sábado, 4 de maio de 2013

O que é a doutrina social da Igreja?

Transformar a sociedade com a força do Evangelho sempre foi um desafio para os cristãos. Mas em que critérios os católicos se apoiam para aplicar e fazer ter ressonância a Boa Nova de Jesus Cristo nas questões sociais?

Alexandre Ribeiro (para site Aleteia)
 
A expressão “doutrina social da Igreja” designa o conjunto de orientações da Igreja Católica para os temas sociais. Ela reúne os pronunciamentos do magistério católico sobre tudo que implica a presença do homem na sociedade e no contexto internacional. Trata-se de uma reflexão feita à luz da fé e da tradição eclesial.

A função da doutrina social é o anúncio de uma visão global do homem e da humanidade e a denúncia do pecado de injustiça e de violência que de vários modos atravessa a sociedade.
Sendo assim, não é uma ideologia, nem se confunde com as várias doutrinas políticas construídas pelo homem. Ela poderá encontrar pontos de concordância com as diversas ideologias e doutrinas políticas quando estas buscam a verdade e a construção do bem comum, mas irá denunciá-las sempre que se afastarem destes ideais.
A doutrina social da Igreja “situa-se no cruzamento da vida e da consciência cristã com as situações do mundo e exprime-se nos esforços que indivíduos, famílias, agentes culturais e sociais, políticos e homens de Estado realizam para lhe dar forma e aplicação na história” (João Paulo II, Carta encicl. Centesimus annus, 59).
Ela busca o desenvolvimento humano integral, que é “o desenvolvimento do homem todo e de todos os homens” (Paulo VI, Carta encicl. Populorum Progressio, 42; Bento XVI, Carta encicl. Caritas in veritate, 8).
Ao anunciar o Evangelho à sociedade em seu ordenamento político, econômico, jurídico e cultural, a Igreja quer atualizar no curso da história a mensagem de Jesus Cristo. Ela busca colaborar na construção do bem comum, iluminando as relações sociais com a luz do Evangelho.
A expressão “doutrina social” remonta a Pio XI (Carta encicl. Quadragesimo anno, 1931). Designa o corpus doutrinal referente à sociedade desenvolvido na Igreja a partir da encíclica Rerum novarum (1891), de Leão XIII. Em 2004, foi publicado o Compêndio de Doutrina Social da Igreja, organizado pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz, que apresenta de forma sistemática o conteúdo da doutrina social da Igreja produzido até aquela ocasião. A partir daí, este se tornou o documento de referência obrigatório para quem deseja aprofundar-se neste campo.
Considerado o primeiro grande documento da doutrina social da Igreja, a Rerum novarum aborda a questão operária no fim do século XIX. Leão XIII denuncia a penosa situação dos trabalhadores das fábricas, afligidos pela miséria, num contexto profundamente transformado pela revolução industrial. Depois da Rerum novarum, apareceram diversas encíclicas e mensagens referentes aos problemas sociais.
Com sua doutrina social, a Igreja não quer impor-se à sociedade, mas sim fornecer critérios de discernimento para a orientação e formação das consciências. Nesta perspectiva, a doutrina social cumpre uma função de anúncio de uma visão global do homem e da humanidade, e também de denúncia do pecado de injustiça e de violência que de vários modos atravessa a sociedade (Compêndio da Doutrina Social da Igreja – CDSI –, 81). Não entra em aspectos técnicos nem se apresenta como uma terceira via para substituir sistemas políticos ou econômicos.
Seu propósito é religioso, sendo matéria do campo da teologia moral. Sua finalidade é interpretar as realidades da existência do homem, examinando a sua conformidade com as linhas do ensinamento do Evangelho. É uma doutrina dirigida em especial a cada cristão que assume responsabilidades sociais, para que atue com justiça e caridade. Ou seja, visa a orientar o comportamento cristão.
Por isso, a doutrina social implica “responsabilidades referentes à construção, à organização e ao funcionamento da sociedade: obrigações políticas, econômicas, administrativas, vale dizer, de natureza secular, que pertencem aos fiéis leigos, não aos sacerdotes e aos religiosos” (CDSI, 83).
Os direitos humanos, o bem comum, a vida social, o desenvolvimento, a justiça, a família, o trabalho, a economia, a política, a comunidade internacional, o meio ambiente, a paz. Todos esses são campos sobre os quais a Igreja dirige a sua reflexão no contexto da doutrina social.
Todo homem é um ser aberto à relação com os outros na sociedade. Para assegurar o seu bem pessoal e familiar, cada pessoa é chamada a realizar-se plenamente, promovendo o desenvolvimento e o bem da própria sociedade. Assim, a pessoa é o centro do ensinamento social católico. Qualquer conteúdo da doutrina social encontra seu fundamento na dignidade da pessoa humana. Outros princípios básicos do ensinamento social são: o bem comum, a subsidiariedade e a solidariedade.
1 Dignidade da pessoa humana
A Igreja não pensa em primeiro lugar no Estado, no partido ou no grupo étnico. Pensa na pessoa como ser único e irrepetível, criado à imagem de Deus. Uma sociedade só será justa se souber respeitar a dignidade de cada pessoa. Portanto, a ordem social e o progresso devem ordenar-se segundo o bem das pessoas, pois a organização das coisas deve subordinar-se à ordem das pessoas e não o contrário (Gaudium et spes, 26).
O respeito à dignidade humana passa necessariamente por considerar o próximo como outro eu, sem excetuar ninguém. A vida do outro deve ser levada em consideração, assim como os meios necessários para mantê-la dignamente. Assim, o conteúdo da doutrina social é universal, pois considera a dignidade de cada pessoa como inalienável, única e necessária para construir o bem de todos.
2 Bem comum
O bem comum é o “conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição" (GS, 26). Não se trata de simples soma dos bens particulares de cada sujeito. É um bem indivisível, porque somente juntos se pode alcançá-lo, aumenta-lo e conservá-lo (CDSI, 164).
Para se colocar autenticamente ao serviço do ser humano, a sociedade deve colocar como meta o bem comum, enquanto bem de todos os homens e do homem todo (CIC, 1912).
O bem comum refere-se, por exemplo, a serviços essenciais ao ser humano: acesso a alimentação, habitação, trabalho, educação, cultura, transporte, saúde, informação, liberdade. Implica também o empenho pela paz, a organização dos poderes do Estado, um sólido ordenamento jurídico, a proteção do meio ambiente.
3 Subsidiariedade
O princípio da subsidiariedade indica que, na sociedade, as instituições e organismos de ordem superior devem se colocar em atitude de ajuda ('subsidium') – e, portanto, de apoio, promoção e incremento – em relação às menores (CDSI, 186). Por nível superior se entende aquelas que são mais gerais (por exemplo, o governo federal em relação aos governos regionais e estes em relação aos municipais) e os organismos estatais em relação às organizações não-governamentais. É importante notar que o princípio da subsidiariedade inverte a lógica dos governos muito centralizadores e assistencialistas. Para estes governos, o Estado deve organizar e controlar os serviços sociais e as organizações não governamentais apenas o ajudam nesta tarefa. Pelo princípio da subsidiariedade, as pessoas, ao se organizarem, devem procurar, a partir de sua história, de seus valores e princípios, as melhores soluções para seus problemas e o Estado deve ajuda-las a viabilizar estas soluções na busca do bem comum.
O objetivo fundamental deste princípio é garantir o protagonismo da pessoa na sua vida pessoal e social. Ele protege as pessoas dos abusos das instâncias sociais superiores – por exemplo, do Estado – e solicita que as instâncias superiores ajudem os indivíduos e grupos intermediários a desempenhar suas próprias funções (CDSI, 187).
A subsidiariedade não prega formas de centralização, de burocratização, de assistencialismo, de presença injustificada e excessiva do Estado e do aparato público, pois considera que tirar a responsabilidade da sociedade provoca a perda de energias humanas e o aumento exagerado do setor estatal.
De forma positiva, indica a necessidade de se dar suporte às pessoas, famílias, associações, iniciativas privadas, promovendo “uma adequada responsabilização do cidadão no seu ‘ser parte’ ativa da realidade política e social do País” (CDSI 187).
4 Solidariedade
A solidariedade não é um simples sentimento de compaixão pelos males sofridos por tantas pessoas próximas ou distantes. É a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem de todos e de cada um, porque “todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos” (Sollicitudo rei socialis, 38).
A solidariedade se apresenta sob dois aspectos complementares: o de princípio social – ordenador das instituições – e o de virtude moral – responsabilidade pessoal com o próximo (CDSI, 193).
A solidariedade se manifesta antes de tudo na distribuição dos bens e na remuneração do trabalho. O ensinamento social católico defende que os problemas socioeconômicos “só podem ser resolvidos com o auxílio da solidariedade: solidariedade dos pobres entre si, dos ricos e dos pobres, dos trabalhadores entre si, dos empregadores e dos empregados na empresa, solidariedade entra as nações e entre os povos” (CIC, 1940).
5 A integração entre subsidiariedade e solidariedade
Na aplicação da doutrina social da Igreja, os princípios da subsidiariedade e solidariedade sempre devem ser vistos e aplicados em conjunto, pois “o princípio de subsidiariedade há-de ser mantido estritamente ligado com o princípio de solidariedade e vice-versa, porque, se a subsidiariedade sem a solidariedade decai no particularismo social, a solidariedade sem a subsidiariedade decai no assistencialismo que humilha o sujeito necessitado” (Bento XVI, Carta encicl. Caritas in veritate, 58).
O ensinamento social católico tem o valor de um instrumento de evangelização. Anuncia e atualiza a mensagem de Jesus Cristo em campos fundamentais da vida do homem. Grandes temas da doutrina social são: a família, o trabalho, a vida econômica, a política, a comunidade internacional, a proteção do meio ambiente e a promoção da paz.
1 Família
A Igreja considera a família “como a primeira sociedade natural, titular de direitos próprios e originários, e a põe no centro da vida social”. Ela é “a célula primeira e vital da sociedade”, fundamento da vida das pessoas e base de todo ordenamento social (CDSI, 211).
A família tem o seu fundamento na livre vontade dos cônjuges de se unirem em matrimônio. Ela é um ambiente de vida, de doação recíproca do homem e da mulher, e de bem para as crianças. É comunidade natural na qual se experimenta a sociabilidade humana. Contribui “de modo único e insubstituível para o bem da sociedade” (CDSI, 213).
2 Trabalho
O trabalho humano tem uma dupla dimensão. Em sentido objetivo, é “o conjunto de atividades, recursos, instrumentos e técnicas de que o homem se serve para produzir”. Em sentido subjetivo, é “o agir do homem enquanto ser dinâmico, capaz de realizar as várias ações que pertencem ao processo do trabalho e que correspondem à sua vocação pessoal” (CDSI, 270).
O trabalho é um dever do homem. Mas nunca deve ser considerado simples mercadoria ou elemento impessoal da organização produtiva. O trabalho é expressão essencial da pessoa, sendo a própria pessoa o parâmetro da dignidade do trabalho (CDSI, 271).
3 Economia
O objeto da economia “é a formação da riqueza e o seu incremento progressivo, em termos não apenas quantitativos, mas qualitativos”. Tudo isso “é moralmente correto se orientado para o desenvolvimento global e solidário do homem e da sociedade em que ele vive e atua” (CDSI, 334).
O ensinamento social católico considera a liberdade da pessoa no campo econômico como um valor fundamental, reconhece a justa função do lucro, harmonizada com a capacidade da empresa de servir à sociedade. Defende o livre mercado, prega que o Estado assuma o princípio da subsidiariedade, valoriza a co-presença de ação pública e privada, defende a obtenção de um desenvolvimento integral e solidário para a humanidade.
4 Política
A comunidade política é “a unidade orgânica e organizadora de um verdadeiro povo”. Seu dever é perseguir o bem comum, atuando em vista de um ambiente humano em que seja oferecida aos cidadãos “a possibilidade de um real exercício dos direitos humanos e de um pleno cumprimento dos respectivos deveres” (CDSI, 385, 389).
O ensinamento social católico reconhece o valor do sistema da democracia e a validade do princípio da divisão dos poderes em um Estado. Afirma que a comunidade política é constituída para estar ao serviço da sociedade civil. Igreja e comunidade política são de natureza diversa, quer pela configuração, quer pela finalidade que buscam (CDSI, 424).
5 Comunidade internacional
A convivência entre as nações “funda-se nos mesmos valores que devem orientar a convivência entre os seres humanos: a verdade, a justiça, a solidariedade e a liberdade”. Essa convivência tem o direito como instrumento de garantia de sua ordem (CDSI 433, 434). A política internacional deve ser voltada para o objetivo da paz, do desenvolvimento e da luta contra a pobreza, mediante a adoção de medidas coordenadas.
O Magistério da Igreja defende a instituição de uma “autoridade pública universal, reconhecida por todos, que goze de poder eficiente, a fim de que sejam salvaguardadas a segurança, a observância da justiça e a garantia dos direitos” (CDSI, 441).
6 Meio ambiente
A Igreja Católica afirma que cuidar do meio ambiente é um desafio para toda a humanidade. Trata-se de um dever, comum e universal, de respeitar um bem que é coletivo e destinado a todos (CDSI, 466).
Perante os graves problemas ecológicos, o ensinamento católico defende uma mudança de mentalidade, que induza a adotar novos estilos de vida. Tais estilos devem ser inspirados na sobriedade, na temperança, na autodisciplina, no plano pessoal e social.
7 Paz
A paz é um valor e um dever universal. Ela é fruto da justiça, entendida em sentido amplo como o respeito ao equilíbrio de todas as dimensões da pessoa humana. A paz é também fruto do amor, é ato próprio e específico da caridade (CDSI, 494). A Igreja considera como parte integrante de sua missão a promoção da paz no mundo. Também convoca cada cidadão a essa tarefa.
Para a doutrina social da Igreja, o objetivo último de toda ação social é o desenvolvimento humano integral, ou seja, permitir que o desenvolvimento de todas as dimensões da pessoa (material, afetivo, social, espiritual) chegue igualmente a todos na sociedade.
Em 1967, o Papa Paulo VI publicou sua encíclica Populorum progressio, na qual apresentava o conceito de desenvolvimento humano integral. Com isto, criticava a ideia de que o progresso das nações podia ser medido apenas por seu crescimento econômico ou mesmo apenas pelo aumento do poder aquisitivo da população.
Assim Paulo VI se antecipava a reflexões críticas que se tornaram comuns nas décadas seguintes, através de ideias como a de desenvolvimento sustentável, difundida a partir de um documento de 1980 da União Internacional para a Conservação da Natureza, ou de índices de desenvolvimento humano e desenvolvimento como aumento das oportunidades sociais, da década de 1990. Em 2009, o Papa Bento XVI retomou o conceito, utilizando-o como base para a redação de sua encíclica Caritas in veritate.
O desenvolvimento humano integral implica que as possibilidades criadas pelo crescimento e desenvolvimento econômico das nações estejam igualmente ao alcance de todas as pessoas. Além disso, considera que o desenvolvimento não pode ser apenas material, mas deve incluir todas as dimensões da pessoa. Quem, por exemplo, aumentou muito seu poder aquisitivo, mas se fechou numa posição individualista e não colabora na construção do bem comum, ou não cresceu intelectualmente ou na vida espiritual, não se desenvolveu integralmente.
Num mundo cada vez mais rico, mas que permanece com suas desigualdades globais e sofre com a desumanização das relações sociais e do estilo de vida das populações com mais recursos, o conceito de desenvolvimento humano integral revela-se um instrumento para o diálogo com todas as tendências de pensamento social e político e para a denúncia da crise de sentido e das injustiças que afetam as sociedades.
Os papas e a Igreja têm trabalhado sem cessar para iluminar o vasto campo da vida social e oferecer, à luz do Evangelho, diretrizes para iluminar o caminho de um autêntico desenvolvimento do homem.
Apesar de ter marcado seu desenvolvimento de forma mais estruturada a partir do final do século XIX, a doutrina social é resultado da experiência ancestral e pastoral eclesial. “A Igreja jamais deixou de se interessar pela sociedade; não obstante, a encíclica Rerum novarum dá início a um novo caminho” (CDSI, 87).
Etapas do ensinamento social católico:
- De 1891 até hoje, a doutrina social da Igreja foi um ensinamento constante por parte de todos os papas.
- Leão XIII (1878-1903), na Rerum Novarum (1891), denunciou as condições miseráveis em que vivia a classe operária, protagonista da revolução industrial.
- Pio XI (1922-1939), na Quadragesimo Anno (1931), amplia a doutrina social cristã. Aborda o difícil tema do totalitarismo, encarnado nos regimes fascista, comunista, socialista e nazista.
- Pio XII (1939-1958), papa durante a guerra e o pós-guerra, focaliza a atenção nos “sinais dos tempos”. Ainda que não tenha publicado uma encíclica social, em seus numerosos discursos há uma imensa variedade de ensinamentos políticos, jurídicos, sociais e econômicos.
- João XXIII (1958-1963), na Mater et Magistra (1961) e na Pacen in Terris (1963), abre a doutrina social “a todos os homens de boa vontade” e, assim, a questão social se torna um tema universal que afeta e é responsabilidade de todos os homens e povos.
- Com a Constituição pastoral Gaudium et spes (1965), o Concílio Vaticano II sublinha o rosto de uma Igreja realmente solidária com o gênero humano e sua história. Já na declaração Dignitatis humanae (1965), o Concílio enfatiza o direito à liberdade religiosa.
- Paulo VI (1963-1978), na Populorum Progressio (1967) e na Octogesima adveniens (1971), afirma que o desenvolvimento “é o novo nome da paz” entre os povos. Ele cria o Pontifício Conselho “Justiça e Paz”.
- João Paulo II (1978-2005) compromete-se na difusão do ensinamento social em todos os continentes. Escreve três encíclicas sociais: Laborem Exercens (1981), Sollicitudo Rei Socialis (1987) e Centesimus Annum (1991). Além disso, o Compêndio da Doutrina Social da Igreja (2004) leva a sua assinatura apostólica.
- Bento XVI (2005), em sua encíclica social Caritas in veritate (2009), defende o desenvolvimento integral da pessoa pautado caridade e na verdade.

Referências

A Aleteia agradece pela colaboração e revisão deste artigo ao prof. Dr. Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). 

terça-feira, 30 de abril de 2013

O Jesus do mundo e motivo da decadência do apostolado católico!

O Jesus do mundo

Jesus não é um hippie "paz e amor, bicho", nem um revolucionário politiqueiro. Isso são ídolos. Jesus é Deus, portanto, que o homem seja apenas aquilo que ele deve ser: um adorador!
Uma grande revista de circulação nacional estampava em sua capa, anos atrás, o rosto de Jesus rodeado por símbolos hippies, com a seguinte manchete: "Deus é pop". A reportagem tratava da espiritualidade juvenil e da maneira particular com que cada um se relacionava com o divino. A revista ainda fazia questão de enfatizar as peculiaridades desses novos movimentos, sobretudo as novidades, como altar em forma de prancha, uso de rock n'roll durante os cultos, grandes baladas "cristãs", etc.
O que a matéria reflete não é uma novidade na história. Pelo contrário, ao longo dos séculos o que mais se viu foi a tentativa de desmontar Jesus Cristo, tomando apenas partes de seu Evangelho em detrimento de outras, somente para saciar ou atender às próprias veleidades. Esses que querem esquartejar Jesus (como se não bastasse a Crucifixão), dizem aceitar o Amor, mas se esquecem que esse Amor não compactua com nenhuma forma de mal nem com o pecado. Esquecem-se que o Amor também significa compromisso consigo mesmo e com o próximo. Que a misericórdia também significa justiça. Enfim, escolhem as partes de Jesus que mais lhes convém, como se Ele estivesse exposto numa prateleira de mercado.

Essa tendência de se tomar a parte pelo todo, segundo o Papa Emérito Bento XVI no livro Jesus de Nazaré, ficou mais evidente a partir da década de 1950. Ela se reflete nas adaptações de Cristo às várias modalidades de culto facilmente encontradas hoje em dia e que acabam por revelar um dramático empobrecimento da fé cristã, devido a uma recusa à personalidade "exigente" e "comprometedora" do Jesus original.
Qual o motivo dessa recusa? A resposta pode ser encontrada nas palavras de São Paulo à comunidade dos Romanos: "Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos" (Cf. Rm 1, 25). Colocaram-se acima do Criador e fizeram-se senhores do "bem" e do "mal". E é por isso que se faz necessário aos missionários do mundo corromper a verdadeira imagem do Salvador num garotão patético que aceita tudo pela "paz" e o "amor". A presença da Igreja no mundo é como a presença de uma mãe no quarto de um filho que aprontou. Ele sempre tentará convencê-la, seja por desculpas, seja por birras, a abonar suas traquinagens. Mas uma mãe que ama jamais o fará, quanto mais a Igreja!

Outra motivação para esta recusa pode ser encontrada nas teologias modernas que, na ânsia de "salvarem" Jesus das indagações científicas, concebem-No irreconhecível. Este mais representa um retrato ideológico que o próprio Verbo Encarnado. O patriarca de Veneza, Dom Francesco Moraglia, compara essa atitude a dos Discípulos de Emaús, pois são os teólogos que querem dizer para Cristo quem de fato Ele é:
"Vemos a imagem de uma certa teologia, mais desejosa do que iluminada, totalmente dedicada à árdua e improvável tentativa de salvar, através de suas próprias categorias, Jesus Cristo e a Sua Palavra. Mas, nesta imagem, somos representados nós mesmos, cada vez, com nossa programação pastoral, com nossos projetos e debates, à parte de uma verdadeira fé, pretendemos explicar a Jesus Cristo quem Ele é", Dom Francesco Moraglia.

Ora, não é o ser humano que diz a Jesus quem Ele é, mas é Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que diz quem é o ser humano. Adaptar Cristo a um estilo de vida não condizente à reta vivência cristã reflete um apego aos prazeres do mundo, no qual se faz mais importante o vício que o Cristo crucificado. Não, Jesus não é um hippie "paz e amor, bicho", nem um revolucionário politiqueiro. Isso são ídolos. Jesus é Deus, portanto, que o homem seja apenas aquilo que ele deve ser: um adorador!
O motivo da decadência do apostolado católico

A enxurrada de más notícias divulgadas pelos jornais e tantos outros meios de comunicação faz o católico, muitas vezes, se sentir impotente diante da maldade. É quase comum uma reação de desânimo, letargia e desespero. Ainda mais quando o ambiente em que se vive não está enraizado naquela fé viva, o fundamento da esperança e a certeza do que não se vê (Cf. Hb 11, 1), da qual falava São Paulo. Não obstante, outra atitude igualmente motivada pela falta de fé na graça divina é a do ativismo pessoal. São os auto-suficientes, os que se acham bons demais para perderem algumas horas na Igreja rezando.

Provavelmente, muitos já escutaram de algum amigo, parente ou mesmo dentro da Igreja que a oração não passa de perda de tempo. Qual o propósito de rezar enquanto tantos sofrem, agonizam e passam fome? Não seria melhor alimentá-los, retirá-los da rua, ao invés de ficar diante um crucifixo repetindo palavras? Ora, não é preciso muito esforço para perceber a mediocridade desse tipo de pensamento. Uma pessoa que defenda tamanha estupidez tem uma visão muito míope sobre apostolado cristão e caridade. É evidente de que se trata de um indivíduo sem fé e materialista, mesmo que não perceba.
É óbvio que aqui não se defende o fideísmo de Lutero ou qualquer heresia do gênero. Não! A Igreja sabe muito bem da necessidade de se esforçar para entrar pela porta estreita. Sabe que o verdadeiro amor gera frutos e boas obras, mas essas boas obras só nascem de um diálogo profundo e amigável com Deus, um diálogo radicado na cruz. Com efeito, "toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo" (Cf. Mt 7, 19). Fica claro, assim, que tanto a fé sem obras quanto as obras sem fé são coisas abomináveis.
Um livro muito importante para a espiritualidade cristã, chamado "A alma de todo apostolado", fez questão de abordar esse tema em um de seus capítulos. A obra foi escrita por Dom Chautard, abade cisterciense, e foi o livro de cabeceira do Papa São Pio X.
"Se quereis que Deus abençõe e torne fecundo o vosso apostolado, empreendido para a sua glória, impregnai-vos bem do espírito de Jesus Cristo, procurando adquirir uma intensa vida interior. Para este fim, nao vos posso indicar melhor guia do que "A alma de todo o apostolado" de Dom Chautard, abade cisterciense. Recomendo-vos, calorosamente, esta obra, que estimo particularmente, e da qual fiz o meu próprio livro de cabeceira." (Palavras de São Pio X, durante a visita ad limina dos bispos do Canadá, em 1914).
No capítulo II, o abade recorda um ensinamento de um cardeal da época sobre a "heresia das obras". "Com esta expressão", diz Dom Chautard, o cardeal estigmatizava "a aberração de um apóstolo que, esquecendo‑se do seu papel secundário e subordinado"- ou seja, que Cristo é o protagonista, não ele - "unicamente esperasse o bom êxito do seu apostolado, da sua atividade pessoal e dos seus talentos".
O abade lembra Cristo como o autor e princípio da vida. Desse modo, os apóstolos jamais podem perder de vista a seguinte verdade: "que, para participar dessa vida e comunicá‑la aos outros, hão mister de ser enxertados no Homem‑Deus". Os discípulos de Jesus devem se reconhecer como "modestos canais" da graça do Senhor, não como seus autores. Por conseguinte, aqueles que menosprezam Deus e a oração caem em terrível desgraça, nas palavras de Dom Chautard, numa "atividade febril". Ademais, todas as suas obras estão fadadas ao fracasso, pois não foram edificadas na rocha, mas na areia:
"Salvo em tudo o que opera sobre as almas ex opere operato, Deus deve ao Redentor o subtrair ao apóstolo, cheio de arrogância, as suas melhores bênçãos para reservá‑las ao ramo que humildemente reconhece que somente pode haurir a sua seiva no tronco divino. De outra sorte, se abençoasse com resultados profundos e duradouros uma atividade envenenada por esse vírus a que chamamos heresia das obras, Deus dava mostras de animar essa desordem e permitir seu contágio".
Palavras fortes e, ao mesmo tempo, tão atuais. Como não reconhecê-las em tantos católicos que enxergam a fé apenas como um pressuposto, como dizia Bento XVI na Carta Apostólica Porta Fidei, e se lançam às obras negociando princípios que sob hipótese alguma poderiam ser negociados? Como não enxergá-las em tantos discursos ideológicos que propõem reflexões totalmente absurdas e contrárias à sã doutrina a pretexto de um mundo melhor, de um mundo onde todos sejam "iguais"? Se um apostolado vai mal, pode-se dizer quase com certeza divina, que se trata de um apostolado sem Deus ou que já O esqueceu. Ou se muda isso, ou corre-se o risco de transformar a Igreja naquilo que o Santo Padre Francisco denunciou tão sabiamente na sua primeira homilia, "numa ONG piedosa".


Por: Equipe Christo Nihil Praeponere, tirado site pradrepauloricardo.org

 

sábado, 27 de abril de 2013

A violência no Antigo Testamento

A revelação do Deus-Amor é progressiva

A história de Israel é a história de uma educação. Por fases, Deus faz seu povo sair da violência em nome de Deus, até o dia em que Jesus diz: “Bem-aventurados os mansos”.
A redação da Bíblia se estende aos últimos séculos antes de Jesus Cristo. Mas a história da qual ela dá testemunho se estende a dois milênios. Quando se fala da Bíblia, é preciso conhecer em que momento da Revelação ela se situa. No começo da Bíblia, os primeiros capítulos do livro do Gênesis falam da criação e da origem da humanidade: a violência não tem sua origem em Deus.
É um fato: muitas páginas da Bíblia são extremamente violentas. Esta violência é um dos obstáculos para a leitura do Antigo Testamento. Também alimenta a rejeição às religiões, em particular às monoteístas: a Bíblia seria um manual de fanatismo que o cristianismo e o islamismo teriam herdado.
De onde vem a violência, segundo a Escritura? Ela não vem de Deus. A criação é um ato de poder, não de violência. O homem tem como missão, entre outras, estabelecer a ordem neste mundo inacabado, imperfeito. Seu domínio sobre o mundo criado tem por objetivo que a paz reine.
Mas a serpente, o Maligno sugere ao homem que, comendo do fruto proibido, será capaz de rivalizar com Deus. Marido e mulher não se ajudam na hora de resistir à tentação. Ao contrário, um arrasta o outro e se deixam enganar: é o pecado.
A primeira consequência do pecado é a violência. Em meio à rivalidade, Caim mata Abel. Deus quer acabar com o ciclo infernal da violência e protege Caim. Mas a violência continua.
E chega a tal ponto que, como diz a Escritura, Deus se arrepende de ter criado o homem. “A terra está repleta de violência por causa dos homens”, diz a Noé. Que a humanidade tenha um novo começo, a partir do único justo que Deus encontra: Noé e sua família! O dilúvio engole pecadores e pecados. Deus não se vinga, mas não pode deixar indefinidamente que se propaguem o mal, a injustiça, a violência, o pecado.
No final, como sinal de uma nova aliança com a humanidade, Deus faz surgir no céu um arco que reúne a humanidade de um extremo ao outro da Terra. O arco, arma de guerra, se torna um símbolo da paz; anuncia um investimento ainda mais radical: a morte de Jesus na cruz como fonte de salvação.
Certamente, esses primeiros capítulos da Bíblia utilizam uma linguagem de imagens. Mas só as mentes superficiais encararão isso com superficialidade. Os textos esclarecem a situação do homem, de todos os homens, antes de que se inicie, com Abraão, a história de Israel.
Para dar-se a conhecer aos homens, Deus escolheu um homem – Abraão – e sua descendência. Quando os israelitas se tornam numerosos no Egito, o faraó é violento com eles, especialmente mandando matar todos os recém-nascidos do sexo masculino. Deus sai em defesa do seu povo: isso é justiça.
Israel não nasceu na violência. Nasceu de um chamado: Deus chama Abraão e o convida a sair do seu país, transladando-se, como nômade, com sua família e seu gado. Ele mesmo é um homem de paz. Intercede diante de Deus a favor de Sodoma, cidade gravemente pecadora. Em caso de conflito pela utilização de um poço em Bersebá, chega a uma solução com o seu rival; faz inclusive uma aliança com ele. É saudado por Melquisedec, rei de Shalem (Jerusalém), palavra que significa “paz”.
Mas se Abraão é mais pacífico, o que dizer de Deus? Deus impediu que Abraão lhe oferecesse seu filho em sacrifício e esta proibição permanecerá.
Em Jerusalém, o vale de Geena está amaldiçoado porque reis ímpios acreditaram atrair os favores divinos sacrificando seus filhos e filhas. Deus condena isso, no profeta Jeremias: “Uma coisa dessas eu nunca mandei fazer!” (Jr 7, 31).
Mas Deus é também aquele que faz chover fogo sobre Sodoma, quem destrói a cidade e sua população. O cristão recorda que, no Evangelho, dois discípulos queriam, um dia, fazer descer fogo do céu sobre um povo que se rejeitou a recebê-los e Jesus os repreende. Algumas versões acrescentam: “Vocês não sabem que espírito os anima”.
Observando estas duas cenas, é grande a tentação de opor Antigo e Novo Testamentos e de rejeitar o Antigo, que apresentaria o rosto de Deus mais odioso que desejável. No entanto, ainda quando destrói Sodoma, Deus não cede à arbitrariedade ou ao exagero: é toda a cidade de Sodoma que havia pecado, faltando a um dever humano fundamental, a hospitalidade.
Deus não é violento: é justo e protege.
Alguns séculos depois, no Egito, os descendentes de Abraão sofrem violência: são explorados e ameaçados de extermínio. Começa então outra fase da história sagrada. Deus vai salvar os israelitas “com mão forte e braço estendido”. Sob a condução de Moisés, os faz sair do Egito. Defende-os quando são atacados. E os faz entrar na Terra Prometida.
Em um mundo de violência, muito frequentemente o povo de Israel se encontra em estado de guerra. O que está em jogo é a sua independência nacional, mas também religiosa.
Deus escolheu, portanto, um povo que nunca será um império muito poderoso, mas que entra em combate com os poderes que o cercam. Estamos acostumados, pelo menos em nossa terra, a longos períodos de paz com os nossos vizinhos. Mas isso não era assim: a guerra era uma atividade cotidiana. Pensemos na Idade Média: na medida em que Deus se confia a este povo, as guerras de Israel têm um objetivo sagrado. “Deus Todo-Poderoso” é o Senhor dos exércitos celestiais, isto é, dos inúmeros astros, mas também dos exércitos de Israel que defendem a sua independência religiosa.
Mistura-se também com outros povos, correndo o risco de adotar também os seus deuses. Em alguns casos, este desejo de pureza religiosa levou ao aniquilamento de algumas populações. Mas parece que este tipo de conduta, pouco frequente, teve causas muito mais mundanas.
Com relação às instituições de Israel, preveem a pena de morte para um determinado número de faltas, mas se trata tanto de faltas sociais, como o homicídio e o adultério, como de faltas propriamente religiosas: por exemplo, quando alguém entrega seus filhos aos ídolos. Porém, tudo deve ser feito segundo o direito, sobre a base de muitos testemunhos, e o acusado deve ter a possibilidade de se defender. A “lei do talião” (“olho por olho, dente por dente”) não é um convite à vingança, mas uma limitação do castigo.
A violência, no final, só gera vítimas. Ela não será vencida com uma violência oposta. Se a violência vem do coração do homem, é o coração do homem que tem de curá-la. A violência sofrida deve se transformar em oferenda. É isso que Cristo fez. Mas inclusive depois de vinte séculos de educação por parte de Deus, nenhum contemporâneo de Jesus o entendeu. E nós, já o entendemos?
Em sua história, Israel foi mais frequentemente vítima da violência que autor dela. Pelos profetas, Deus faz seu povo descobrir progressivamente que a violência é certamente uma rua sem saída e que inclusive o exercício da força não porá fim ao pecado que está no homem. O importante é a conversão dos corações. A mudança total de perspectivas é anunciada pelas profecias do Servo de Deus: “Meu servo justificará muitos e suportará as culpas deles” (Is 53,11). O cristão reconhece em Jesus Cristo a realização desta profecia.
A história da violência na Bíblia é a história de uma educação. É inútil negar a presença da violência em nossos corações, na nossa sociedade, no nosso mundo. É preciso, em primeiro lugar, regulá-la, impedindo que invada todo o campo. Também é preciso saber que as regressões são possíveis: o século XX foi um século de extrema violência.
Se existe ódio, ele se dirige a todas as formas do mal: a rejeição de Deus, a falsidade, a injustiça, o desprezo dos outros, da sua dignidade, dos seus bens. É preciso odiar o pecado e amar o pecador. É o que o autor do salmo citado não podia entender: “Com grande ódio eu os odeio”; é o que Jesus realizou perfeitamente e que seus adversários não entenderam.
E nós, já entendemos isso?

Autor:

Dom Jacques Perrier, bispo emérito de Tarbes et Lourdes (França).

sábado, 6 de abril de 2013

Em memória do Salvador

Escrito por Dom Henrique: blog Visão Cristã.

Salmo 132/131
 
Neste Salmo, também ele um Cântico das Subidas, um Salmo Gradual, o peregrino recorda ao Deus de Israel um dado capital no caminho de fé do Povo santo: a promessa que o Eterno fez a Davi e à sua Casa, isto é, à sua dinastia. Essa promessa feita ao rei não é uma realidade meramente individual, em benefício de Davi e de sua prosperidade, mas trata-se de uma bênção para todo o povo de Israel. É assim: nas Escrituras Santas, na história do Povo de Deus, nenhuma promessa, nenhum dom, tem um sentido e um escopo somente pessoais. Todos os dons do Altíssimo, por mais pessoais que sejam, são para a realização do plano salvífico de Deus e, portanto, para o salvação e a vida de todos.
“Lembra-Te, Senhor de Davi,
de todas as suas fadigas,
como ele jurou ao Senhor,
ao Poderoso de Jacó fez um voto:
'Não entrarei sob o teto de minha casa,
não subirei ao leito do meu repouso,
não darei sono aos meus olhos,
nem descanso às minhas pálpebras,
enquanto não achar um lugar para o Senhor,
uma morada pera o Poderoso de Jacó”.
O texto começa com o memorial: pede que o Senhor lembre, recorde. Na verdade, segundo a mentalidade da Sagrada Escritura, para Deus, recordar é conservar na existência. Quando Deus esquece, aquilo que por Ele foi esquecido deixa de existir, torna-se pobre nada, volta ao pó, à inexistência! O memorial, o recordar tornando realmente presente, é central na espiritualidade bíblica. Basta pensar na Páscoa judaica, que anualmente faz memorial do Êxodo do Egito e do memorial da Páscoa de Cristo. Assim como cada geração de Israel, ao fazer memorial da Páscoa judaica, deve se considerar tirada do Egito, ela própria, através de cada época, assim também nós, cristãos, ao celebrarmos a Páscoa do Senhor em cada Eucaristia – e de modo particular no solene rito anual – devem ter a consciência de que, pelo Cristo, em Cristo e por Cristo, passamos da velha situação de pecado e vamos, já nesta vida, sendo impregnados da vida eterna, que termos em plenitude na celebração final, na Páscoa da morte, quando, finalmente, passaremos, ou melhor, terminaremos de passar, deste mundo para o Pai. Cada Eucaristia, portanto, é memorial feito diante do Senhor: “Lembra-Te, Pai, do Teu Filho, que na noite em que foi entregue tomou o pão e o vinho e disse: 'É Meu Corpo, é Meu Sangue. Celebrando, pois, o memorial da morte e ressurreição do Teu Filho, nós Te oferecemos o Pão da vida e o Cálice da salvação!'”
“Lembra-Te, Senhor, de Davi!” - Israel e a Igreja renovam sempre este apelo: Israel a caminho para a Jerusalém terrestre; a Igreja, novo Israel, peregrinando para a Jerusalém celeste! Israel antigo, pensando no Davi do passado e esperando o Davi-Messias no futuro; a Igreja, recordando o Davi-Messias-Jesus que já veio e esperando Sua Manifestação final, plena de Glória, quando também o antigo Israel, surpreso, admirado e comovido, haverá de reconhecê-Lo e adorá-Lo como Messias e Filho e Senhor e Deus bendito pelos séculos! Na liturgia cristã, esta constante recordação de Jesus-Messias aparece de modo muito belo e incisivo ao término de cada oração dirigida ao senhor Deus de Israel: tudo suplicamos “por Nosso Senhor Jesus Cristo Vosso Filho na unidade do Espírito Santo”. Toda a vida da Igreja dá-se no memorial do Senhor, no nome do Senhor, confiando no mérito e na graça salvífica do Senhor nosso Jesus Cristo!
Não deixa de ser intrigante que Davi seja considerado um herói, que seja tão querido na consciência de Israel, a ponto de ser invocado como modelo de dedicação da Deus nesta subida... Mas, a subida – não esqueçamos – é precisamente para a Casa de Deus na Cidade de Davi - e, portanto, Cidade do Messias! Davi foi um homem violento. A própria Escritura atesta isto e Deus mesmo o afirma: “Derramaste muito sangue e fizeste grandes guerras” (1Cr 22,8); Davi foi adúltero, infiel a Deus e assassino: adulterou com Betsabéia e covardemente mandou matar seu esposo (cf. 2Sm 11). Como o Senhor Deus pode beneficiar com tantas graças um homem assim? Como pode, logo ele, ser o depositário da bênção messiânica, a ponto de o santo Messias ser um descendente seu? “Lembra-Te, Senhor, de Davi!” - impressionante! Pela lógica do politicamente correto, da nossa justiça humana, Deus ao recordar de Davi, seria para puni-lo, amaldiçoá-lo, eliminar sua lembrança da terra dos vivos! Mas não é assim com o Eterno: Ele não é, não será nunca refém da nossa lógica e do hipócrita e sufocante politicamente correto! O Senhor age com o Coração e perscruta o coração! Davi pecou, Davi errou, Davi, às vezes, foi de uma mesquinhez assustadora e, no entanto, era um homem sincero, de todo coração apaixonado pelo Senhor. Basta recordar quando Natã denunciou o seu pecado com Betsabéia. Imediatamente, sem fingir, sem se esconder, sem procurar desculpas esfarrapadas, o rei cai em si e exclama: “Pequei contra o Senhor!” (2Sm 12,1-13). Esse Davi nunca temeu colocar-se nu, despojado diante do Santo de Israel, como quando dançou diante da Arca e foi duramente recriminado por Micol: “Que bela figura fez hoje o rei de Israel, desnudando-se aos olhares das escravas dos seus servidores, como faria um bufão qualquer!” Davi, com uma humildade de criança em relação a Deus, afirma: “É diante do Senhor que eu danço! Diante do senhor eu vou pulando. Humilhar-me-ei ainda mais, ficarei rebaixado aos meus próprios olhos!” (cf. 2Sm 6,20-22). É este homem espontâneo para com o Senhor, humilde, que de verdade se reconhece pequeno, pecador, pobre, dependente diante do Altíssimo, é a ele que o Senhor amou e escolheu pela simplicidade do seu coração. É tocante a oração que o velho rei faz ao Senhor antes de partir deste mundo: “Eu sei, meu Deus, que Tu examinas os corações e Te comprazes com a sinceridade: foi de coração sincero que Te dediquei todas estas coisas!” (1Cr 29,17). Eis a lógica do Senhor, eis quem Lhe agrada, eis quem é grande aos Seus olhos: quem O ama, quem O procura, quem não pretende justificar-se diante Dele mascarando seu pecado, quem se reconhece pequeno e devedor, indigno de estar na Sua presença! - Recorda-Te, Senhor, de Davi! Recorda-Te do verdadeiro Davi, cravado na cruz por Teu amor! Por causa de Davi, Teu Servo, salva-nos, ó Santo de Israel!
O peregrino suplica ao Senhor que recorde do voto, da promessa que Davi Lhe fez: construir uma Casa para o Santo de Israel – precisamente para esta Casa os pés do Salmista se dirigem agora! Deus aceitou a intenção da oferta de Davi porque nascia da pureza, do amor, da sinceridade do seu coração. Mas, não esqueçamos: Davi é apenas uma profecia, uma figura, uma preparação: é o verdadeiro Davi, o Messias, quem preparará a Casa definitiva para o Senhor. Mas, aprofundemos.
Primeiramente, o Eterno deixa claro que não será Davi quem Lhe edificará uma Casa, mas seu filho, Salomão (SHaLoMoN, o pacífico, o portador do SHaLoM). Davi não foi homem de paz, mas um guerreiro. Pois bem: somente Salomão poderá construir o Templo do Altíssimo, lugar no qual o povo encontrará a paz, o shalom da comunhão com o seu Deus; assim também somente o verdadeiro Salomão, Aquele que é o Príncipe da Paz, o que dá o shalom definitivo, poderá construir o verdadeiro Templo, do qual o de pedra, de Jerusalém, era apenas anúncio e figura profética: “Destruí vós este templo e em três dias Eu o reerguerei” (Jo 2,18b). Podemos perguntar: que significam estas palavras de Jesus? O Templo de Jerusalém era o lugar do encontro do Senhor com o Seu povo, era expressão da aliança sagrada entre Israel e o seu Deus; era habitação da Glória do Eterno, simbolizada naquela nuvem de fumaça que impregnou o Lugar santo quando Salomão o dedicou a Deus (cf. 1Rs 8,10-12). Ora, pelas contínuas infidelidades de Israel e, sobretudo, pela não aceitação de Jesus como Messias, esse Templo já não teria mais razão de ser. O culto que ali era prestado estava se reduzindo a um culto meramente exterior, vazio de uma adoração que realmente brotasse do coração – precisamente como aquela que brotou do coração de Davi: “Foi de coração sincero que Te dediquei todas estas coisas!” (1Cr 22,8). Não sendo lugar do cultor sincero, da escuta humilde e obediente da Palavra do Eterno, o Templo estava sendo destruído no seu sentido profundo. Daí a frase de Jesus: “Estais destruindo este Templo? Podeis destruí-lo; ele é apenas uma figura! Agora destruís o Templo que é figura do Meu corpo, porque vós Me levareis a cruz, macerareis o Meu corpo. Estais fazendo com este Templo o que fareis com aquilo que ele simboliza: o Meu corpo. Mas, Eu reerguerei o verdadeiro Templo, do qual este, de pedra, é apenas um sinal profético!” Assim, o verdadeiro Templo, edificado pelo verdadeiro Salomão, é o próprio corpo morto e ressuscitado do Senhor. Este corpo ressuscitado, cheio da Glória do Espírito Santo, é o verdadeiro e definitivo “lugar” do encontro do homem com Deus, é o “lugar” da nossa paz, do eterno e definitivo shalom: “O castigo que havia de trazer-nos a paz caiu sobre Ele; sim, por Suas feridas fomos curados” (Is 53,5). O corpo morto e ressuscitado do Salvador é o lugar eterno e sacrossanto da nossa reconciliação: “Ele é a nossa paz: de ambos os povos – judeus e gentios – fez um só, suprimindo em Sua carne a inimizade (...) a fim de criar em Si mesmo um só Homem Novo, estabelecendo a paz (…) em um só Corpo, por meio da cruz” (Ef 2,14ss). Jesus, o verdadeiro Davi, oferecendo ao Pai com um coração puro o sacrifício de Sua própria existência humana cravada na cruz, preparou um lugar para o repouso do “Poderoso de Jacó”, e foi glorificado pelo Pai, tendo Seu corpo totalmente transfigurado em glória pela ação do Santo Espírito e, agora, é o lugar do encontro com o Deus Santo “em espírito e verdade” (Jo 4,24). Portanto, é no Corpo do Senhor que se encontra a verdadeira paz: Seu corpo no céu, Seu corpo que é a Igreja, Seu corpo que é a Eucaristia!
Também nós, unidos a Cristo, nos tornamos membros desse Corpo do Senhor e, portanto, também nós, templo santo de Deus (cf. 1Cor 6,15-20). Santo Agostinho nos previne: “Queres ser um lugar para o Senhor? Sê humilde, quieto, treme diante das palavras de Deus, e te tornarás aquilo que desejas ser”.

sábado, 9 de março de 2013

Igreja: inimiga íntima.

Escrito por Dom Henrique: blog Visão Cristã.

Com a renúncia do Papa Bento XVI e a perspectiva do Conclave que elegerá seu sucessor, a Igreja volta à crista da notícia. E os assuntos de que se tratam são pitorescos: todos ligados a intrigas e escândalos verdadeiros ou cavados, para apimentar o noticiário. São tantas suposições, intrigas, ilações maldosas... Que pensar dessa enésima presepada? Duas coisas, aparentemente contraditórias, paradoxais, mas ambas verdadeiras.
(1) O mundo não quer saber a motivação profunda da vida e da moral católica; já não compreende o que é ser cristão, não consegue distinguir o cristianismo de uma pretensão de ser politicamente correto... Não quer saber nem pode compreender, porque todas as exigências do cristianismo nascem do encontro com Alguém que o mundo jura que está morto, mas que os cristãos sabem que está vivo, ressuscitado; Alguém a Quem amamos, que nos interpela, que é exigente e faz de nós criaturas novas. A moral cristã somente pode ser compreendida plenamente por corações renovados. Diante dessa não compreensão da novidade do Evangelho, diante dessa incapacidade de apreciar e saborear as coisas que nascem do encontro com Cristo no Espírito, o mundo olha o cristianismo como algo meio exótico e anacrônico. Resta-lhe, então, apegar-se a questões pitorescas, escandalosas e polêmicas – presentes na Igreja desde o princípio do cristianismo. E nisso fica. Eis a agenda cristã para o mundão: preservativos, moral sexual, casamento dos padres, união gay, ordenação de mulheres, e por aí vai. Como se essas coisas fossem o essencial. Mas, a questão é outra: é a de ter encontrado o Senhor, de aderir a Cristo com paixão, experimentá-lo de verdade, nele crendo e estando disposto a por ele dar a vida.
(2) Por outro lado, paradoxalmente, o mundo se incomoda com o que a Igreja pensa e fala. Só agora, já são mais de 5000 jornalistas credenciados para acompanhar o Conclave! É que este Ocidente neopagão não pode passar sem a Igreja! Nasceu cristão católico, foi forjado pela Igreja, tornou-se parcialmente protestante, mas seu inconsciente continua cristão! A Igreja é como uma incômoda voz da consciência, que se deseja calar e não se consegue. O Ocidente precisa ainda ouvir a Igreja dizer a verdade, ainda que ele critique e amaldiçoe essa “velha bruxa” católica. Sem a Igreja, o Ocidente decairia de vez! Ele continuará precisando da Igreja, nem que seja para brigar com ela e dizer que a odeia... É como uma senhora ateia que, na eleição de Bento XVI, escrevera a um jornal italiano: “Sou ateia, mas sinto-me feliz pela eleição do novo papa, pois não posso me sentir segura na vida sem saber que, na janela do Vaticano, existe aquele homem vestido de branco, que nos alerta para coisas que gostaríamos de esquecer, mas que, ao fim das contas, nos permite continuar vivendo de modo mais ou menos decente”.
Pense nisso...

A Igreja segundo o Vaticano II

Escrito por Dom Henrique: blog Visão Cristã.

Estamos há 50 anos do Concílio Vaticano II e na expectativa do início do Conclave que elegerá o sucessor de Bento XVI. Quanta ideia torta em nome do Concílio! Apresento brevemente a Lumen Gentium, documento do Vaticano II que fala sobre a Igreja. Ei-la, a verdadeira Igreja do Vaticano II!
A primeira coisa importante: a “Luz dos povos” (Lumen Gentium) não é a Igreja, mas Cristo. É o que afirma logo a primeira frase do nosso documento: “Sendo Cristo a luz dos povos, este Sagrado Concílio, congregado no Espírito Santo, deseja ardentemente que a luz de Cristo, refletida na face da Igreja ilumine todos os homens, anunciando o Evangelho a toda criatura” (LG 1). Cristo é a luz, o sol; a Igreja é como a lua: só ilumina se refletir na treva do mundo a luz do sol, a luz de Cristo. Assim, quando a Igreja fala dela mesma, não é para ficar preocupada consigo própria, mas para melhor viver, testemunhar e anunciar Jesus Cristo, nosso único caminho, nossa única salvação.
Outro aspecto importante. O Concílio contempla a Igreja primeiramente como mistério, isto é, como parte do plano eterno de Deus para a salvação da humanidade. Assim: “Aos que acreditam em Cristo, (o Pai) quis convocá-los na santa Igreja, a qual, já prefigurada desde a origem do mundo e preparada admiravelmente na história do povo de Israel e na antiga aliança, e instituída nos últimos tempos (por Jesus Cristo), foi manifestada pela efusão do Espírito Santo (em Pentecostes) e será consumada em glória no fim dos séculos” (LG 2). A Igreja é, portanto, parte do plano de salvação de Deus. Ela não é nossa, é de Deus. Sua missão é ser o lugar, o espaço, a comunidade onde a humanidade pode encontrar Deus em Jesus Cristo e ser santificada no Seu Espírito Santo. Por isso a Igreja, preparada pelo Pai, fundada pelo Filho e continuamente santificada pelo Espírito, é semente do Reino de Deus que nela já atua misteriosamente (cf. LG 3). É na Igreja que se experimenta de modo mais intenso o Reino trazido por Jesus!
Essa Igreja fundada por Cristo está continuamente unida a Ele, como o corpo à cabeça. Cristo, pela ação do Espírito presente nos sacramentos, a santifica, a sustenta, a vivifica (cf. LG 7). Mas, onde se encontra a Igreja de Cristo? “Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste (permanece toda inteira, está realmente presente) na Igreja católica governada pelo Sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele ainda que fora do seu corpo se encontrem realmente vários elementos de santificação e de verdade” (LG 8).
O Concílio privilegia uma imagem para descrever a Igreja: o Povo de Deus. Dedica todo um capítulo a essa descrição. Dizer que a Igreja é Povo de Deus é recordar que nela se cumpre tudo quanto Deus havia preparado em Israel, é também afirmar que esse povo é caminheiro, peregrino neste mundo e, portanto, sempre necessitado de conversão. A pátria deste povo é o céu (cf. LG 9). Significa também afirmar que, neste povo, todos têm uma mesma dignidade, conferida pelo Batismo. Mais que ser padre, freira, papa, bispo, o fundamental é ser cristão! Tudo o mais decorre daí. Assim, todo batizado é membro do povo sacerdotal que, unido a Cristo se oferece ao Pai pela humanidade e procura construir o Reino de Deus enquanto caminha no mundo (LG 10-13). Este povo de Deus é um povo que está no mundo a serviço da salvação de toda a humanidade. A Igreja não existe para si mesma, mas para levar Cristo, Luz dos povos, a todos os homens. Por isso, todos os membros do Povo de Deus têm responsabilidade na ação missionária da Igreja. Mas, quem são os membros desse povo? Somente os batizados em Cristo Jesus. É muito importante deixar claro que “povo” aqui é o povo dos batizados, independente de classe social, raça, cultura ou modo de pensar. Então, o Povo de Deus é a Igreja nascida da Trindade Santa, peregrina neste mundo, testemunha e construtora do Reino trazido e anunciado pelo Senhor Jesus na potência do Espírito, e peregrina rumo à Pátria.
Depois de deixar claro que todo cristão é membro do Povo de Deus, o Concílio olha os dois grandes grupos presentes neste povo: os cristãos leigos e os cristãos ordenados para o ministério (Bispos, padres e diáconos). Aí, afirma que os Bispos são sucessores dos Apóstolos, em comunhão com o Papa, Sucessor de Pedro. Eles têm a autoridade para pastorear, ensinar e santificar em nome de Cristo. Afirma-se também que os padres são colaboradores dos Bispos e que os diáconos são servidores da comunidade, auxiliando o Bispo e os padres no seu ministério (LG 18-29). Os Bispos são verdadeiros representantes de Cristo na sua Igreja diocesana, à qual pastoreiam com a cooperação de seus padres. Na sua diocese, o Bispo edifica, no Espírito Santo, a Igreja, pela pregação da Palavra de Deus de acordo com a Tradição católica e apostólica, e também pela celebração dos santos sacramentos, pelos quais Cristo age e santifica o Seu rebanho. Depois o Documento se detém mais uma vez no papel do leigo para mostrar que eles, como membros do Povo de Deus, participam da missão de Cristo, já que receberam a unção no Batismo e na Crisma e são alimentados pela Eucaristia. Os leigos têm a missão profética de anunciar o Cristo Jesus e testemunhá-Lo diante do mundo (cf. LG 30-38).
Depois a Lumen Gentium recorda que todos na Igreja são chamados à santidade, isto é, a uma vida de profunda comunhão com o Senhor. Este é o maior testemunho e a maior obra da Igreja! (cf. LG 39-42). O Documento trata ainda de um carisma que, no meio do Povo de Deus, deve ser especial sinal dessa santidade: a vida religiosa, vida de especial e clara radicalidade (cf. LG 43- 47).
Sendo Povo de Deus peregrino, a Igreja nunca pode esquecer que sua pátria é o céu e é para lá que ela deve conduzir a humanidade toda. Por isso mesmo tem um papel importantíssimo neste mundo, que ninguém, a não ser ela, pode realizar: ser sinal do Reino que está para acontecer plenamente na glória. A Igreja deve despertar nos homens a saudade do céu e a fidelidade ao Cristo na terra! Por isso, tudo quanto de bom os homens construírem, tem a aprovação e solidariedade da Igreja; mas ela sabe, que a plenitude do Reino somente se dará na Glória (cf. LG 48-51)!
Finalmente, o Documento termina por contemplar a Virgem Maria como modelo de cristã e modelo da Igreja. Membro mais belo da Igreja, ela já nos espera na Glória, como sinal daquilo que todos nós seremos e a Igreja toda será em Cristo Jesus (cf. LG 52-69).

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Salvação ou Condenação?

Escrito por Dom Estêvão Bettencourt: Revista Pergunte e responderemos.

Antes do mais vamos colocar o problema em termos claros ante os nossos olhos; a seguir, analisaremos a sua solução clássica.
 
1. O problema
 
1.1. Consultando a Sagrada Escritura, o leitor nela encontra uma série de textos que afirmam a vontade salvífica universal de Deus (ou o desejo que o Senhor tem de salvar todos os homens).
 
a) Assim desde os inícios do Antigo Testamento ressoa a promessa de um futuro Redentor destinado a todos os homens sem restrição: «Porei inimizades entre a linhagem da mulher e a linhagem da serpente...» (cf. Gên 3,15s).
 
Quando em 1800 a. C. Deus escolhe Abraão e seus descendentes para constituírem a estirpe do Messias, prediz que por essa disposição serão largamente agraciados todos os povos: «Todas as nações da Terra serão abençoadas por teu intermédio» (Gên 12,2s; cf. 22,18). Por meio de Israel Deus quis proporcionar a salvação ao gênero humano inteiro, como, aliás, frequentemente inculcam os Profetas: cf. Is 49,6; 53,11; 60,1-4; 66,18-23; Zac 8,20-23; 14,16-19.
 
Por fim, o Senhor mais de uma vez nas Escrituras Sagradas declarou explicitamente que «não quer a morte do pecador, mas, sim, que se converta e viva» (Ez 33,11; cf. 18,27s), pois Ele ama todas as criaturas, principalmente os pecadores penitentes (cf. Sab ll,24s ; 12,16-22).
 
b) Muito mais rico em testemunhos congêneres é o Novo Testamento, onde Jesus aparece como «o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo» (cf. Jo 1,29) ou como o Filho que Deus Pai, por amor, entregou para salvar o mundo (cf. Jo 3,16). É São Paulo quem com a máxima clareza desvenda o desígnio divino:
 
«Antes do mais, exorto a que se façam preces, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens... Isto é bom e agradável aos olhos de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Pois há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens: Cristo Jesus, homem, que se deu em resgate por todos» (1 Tim 2,1-6).
 
Qualquer interpretação restritiva do texto seria alheia à intenção do Apóstolo: a salvação é universal, porque Cristo, o único Salvador, morreu por todos. Note-se, aliás, a tríplice ocorrência do termo «todos» na passagem acima.
 
São Pedro, por sua vez, faz observar que «o Senhor... procede com paciência..., não querendo que alguém pereça, mas, ao contrário, desejando que todos recorram à penitência» (2 Pdr 3,9).
 
Em conclusão, os textos até aqui citados dão a ver que da parte de Deus não há restrição alguma à salvação dos homens; todos recebem o mesmo chamado e os mesmos meios para entrarem no gozo da bem-aventurança eterna.
 
1.2. É inegável, porém, que, não obstante essa vontade salvífica universal, nem todos os homens de fato se salvam, conforme atesta a Sagrada Escritura mesma.
 
Chama-nos a atenção, por exemplo, o trecho no qual Cristo descreve o julgamento final, prevendo certo número de homens colocados à sua esquerda, onde ouvirão a sentença de reprovação: «Retirai-vos de Mim...!» «Estes, diz o Senhor, irão para o castigo eterno, ao passo que os justos entrarão na vida eterna» (cf. Mt 25,41-46).
 
É notório também o fecho da parábola das dez virgens, das quais cinco, retardatárias por sua negligência, batem à porta do Esposo, ouvindo por resposta : «Em verdade vos digo: não sei quem sois !» (Mt 25,12).
 
De resto, as parábolas escatológicas (ou concernentes ao fim dos tempos) costumam referir uma sentença de condenação para os que tiverem desprezado a graça de Deus; cf. Mt 25,30 (parábola dos talentos); Lc 19,24-27 (parábola das minas); Mt 24,50s (parábola do servo infiel); Mt 22,13 (parábola dos convidados às núpcias).
 
São Paulo enumera mesmo algumas categorias de pecadores que não poderão possuir o Reino de Deus :
 
«Não sabeis que os injustos não hão de possuir o Reino de Deus? Não vos iludais! Nem os fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os infames, nem os fraudulentos, nem os avarentos, nem os ebriosos, nem os caluniadores, nem os ladrões possuirão o Reino de Deus» (1 Cor 6, 9s).
Em outra passagem acrescenta o Apóstolo:
 
«As obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, magia, inimizades, contenda, ciúme, ira, rixas, discórdias, facções, sentimentos de inveja, embriaguez, orgias e outras coisas semelhantes. Já vos admoestei e de novo admoesto: aqueles que praticam essas coisas, não terão parte no Reino de Deus» (Gál 5,19-21).
 
1.3. Recapitulando a doutrina da Sagrada Escritura, verifica-se que duas proposições são, com igual certeza, incutidas pelo texto bíblico:
 
Deus quer, sim, salvar todos os homens;
na verdade, porém, nem todos se salvarão.
 
Daí resulta um problema não desprezível. Com efeito; nada acontece em contrariedade à soberana vontade de Deus, nem mesmo a ruína dos pecadores; como então conciliar a vontade salvífica universal do Criador com a perda dos réprobos de que falam Jesus e o Apóstolo ?
 
A resposta a esta questão foi-se esboçando desde o séc. III (Tertuliano); chegou à sua formulação adequada nos escritos de São João Damasceno (+749), formulação que São Tomás explicitou e sancionou definitivamente. Consideremo-la rapidamente.
 
2. A solução clássica
 
2.1. Nada acontece sem a participação da vontade de Deus, dizia-se atrás.
 
Faz-se mister, porém, distinguir entre vontade antecedente e vontade consequente.
Chama-se vontade antecedente a vontade que se aplica ao seu objeto considerado em si mesmo, ou abstração feita das notas concretas acidentais de que esse objeto se possa revestir na realidade. Vontade consequente, ao contrário, é a vontade que visa o seu objeto tal como ele existe na ordem real, concreta, ou tal como ele se apresenta no plano da história. Pode acontecer que certo objeto, considerado em si mesmo ou em suas notas essenciais, deva ser tido como bom; visto, porém, à luz das circunstâncias concretas em que ele realmente existe, poderá merecer apreciação totalmente diversa.
 
Aplicando a distinção à questão focalizada, diremos:
 
Deus, em sua vontade antecedente, quer que todos os homens se salvem. Com efeito; Deus outorgou a todos a mesma natureza sequiosa do Bem infinito. Por conseguinte, considerando o homem segundo as notas essenciais da sua natureza, Deus certamente quer a salvação ou a posse da bem-aventurança para todos os homens ; foi em vista da felicidade eterna, e somente em vista desta, que o Senhor criou o gênero humano.
 
Considerando, porém, cada indivíduo humano de per si, tal como comparece perante o juízo de Deus após o currículo desta vida, o Senhor não pode querer que todos tenham indistintamente a mesma sorte bem-aventurada, pois nisto haveria injustiça. Na realidade, alguns homens, abusando do livre arbítrio, frustram sua vocação para a bem-aventurança eterna, aderindo incondicionalmente às criaturas. Sobre esses o Senhor Deus tem que proferir sentença diversa da que compete às almas retas. Portanto, em sua vontade consequente, Deus, justo como é, não pode querer a salvação de todos os homens, mas há de querer o castigo dos maus (aliás, esse «querer o castigo dos maus», em última análise, não é senão «respeitar a livre opção dos que se quiseram saciar com as criaturas», como ainda mais claramente diremos abaixo).
 
Um caso análogo ilustra bem a doutrina proposta. Um juiz, antes que se ponha a julgar as causas dos acusados, quer, em vontade antecedente, absolver a todos, se possível. Acontece, porém, que, após examinar processo por processo, em sua vontade consequente, ele tem que querer a punição dos réus. Absolver a todos, sem distinção de inocentes e culpados, não seria justo nem contribuiria para o bem comum.
 
2.2. Algumas observações tornam-se agora oportunas a fim de se aprofundar quanto acaba de ser dito.
 
a) Como se entende, a distinção entre vontade antecedente e vontade consequente não implica imperfeição em Deus. Na verdade, tudo é simultâneo perante o Senhor; contudo as criaturas, às quais se aplica a vontade divina, podem e devem ser consideradas segundo modalidades diversas, ou seja, ora em si mesmas, no plano das meras idéias, ora revestidas de suas notas concretas e contingentes, no plano das realidades históricas, o que nos habilita a falar de vontade antecedente e vontade consequente em Deus.
 
b) Note-se ainda que a vontade antecedente do Senhor, que quer salvar todos os homens, não é mera veleidade estéril. Não, é vontade eficaz, no sentido de que ela quer e prepara para todos os homens, indistintamente, os meios necessários à salvação; contudo o Senhor dignou-se condicionar os resultados desses meios à aquiescência do livre arbítrio do homem, de sorte que, embora tudo esteja preparado da parte de Deus, nenhum fruto positivo de salvação se obtenha, caso o homem recuse as graças outorgadas pelo Pai do céu.
 
Em outros termos: Deus, ao querer a salvação de todos os homens em sua vontade antecedente, quer salvar sem extinguir o livre arbítrio do homem; antes, ... envolvendo a livre colaboração da criatura; o Todo-Poderoso não quis dotar o homem de livre arbítrio para reduzi-lo, no momento decisivo, à categoria de autômato.
 
c) A vontade consequente segundo a qual Deus não quer que tal ou tal indivíduo em particular se salve, é vontade meramente permissiva. Na verdade, o Senhor apenas permite que o homem se condene; nunca decreta a condenação da criatura por um ato positivo e explícito. Todas as vezes que uma alma humana se perde, deve-se dizer que foi essa criatura quem escolheu livremente tal sorte, desprezando os auxílios da graça a ela dispensados pelo Criador. Este apenas reconhece o alvitre do livre arbítrio criado; não o violenta, porque a violentação equivaleria a contradição e incoerência por parte do Criador (é por não levarem em conta este pormenor que tantas pessoas não veem como conciliar a bondade de Deus com a infelicidade póstuma do homem).
 
d) Naturalmente o estado de condenação não tem fim. Não é necessário que Deus decrete isto por um ato explícito de sua santíssima vontade; a perpetuidade da condenação póstuma é simples consequência do fato de que a alma humana é por si imortal (não consta de partes que se possam decompor, acarretando a morte); ela permanece, portanto, indefinidamente na disposição mesma em que a morte colheu o respectivo indivíduo.
 
E porque não poderia a alma mudar de disposições após a morte ?
 
Ela não o pode porque é somente em união com o corpo, nesta vida mortal, que a alma pode adquirir novas idéias e, mediante estas, novos afetos ou novas tendências... Tal é a psicologia humana.
 
e) Eis como em poucas palavras São João Damasceno resume toda a doutrina da vontade salvífica de Deus:
 
«Deus quer, por sua vontade primária e antecedente, que todos os homens sejam salvos e feitos participantes do seu Reino. Com efeito, Ele nos cria, não para nos punir, mas porque é bom, para nos fazer usufruir da sua bondade. ... Essa vontade primária e antecedente coincide propriamente com o desejo de Deus; em Deus está a causa dessa vontade. A outra vontade [ou modalidade do querer] é chamada consequente; consiste apenas numa permissão; ela tem sua raiz em nossos atos» (De fide orthodoxa II 29).
 
Eis os respectivos textos de São Tomás: In I Sent., dist. XLVT qu. 1, a. 1. ad 2; De verit. qu. XXIII a. 2; S. Theol. I qu. XIX a. 9; qu. XXII a. 2; qu. XXIH a. 5 ad 3.
 
2.3. Voltando agora ao texto de São Paulo, 1 Tim 2,1-5, observaremos um pormenor assaz significativo:
 
Ao afirmar que Deus quer a salvação de todos os homens o Apóstolo emprega o verbo thélo (thélei, em 1 Tim 2,4). Ora tal verbo nos livros do Novo Testamento em geral, significa frequentemente um desígnio que Deus mesmo se digna condicionar a certos fatores sem lhe atribuir eficácia absoluta (cf. Mt 23, 37: «Jerusalém, Jerusalém, ... quantas vezes quis [ethélesa] Eu reunir teus filhos como a galinha reúne os pintinhos debaixo de suas asas... e tu não o quiseste!»). Ao contrário, quando os escritores sagrados tencionam exprimir um decreto absoluto da vontade divina, usam o verbo boulomai; cf. 1 Cor 12, 11; Lc 10,22; 22,42; Hebr 6,17; Mt 11,27; Mc 15,15; At 13,36; 20,27.
 
Esta nota filológica corrobora bem a conclusão acima exposta de que a vontade salvífica universal de Deus não é absoluta, mas é, pelo próprio Senhor, condicionada à livre colaboração da criatura humana.
 
2.4. A titulo de ilustração, seguem-se algumas sentenças menos felizes, propostas por S. Agostinho para conciliar a vontade salvífica universal de Deus com a perda dos réprobos:
a) explicação distributiva: Deus não quer pròpriamente a salvação de cada criatura individual, mas a de representantes de todos os tipos humanos (reis, nobres, plebeus, doutos, indoutos, etc.); cf. Enchir. 103;
b) explicação restritiva: Deus quer a salvação de todos os homens que de fato venham a ser salvos; aqueles que se salvam só se salvam porque Deus o quer. — O S. Doutor ilustra esta interpretação mediante a seguinte imagem: dado que numa determinada aldeia só haja um mestre de escola, diz-se que todos os habitantes da aldeia recebem dele a sua instrução; é verdade que nem todos vão à escola, mas o fato é que os que vão à escola e aprendem letras só as aprendem por intermédio de tal mestre... Ora, de modo semelhante, conforme S. Agostinho, dir-se-ia que Deus quer salvar todos os homens, não porque de fato todos se salvem, mas porque os que se salvam, só se salvam por vontade de Deus; cf. De praedestin. sanct. 8,14;
c) explicação pedagógica: Na verdade, São Paulo apenas teria intencionado dizer: Deus quer que nós queiramos a salvação de todos os homens. Cf. de corrept. et gratia 15,47.
 
S. Agostinho só propôs tais sentenças à guisa de hipóteses e nos últimos escritos de sua vida; visava, com isso, reprimir o otimismo herético dos pelagianos, que atribuíam à natureza humana plena capacidade para se salvar por si mesma, sem o auxílio da graça divina. O S. Doutor, porém, nunca retratou a sentença clássica, que ele mesmo adotara em seus escritos anteriores, sentença segundo a qual a salvação é oferecida por Deus a todos os homens sem exceção. Consequentemente, não se dará grande peso a alguma das hipóteses acima recenseadas.
 
3. Declarações do magistério eclesiástico
 
Não se poderia encerrar a presente explanação sem se citarem algumas importantes afirmações de concílios e Sumos Pontífices... Darão a ver melhor como a Santa Igreja sempre repeliu qualquer concepção pessimista a respeito da salvação eterna, afirmando que só se perdem os homens que livremente resistem à graça divina. Eis os textos que mais interessam ao estudioso da questão:
1) O símbolo niceno-constantinopolitano no séc. IV professa: «O Filho de Deus.... por causa de nós, homens, e da nossa salvação, desceu dos céus... também foi crucificado em nosso favor» (Den- zinger, Enchiridion 86).
2) O concilio regional de Aries (475) promulgou uma carta assinada por doze bispos, a qual, entre outras teses, condenava as seguintes: «Aquele que perece, não recebeu os meios para se salvar» (can. 2); «Cristo não morreu por todos, nem quer que todos os homens se salvem» (cân. 6).
3) O concilio regional de Quierzy (853) teve que tomar posição frente a Godescalco, heresiarca segundo o qual Deus desde toda a eternidade predestinou os réprobos para a condenação eterna. Eis como se pronunciaram os Padres conciliares:
 
«Deus Todo-Poderoso quer que todos os homens, sem exceção, sejam salvos. Se certos dentre eles se salvam, isto se faz por dom d'Aquêle que salva; se, porém, certos perecem, isto acontece por culpa dos que perecem» (cân. 3);
 
«Não há, não houve, nem haverá jamais algum homem, do qual Cristo Jesus, Nosso Senhor, não tenha tomado a natureza. Da mesma forma, não há, não houve, nem haverá jamais homem por quem Ele não tenha sofrido, se bem que nem todos se beneficiem do resgate mediante o mistério de sua Paixão. O fato de que nem todos se beneficiam do resgate mediante o mistério de sua Paixão, não afeta de modo algum a grandeza e a abundância do preço, mas deve-se unicamente à atitude de quem não tem fé ou de quem não possui a fé que age pela caridade. O cálice da salvação humana, preparado para a nossa fraqueza pelo poder divino, contém o necessário para aproveitar a todos; mas, se alguém não o beber, não será por ele curado» (cân. 4).
 
4) Em 855 o concilio de Valença (França) afirmava:
«Ninguém é condenado por um juízo prévio de Deus, mas, sim, porque o mereceu mediante a sua própria iniquidade. Os maus, portanto, perecem não porque não puderam ser bons, mas porque não o quiseram e por sua culpa permaneceram na massa condenada em consequência do seu demérito original ou mesmo atual» (cân. 2).
 
«Reprovamos com horror aqueles que creem nessa monstruosidade, a saber: que alguns tenham sido predestinados ao mal pela potência divina... de tal sorte que não possam ser senão maus...» (cân 3).
 
5) Em 1547, o concilio ecumênico de Trento repetia palavras de S. Agostinho assim concebidas:
 
«Deus não preceitua coisas impossíveis; sempre que preceitua algo, Ele exorta o homem a fazer o que esteja em seu alcance, e a pedir o que ultrapasse esse seu alcance» (Denzinger, ob. cit. 804).
 
6) Em 1653, o Papa Inocêncio X condenava, entre outras proposições de Cornélio Jansênio, a seguinte:
 
«É semipelagiano (isto é, herético) dizer que Jesus Cristo morreu ou que derramou o seu sangue por todos os homens» (Denzinger 1096).
 
Essa proposição, interpretada no sentido de que Cristo só morreu pelos predestinados, foi tida como ímpia, blasfematória, injuriosa, ofensiva à bondade divina e herética.
 
7) Em 1690 Alexandre VIII anatematizava mais as seguintes sentenças jansenistas:
«Cristo se ofereceu a Deus Pai em sacrifício por nós, não pelos escolhidos apenas, mas também por todos os fiéis, e somente por estes» (Denzinger 1294).
 
«Os pagãos, os judeus, os hereges e outros homens semelhantes não recebem influxo algum de Jesus Cristo; donde deduzirás que sua vontade está destituída de todos os recursos para se impor, assim como de toda graça suficiente» (Denzinger 1295).
 
Os teólogos modernos têm estendido os seus estudos aos mais variados aspectos do problema: salvação dos pecadores obstinados, dos apóstatas, dos pagãos, das crianças falecidas sem batismo, etc. Concordam em afirmar que Deus quer a salvação de todos, concedendo a cada indivíduo as graças suficientes para isso; divergem, porém, entre si, ao tentarem indicar o modo como o Senhor distribui suas graças; em última análise, o motivo dessa divergência acidental é a soberania do comportamento divino, cujas sábias normas o homem jamais poderá discernir cabalmente.
 
Após quanto foi até aqui ponderado, o cristão fará consequentemente um ato de incondicional entrega às disposições da Providência Divina, que certamente tudo dirige para a santificação dos fiéis. O discípulo de Cristo procurará viver dessa certeza, sabendo que cada um de seus atos o pode e deve encaminhar para a vida eterna. E deixará de lado questões sutis, que só servem para desviar dos verdadeiros valores a atenção dos homens curiosos !