritas? Vejamos...

• O Evangelho segundo S. João já se inicia com a afirmação, - logo nos seus primeiros versículos, - de que Jesus é o Verbo de Deus, e que “o Verbo é Deus que se fez carne” (Jo 1, 1-5) . Encontramos ali a afirmação direta e textual que Jesus é Deus feito carne.

• Jesus diz de si mesmo: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30), - e a reação dos judeus foi, imediatamente, a de apedrejá-lo: “’Não te apedrejamos por alguma boa obra, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo” (Jo 10,33).

• Ainda no Evangelho segundo S. João (8,58), vemos: “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade, vos digo: antes que Abraão existisse, Eu Sou”. - O “Eu Sou” (אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה - Ehyeh-Asher-Ehyeh, contraído no Português ‘Eu Sou’) é um dos Nomes atribuídos a Deus pelos judeus, que mais uma vez tomaram pedras para apedrejar Jesus (Jo 8,59), por se declarar Deus.

• Jesus usou vinte e três vezes a expressão “EU SOU” nos Evangelhos.

• Dentro deste contexto, provavelmente não exista declaração mais importante do que aquela que Jesus fez aos judeus, no Evangelho segundo S. João 8,24: “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados; porque se não crerdes que Eu Sou, morrereis em vossos pecados”.

• O Livro de Atos diz: “Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que Ele resgatou com seu próprio Sangue.” – A Escritura mais uma vez afirma, sem nenhum rodeia, que foi Deus Quem comprou a igreja com Seu próprio Sangue, isto é, Jesus, que é Deus.

• S. Tomé, o discípulo, declara a Jesus ressuscitado: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28), e Jesus não o corrige, ao contrário, o estimula a perseverar na fé.

• O Apóstolo S. Paulo, em sua carta a Tito, encoraja: “Na expectativa da nossa esperança feliz, a aparição gloriosa de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo“ (2,13).

• A segunda carta de São Pedro começa assim: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, àqueles que, pela justiça do nosso Deus e do Salvador Jesus Cristo, alcançaram por partilha uma fé tão preciosa como a nossa...”.

• A carta aos Hebreus afirma que o próprio Deus Pai declara ao Filho, Jesus Cristo: “Ó Deus, o teu Trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de equidade é o cetro do teu Reino!” (1,8).

• Jesus declarou ainda: “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna” (Jo 6,47), e diversas outras afirmações semelhantes (Jo 6,35; 11,25 e outros). Nenhum profeta declarou tais consequências para quem não acreditasse nEle, diretamente. Ao contrário, todo profeta na Bíblia fala em Nome de Deus, e não em seu próprio nome, como fez o Cristo.

• "Eu sou a Luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a Luz da vida!” (Jo 8,12) / “Eu sou a Porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens!” (Jo 10,9) - Mais uma vez, em toda a Bíblia, somente Jesus pode dizer coisas como essas desta maneira, na primeira pessoa.

• “Disse-lhe Jesus: Eu sou a Ressurreição e a Vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá”. (Jo 11,25). – Observe-se que Ele não diz: “Sou aquele que conduz à ressurreição e à vida” ou “vou ensinar como alcançar a ressurreição e a vida”. Jesus afirma categoricamente que É Ele próprio a Ressurreição e a Vida.

• Jesus diz de si mesmo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida!” (Jo 14,6) – Mais uma vez, ele não diz que aponta o Caminho ou leva ao Caminho, nem que conduz à Verdade e à Vida. Afirma que É Ele mesmo o Caminho, a Verdade e a vida.

Demonstrado está que não se pode, ao mesmo tempo, crer nas Sagradas Escrituras e não crer na divindade de Jesus. Se eu não creio que Jesus é Deus, nego a Escritura. Simples assim.

Escândalo para os homens

Assim, retomando a nossa linha de raciocínio inicial, somos forçados a compreender e aceitar que um sujeito que se declara Deus ou diz a verdade, e é Deus de fato. ou mente e é um completo maluco, que só merece a nossa piedade. Se esse homem diz a verdade, então sim, é um sábio e muito mais do que isso, - pois só Deus é de fato plenamente Sábio. É por isso que não é legítimo admirar Jesus apenas como um sábio, um grande homem, um pensador importante.

É preciso compreender, então, que a figura de Jesus de Nazaré é completamente polêmica. Com Ele, não há meios termos, não há como acreditar numa parte do que Ele diz e descartar outras partes. E também não há como não crer nEle e mesmo assim considera-lo um grande homem, sábio, filósofo ou o que quer que seja. Se não admito que Ele era Deus, então só posso vê-lo como louco.

Saulo de Tarso sofreu com essa polêmica. Foi movido por ela. Achava que inadmissível que aquele sujeito estranho, de estranhas palavras, que foi humilhado pelos homens e morreu crucificado, de modo ultrajante, fosse Deus! E precisamos reconhecer que Paulo não estava sendo imprudente, ao contrário: ele estava sendo até bastante coerente e sensato! 

Assim, como judeu zeloso, bem formado, respeitado e influente, ele resolveu tentar tudo o que podia para conter o que ele via, - baseado na mais elementar lógica humana, - como uma terrível e absurda heresia.